segunda-feira, abril 16, 2012

TRATAR DE POLÍTICA

Não pensava em ter que voltar a escrever sobre política tão cedo, mas se não o fizer, perderei o leitor que me cobra esse assunto. Não posso decepcioná-lo, depois de tê-lo acostumado a tratar dessa face da vida.


A bem da verdade, ando bastante desatualizado, tenho até má vontade de ler a crônica que trata de gente, em geral, de pouca moral; ainda me entediam os editoriais e as colunas especializadas que devorava no passado como fossem gotas de chocolate. Entendo, entretanto, a importância delas, o dever de seguir e comentar os casos policialescos a que se restringiu o ambiente político, porém corre-se o risco de se alienar as mesmas tendências bandidas e comentá-las com pacífica frieza. Isso pode ser um grave desserviço a nação. Chegam alguns comentários a parecer aconselhamentos para deixar mais desimpedida a malandragem e se confundem quase aplausos a dissimulação.



Atualmente, a divisão entre política e malandragem pode-se dizer que se anulou, uma invadiu a outra.


Não poderiam esses profissionais da informação insurgir a cada dia com uma nova e repetitiva catilinária ou explosão moralista. Correriam o risco de perder o emprego como aconteceu com Boris Casoy na Record ou de resvalar no óbvio. Mas eu, que estou afastado há muito tempo, não corro risco de me repetir, ainda posso subir ao púlpito, ou melhor, ao caixote, para lembrar que existiam limitações morais que foram absurdamente quebradas, avançou-se a ponto do retorno estar impossibilitado a não ser por um fenômeno traumático e apocalíptico também no sentido de revelação.


Afastado como fiquei por muitos meses do cotidiano político, às vezes imaginava que nunca mais teria que sorvê-lo. Tenho assim a sensação, agora como nunca, do esgarçamento do pano de fundo, das instituições, do regime democrático e das principais peças dessa comédia.


Colabora para o adensamento trágico da minha visão a falta de contraponto ao banditismo. Os mocinhos, se existiam, calaram-se, ou mais provavelmente, levaram cartão vermelho. É como meu pai dizia: "Mal comum, mezzo gaudio". Com todos chafurdando, trata-se agora de ver quem manteve a camisa abotoada?


A gravidade fica escondida na sensação de progresso que atingiu há muito tempo, até com maior intensidade, os países em desenvolvimento como o Brasil. Já é impensável frear o uso indiscriminado e pessoal da máquina oficial. Já estamos num segundo e mais grave ataque à democracia, que é tratorar as referências da moralidade, e passar sal nelas para nunca mais brotarem - fórmula que lembra o ditado lembrado por meu pai.


O caixa 2, o grande escoador de recursos subtraídos da coisa pública, virou financiamento não contabilizado de campanha. A gatunagem em suas inesgotáveis e sofisticadas versões foi obcecadamente defendida pelo chefe de Estado. Ele se interpôs, com sua estonteante popularidade - concedida a ele pela propaganda e pela capacidade inigualável de surfar qualquer ondulação do noticiário - entre os gatunos e a população, protegendo os próprios gatunos que furtavam o dinheiro do povo. Não se registraram acanhamentos em culpar a imprensa, demonizar os denunciantes, acusando complôs inexistentes, criando fatos e factoides pela conveniência do projeto imperial, do chefe e da chefa do Estado. Depois, o tempo e outras gatunagens se encarregavam de abrandar e arquivar as primeiras. Valeram as redes sociais e partidárias, bem como a máquina estatal, um exército foi assoldado como cinturão defensivo e, ao mesmo tempo ofensivo para apagar os incêndios ou criar outros que amortecessem a ira popular.


Aviltante, mas não houve uma só punição contra os larápios, comodamente abrigados nos meandros públicos, e em cargo de alta periculosidade financeira. Palocci saiu pelos fundos, ficou milionário em sua quarentena a ponto de lhe custar a demissão do novo cargo ministerial.


O país assistiu, também, impassível ao fuzilamento eleitoral comandado abertamente pelo ex-presidente, o mais recente "doctoris causae" e "gênio" que o Brasil ostenta para o mundo. Foi ele quem tirou do Congresso Nacional deputados e senadores de mais denso conteúdo humano e intelectual que não se ajoelhavam a ele e até o sombreavam pela estatura e qualidade de posições em favor da nação agredida.


O último Congresso perdeu valores e pasto de engorda. Foi tirado do Senado com a força do poderio econômico, Artur Virgilio, brindando o presidente, em seguida, a façanha. Com o mesmo copo de champanhe se inaugurou a temporada de terror com caça ao opositor.


Ficou complicado externar uma opinião contrária, num clima de unanimidade e leniência, circunstância que sempre foi definida de burra e burra continua.Hoje em plena e falseada democracia, temos no comando pessoas alucinadas com o poder e o desfrute impenitente da coisa pública. No encalço, os aspirantes não são de melhor estofo.Parecem convencidos que uma eleição é a outorga pública para lavrar incondicionalmente a República.


Triste, apagou-se a chama da utopia, do ideal, dos princípios morais, do simples e ajuizado respeito com as novas gerações. Hoje roubar, cobrar propinas, prevaricar é a norma, a exceção é a honestidade. Não se encontra facilmente quem possa falar de ética e os poucos são perseguidos.


Num sistema em que a elite política - os votados como melhores - é espantosamente comprometida com a pilhagem do Estado Republicano, valendo-se da ignorância, não há muito que se esperar.


O povo achou por bem perdoar o mensalão, reeleger um presidente que mantinha no gabinete ao lado o chefe do esquema. Ainda são raros e tênues os sinais de impaciência com a má administração, de intolerância com os descalabros, de vontade de mudança. As pesquisas renovam o amplo e irrestrito apoio, não apenas a pessoa de um presidente ou de seu sucessor, mas dessa forma aos métodos que foram institucionalizados.


A leniência alcançou seus vértices e contaminou a população, mais que o vazamento nuclear no Norte do Japão. E se nesse distante país, existe um jeito a curto prazo, nós teremos que penar algumas gerações para despoluir as consciências brasileiras.


Parece que estou desesperançado, mas não é. Passei a acreditar que as pessoas e até os povos passam por aquilo que mais lhe é necessário. Nada melhor do que aquilo que lhes acontece, ademais pelo voto. Depois das esbórnias, vem a doença para deixar mais clara a receita de uma vida feliz e equilibrada.


Não serei eu a viver num Brasil regenerado e mais justo, mas tenho certeza que essa decadência sairá de controle, e será a forma para retornar a ciclos mais virtuosos.Das cinzas se levantará outra sociedade baseada nos valores do mérito, do trabalho honesto e da justiça.

Vittorio Medioli – O Tempo

Nenhum comentário: