segunda-feira, maio 30, 2011

TUTELADA?

A blindagem de um ministro que está sob forte ataque e se nega a explicar o, até agora, inexplicável, desgasta moral e politicamente o governo, o faz refém do Congresso, e sem crédito junto aos cidadãos. Tal comportamento se revela inútil, uma vez que chegará o momento em que terá que afastar o seu auxiliar, sob pena de fornecer à oposição, que anda carente de discurso,um palanque permanente.
TUTELADA?

A candidatura de Dilma Rousseff à presidência foi construída com projeto, matéria prima e mão-de-obra, fornecidos por Lula. Sem vocação política, e moldada nos gabinetes da burocracia, desconfiava-se que a presidente teria dificuldades para conduzir o governo no período inicial. Mas não de uma forma tão intensa.


O inferno astral da presidente vem sendo marcado pela sua incapacidade de lidar com o Congresso, pela volta gradativa da inflação e por uma mal explicada pneumonia que reduziu a intensidade de suas atividades diárias. Das três, a que mais tem deteriorado a sua imagem e comprometido a governabilidade é a forma desastrada com que tem se relacionado com sua base de apoio no Congresso.Tem faltado jogo de cintura na interlocução com os parlamentares, e sobrado um estilo rude , marcado pelo autoritarismo e arrogância.


A derrota do projeto do governo na votação do Código Florestal, sob imposição da bancada ruralista, e a suspensão do projeto de distribuição de um kit escolar contra a homofobia -o "kit gay" -, após pressão da bancada evangélica, foram evidências de que a presidente vem perdendo o controle sobre o seu exército. Na origem de tudo, a sua decisão de proteger um auxiliar que está sob marcação cerrada da oposição, do Ministério Público e da opinião pública, suspeito de enriquecimento ilícito e improbidade.


A blindagem de um ministro que está sob forte ataque e se nega a explicar o, até agora, inexplicável, desgasta moral e politicamente o governo, o faz refém do Congresso, e sem crédito junto aos cidadãos. Tal comportamento se revela inútil, uma vez que chegará o momento em que terá que afastar o seu auxiliar, sob pena de fornecer à oposição, que anda carente de discurso,um palanque permanente. A ausência de ética no governo, que não foi suficiente para abalar o seu antecessor , político esperto, ambicioso, pode ser fatal para uma presidente neófita e claudicante.


Por falar no seu antecessor, mal surgiram os primeiros problemas políticos, e o que se temia, aconteceu: Lula veio em socorro da afilhada, não se sabe se a pedido dela ou se por iniciativa própria.O fato é que o ex-presidente se colocou como tutor, a reunir congressistas, verberar suas verdades, ditar normas. Sem que ninguém pedisse, se auto-nomeou "articulador informal do governo", a palpitar sobre tudo, principalmente sobre a reforma política. Pegou mal. Ao invés de ajudá-la, reforçou na presidente Dilma a marcas da indecisão, fraqueza e incapacidade de lidar com as crises.


Os acontecimentos da última semana impõem à presidente a urgência de superar a crise provocada por Palocci, e, ao mesmo tempo, construir, com autoridade e com habilidade, novas bases no relacionamento com os seus liderados no Congresso. Mas, sobretudo, precisará se livrar da interferência cada vez mais visível e incômoda do cidadão Luis Inácio Lula da Silva nas questões do governo. Caso contrário, não conseguirá fugir da imagem de presidente medíocre e tutelada.

300511

segunda-feira, maio 23, 2011

REINCIDENTE

O que mais compromete o ministro, mais até do que a própria gravidade das denúncias, é o seu insistente e constrangedor silêncio. Isso pode ser fruto da arrogância de quem se acha inatingível, e, portanto, não devedor de satisfações aos pobres mortais, ou de quem tem algo de podre a esconder. Se suas atividades na consultoria eram límpidas, transparentes e honestas, nada mais fácil do que abri-las ao conhecimento do grande público. REINCIDENTE
O ministro Antonio Palocci, ao que tudo indica, é reincidente. Afastado do governo em 2006 por mau comportamento, volta ao noticiário sob a suspeita de enriquecimento ilícito, após a divulgação de que nos últimos quatro anos, período.em que exerceu o cargo de deputado federal, teria multiplicado por 20 o seu patrimônio.

