segunda-feira, março 10, 2014

MOTIVO DE PIADA



 O Brasil é  conhecido pelo resto do mundo como o país  do relaxamento,  da descontração  e do improviso, o que leva muita gente a não levar a sério o que aqui se diz e se faz.  Pode ser uma avaliação exagerada e preconceituosa, mas o Brasil faz por onde merecer tal fama. Já na década de sessenta do século passado, esse conceito  foi chancelado pelo então presidente francês, Charles De Gaulle, que, no auge da chamada “guerra da lagosta”, teria afirmado que “o Brasil não é um pais sério”. 


Agora, é o site da revista esportiva francesa So Foot que replica essa visão pejorativa ao analisar os percalços do Brasil na organização da Copa. O título da reportagem, Vive Le Bordel Bresilien, diz tudo sobre o país que mais tempo teve para organizar o referido evento esportivo, e, mesmo assim chega às portas da abertura com estádios inacabados, aeroportos desestruturados e mobilidade urbana caótica. Uma autêntica “bagunça”, como diz a reportagem.

A decisão absurda, extemporânea  e inconsequente do então  presidente Lula em fazer o Brasil assumir a organização dos dois maiores eventos  esportivos  do planeta teria de vir acompanhada de um  firme propósito em  realizá-los do modo  mais responsável e planejado  possível, sem o descaso com o dinheiro público , os atrasos e os problemas de toda ordem que vêm marcando  a (des)organização da Copa. Sendo assim, o que disse a publicação francesa sobre a nossa competência para organizar  eventos de tal porte é o que pensa a maioria da mídia européia. Definitivamente, o Brasil virou motivo de piada no mundo.
100314

quinta-feira, março 06, 2014

VENEZUELA COM OS OLHOS ABERTOS



Dizem que ninguém é castigado pelas faltas alheias, que repetimos os erros dos outros e tropeçamos, de vez em quando, na mesma pedra. Os céticos afirmam que os povos esquecem que fecham os olhos para o passado e voltam a cometer descuidos iguais. A Venezuela, contudo, começou a desmentir essa fatalidade. Em meio a uma realidade marcada pela insegurança, o desabastecimento e a inflação, os venezuelanos tratam de corrigir um deslize que tem durado muito tempo.

Tomada pela inteligência cubana, monitorada da Praça da Revolução e governada por um homem que incita a violência contra os diferentes, esta nação sul-americana encontra-se agora ante o dilema mais importante da sua história contemporânea. Totalitarismo ou democracia são as opções. O que está sendo decidido em suas ruas não é somente a permanência de Nicolás Maduro no poder, mas sim a existência mesma de um eixo de autoritarismo e personalismo que atravessa toda a América Latina. Um sistema que se disfarçou com palavreado oco, no estilo de: “socialismo do século XXI”, “revolução dos humildes”, “sonhos de Bolivar” e “nova esquerda”, mas cujas características fundamentais são a ambição de poder dos seus líderes, a ineficiência econômica e a redução das liberdades.

Não obstante os estudantes venezuelanos têm dado ao chavismo uma dose do seu próprio remédio. O setor juvenil e universitário tem sido neste caso o motor impulsor dos protestos. O que evidencia que Miraflores perdeu a porção mais rebelde e dinâmica de uma sociedade. Mesmo que os titulares oficialistas falem de conspiração fomentada do exterior, basta olhar as imagens de policiais e comandos armados golpeando os manifestantes para se compreender de onde vem a violência.

A Venezuela vive momentos difíceis, como todo despertar. Os oligarcas de vermelho não abandonarão o poder voluntariamente e Raúl Castro não deixará que lhe tirem tão facilmente a “galinha dos ovos de ouro”. Porém ao menos sabemos que os venezuelanos não percorrerão o mesmo caminho que nos foi imposto em Cuba. A mansidão, o medo, a cumplicidade e a fuga como única saída… Foram nossos erros. A Venezuela não quer repeti-los, não pode repeti-los.

Yoani Sánchez Tradução por Humberto Sisley