Pressionado pela oposição, e cobrado pela Procuradoria Geral da República, Palocci não se dignou a esclarecer de que maneira conseguiu o milagre da multiplicação do patrimônio, e quais foram as atividades que lhe propiciaram esse milagre.Enquanto o ministro permanece mudo, seus áulicos foram a campo tentar explicar o, até agora , inexplicável. E só conseguiram aumentar a dúvida a respeito da licitude das atividades de Palocci na iniciativa privada.

Sabe-se que na segunda metade do governo Lula, o então poderoso ministro da Fazenda foi forçado a desembarcar do governo no bojo do escândalo de "República de Ribeirão Preto", que culminou com a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Fora do governo, Palocci não esteve longe do Poder.

Com trânsito livre nos principais gabinetes da República, o atual ministro da Casa Civil não se furtou a usar de sua influência e de suas informações na área econômica para alavancar a sua empresa de “consultoria”.Através da “Projeto” Palocci fazia lobby e patrocinava interesses de seus poderosos clientes junto ao governo federal.O quão escusos eram esses negócios é o que vem despertando o interesse da opinião pública, da oposição e da Procuradoria.

Ações como as empreendidas por Palocci não são novidade. Sabe-se que o Estado brasileiro, pelo seu gigantismo, complexidade, e, sobretudo, irracionalidade, se esmera em dificultar a vida de cidadãos e empresas com uma infinidade de normas e barreiras burocráticas. Criar dificuldade para "vender" facilidade tornou-se, pois, uma rendosa prática de agentes públicos desonestos.

Políticos de todos os calibres se aprofundam nessa atividade que proporciona a muito deles um enriquecimento inexplicável aos olhos da maioria dos cidadãos, que labutam honestamente, com sacrifício, e sob o peso esmagador da carga tributária. Empresas de consultoria e afins, como a de Palocci, que não vão muito além de despachantes de luxo, se multiplicam, a facilitar empregos, empréstimos, licitações e contratos, num ambiente de explícita promiscuidade entre o público e o privado.

Diante das denúncias, a oposição se movimenta na tentativa de conseguir colher as assinaturas necessárias para a instalação de uma CPI mista no Congresso. Tarefa difícil, quando se sabe que a instalação de uma Comissão de Inquérito requer o apoio de171 deputados e 27 senadores. Os quatro partidos oposicionistas - PSDB, DEM, PPS e PSOL- têm menos de cem deputados, e somente 18 senadores. Nesse caso, somente uma pressão da opinião pública pode fazer os deputados mudarem de idéia.

Mas, o que mais compromete o ministro, mais até do que a própria gravidade das denúncias, é o seu insistente e constrangedor silêncio. Isso pode ser fruto da arrogância de quem se acha inatingível, e, portanto, não devedor de satisfações aos pobres mortais, ou de quem tem algo de podre a esconder. Se suas atividades na consultoria eram límpidas, transparentes e honestas, nada mais fácil do que abri-las ao conhecimento do grande público.

O ministro da Casa Civil permanece calado e, por enquanto, conta com a blindagem governo. Blindagem que, a continuar, vai comprometer parlamentares, ministros e a própria presidente com uma causa duvidosa. Palocci traz para dentro do governo uma crise que certamente nem o mais pessimista dos petistas esperava tão cedo.
230511




terça-feira, maio 17, 2011

DETERIORAÇÃO DOS PARTIDOS

A iniciativa do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ao deixar a oposição e se bandear para as hostes governistas através do Partido Social Democrático ( PSD), acentua o quadro de deterioração dos partidos . Ao contrário de muitos países, alguns deles mais pobres e com menos tradição democrática que o nosso, o Brasil nunca primou pela existência de partidos ideológicos e programáticos que de fato representassem o pensamento e os anseios de segmentos diferentes da sociedade.


DETERIORAÇÃO DOS PARTIDOS

Os partidos políticos brasileiros estão gravemente doentes, necessitando de cuidados urgentes em unidades de terapia intensiva. A iniciativa do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ao deixar a oposição e se bandear para as hostes governistas através do Partido Social Democrático ( PSD), sigla partidária por ele organizada, acentua o quadro de deterioração dos partidos . Ao contrário de muitos países, alguns deles mais pobres e com menos tradição democrática que o nosso, o Brasil nunca primou pela existência de partidos ideológicos e programáticos que de fato representassem o pensamento e os anseios de segmentos diferentes da sociedade.

Mesmo assim, em determinados momentos de nossa História , a atuação dos partidos se fez com um mínimo de racionalidade e coerência, totalmente ausentes no momento atual. Para exemplificar, no período anterior ao golpe de 1964, o PSD, a UDN e o PTB, os principais partidos de então, bem ou mal tentavam refletir os anseios das diversas parcelas da sociedade brasileira da época: o eleitorado rural, a classe média urbana e os trabalhadores urbanos.

Agora, com exceção do PT, que abandonou o discurso socialista e construiu uma espécie de neopopulismo, os demais partidos partiram para a prática explícita do adesismo, do fisiologismo e do personalismo político. Os políticos desses partidos trabalham quase nada em torno de idéias e de projetos para a sociedade, e investem muito em suas próprias carreiras. Por isso, não conseguem ficar distantes das ante-salas do poder e se sentem desconfortáveis na oposição.

Gilberto Kassab é mais um desses políticos medíocres e carreiristas que, a diferenciá-lo dos demais, teve a sorte de ver cair no seu colo o comando do mais importante município da Brasil. Ao deixar a oposição, que ele nunca exerceu de fato, levou consigo um significativo número de tucanos e democratas, fato que, sem dúvida, teve as digitais do palácio do Planalto.

A saída desses poderia até ser positiva no sentido de depurar os quadros da oposição da presença de políticos fisiológicos e oportunistas, desde que tais quadros não tivessem tão carentes de qualidade e de idéias . Enfraquecidos e divididos, os oposicionistas sofreram um duro golpe, e não conseguem enxergar no horizonte das eleições de 2014 nada além do que outra vitória do PT e aliados.A deterioração dos demais partidos não deixa de ser bem vinda para os planos do PT.

170511

segunda-feira, maio 02, 2011

ESPERTEZA INSTITUCIONALIZADA

Esse descarado assalto aos cofres públicos pode até ter amparo no Regimento da Casa, mas afronta a ética, a probidade, e o interesse público, além de desrespeitar Constituição.Em muitos casos, os deputados sequer se dão ao trabalho de deliberar sobre algo. Apenas vão à Assembléia para cumprir horário.

ESPERTEZA INSTITUCIONALIZADA

Os deputados estaduais de Minas Gerais têm se dado a uma prática que, nos primeiros meses deste ano, já causou um prejuízo de cerca de R$600 mil ao erário. Na convicção de que os contribuintes do Estado não passam de uma multidão de otários, os parlamentares , que por dever de ofício deveriam comparecer às sessões ordinárias, diurnas, para discutirem e votarem as matérias, se fazem ausentes ausentam sistematicamente.

 
O motivo do absenteísmo é a possibilidade regimental de convocar reuniões extraordinárias, remuneradas, no período noturno, para fazerem aquilo que deveria ter sido feito ao longo do dia. Dessa forma, cada deputado presente embolsa a quantia de R$ 1.002 por sessão, o que, ao final do mês, resulta num significativo reforço de até R$ 8.016,96 em seus ganhos mensais.

 
Esse descarado assalto aos cofres públicos pode até ter amparo no Regimento da Casa, mas afronta a ética, a probidade, e o interesse público, além de desrespeitar Constituição. Legalmente, as reuniões extraordinárias existem para a discussão de assuntos urgentes e relevantes, o que não é o caso da maioria das extraordinárias convocadas pelos parlamentares em Minas. Em muitos casos, os deputados sequer se dão ao trabalho de deliberar sobre algo. Apenas vão à Assembléia para cumprir o horário.

 
Por isso, a sociedade organizada começa a agir no sentido de acabar com mais essa mazela. Na semana passada, a Ordem dos Advogados do Brasil ( OAB) entrou com uma Adin no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando o pagamento do benefício extra aos deputados de Goiás. Além de Goiás e de Minas, os parlamentares do Acre, Paraíba, Pernambuco, são beneficiados pelo mesmo artifício. Na mesma trilha da OAB nacional, a seccional mineira anunciou que pretende entrar com ação idêntica contra a Assembléia de Minas.

 
Já não era sem tempo. Se, por suposição, um trabalhador da iniciativa privada tivesse a ousadia de se recusar a trabalhar em seu horário regular, e exigisse de seu patrão salário extra para cumprir o seu dever em horário alternativo, seria considerado, no mínimo, um louco. E se o seu patrão atendesse às exigências, seria um grandessíssimo idiota. Pois em Minas acontece algo semelhante, e os loucos e os idiotas ainda não se reconhecem como tais.
020511