segunda-feira, março 28, 2011

BELICISMO ENVERGONHADO

Bush, pelo menos, deu a cara a tapa e não escondeu os seus reais propósitos. Obama, pelo contrário, se revela um belicista envergonhado. A sua decisão carrega as marcas da dubiedade e do constrangimento.Atolado nos lamaçais do Afeganistão e do Iraque, o que os Estados Unidos menos precisavam neste momento era arranjar outro imbróglio militar.
É no mínimo questionável a decisão de Barack Obama de intervir militarmente na Líbia. Razões de ordem humanitária, usadas para justificar o ataque, não costumam mover as forças norte-americanas. Se fosse o contrário, Somália e Sudão que há anos vivem tragédias provocadas por títeres genocidas, teriam merecido dos Estados unidos o socorro que agora o governo de Obama julga os líbios merecedores.

Ao invadir o Iraque, o presidente Bush não ancorou sua ação em razões de ordem humanitária: preferiu alegar ser o país de Sadam Hussein uma ameaça ao mundo livre devido possuir um arsenal de armas químicas de destruição em massa. Como se viu, uma alegação mentirosa. Obama, cioso de sua imagem pacifista, não alegou razões de ordem estratégica e militar, mas sim a necessidade de proteger a população líbia dos ataques de Kadhafi. Sob essa justificativa, a intervenção armada da coalizão passa a colocar em risco a mesma população que os Estados Unidos argumentam defender.

Bush, pelo menos, deu a cara a tapa e não escondeu os seus reais propósitos. Obama, pelo contrário, se revela um belicista envergonhado. A sua decisão carrega as marcas da dubiedade e do constrangimento. Dubiedade porque ao mesmo tempo em que determina os primeiros ataques a Líbia, empreende um tour internacional pela América Latina onde não faltaram loas à paz, à democracia e à liberdade dos povos.Constrangimento quando decide transferir para a OTAN o comando das ações da coalizão, a fim de esmaecer o papel dos Estados Unidos nesse episódio.

Atolado nos lamaçais do Afeganistão e do Iraque, o que os Estados Unidos menos precisavam neste momento era arranjar outro imbróglio militar. Kadhafi é um velho e grotesco ditador que ainda tem algum apoio em seu território – apoio que pode ser reforçado com a intervenção estrangeira -, mas que fatalmente sucumbiria sob a força de seus próprios erros e do crescimento inevitável da oposição.

Uma correta articulação entre as nações ocidentais e organizações democráticas, no sentido de apoiar efetivamente a oposição e boicotar o governo líbio, bastaria para precipitar a queda de uma ditadura evidentemente podre.Mas sob a ótica das grandes potências, e dos grandes grupos financeiros, tempo é dinheiro.

A Líbia produz normalmente cerca de 1,6 milhão de barris de petróleo de alta qualidade, o que representa quase 2% da produção mundial. Entre 30% e 75% da produção foi interrompida em decorrência dos distúrbios no país. As previsíveis perdas causadas pela interrupção despertaram no governo norte-americano o velho e conhecido instinto bélico, precipitaram os ataques contra Kadhafi, e colocaram mais um obstáculo na luta pela paz mundial. 280311

6 comentários:

Anônimo disse...

O tempo está correndo, e o petróleo Libio está esperando as garras da Ocidentais há 4 décadas

Rodrigo disse...

Parabéns França e Reino Unido. Voces ajudaram a libertar um povo de um tirano maluco. Manda este pessoal esquerdopata conferir daqui a tres anos se a vida vai ser melhor ou pior do que hoje. Vao la perguntar para os iraquianos que estao crescendo a 11% ao ano se eles nao preferiram a invasao americana do que ficar eternamente nas maos de ditadores malucos. Eh assim mesmo, os arabes sao gente como a gente e querem viver em liberdade tambem. Parabens para o OCIDENTE.

José Marcos disse...

Prezado Fernando Soares,

Comprei o seu livro "Economia Brasileira: Da Primeira República ao Plano Real. Não consigo encontrar no sítio eletrônico da Elsevier onde encontram-se as respostas comentadas que você elaborou. Seria possível dizer como as encontro?

Atenciosamente,

José Marcos

José Marcos disse...

Prezado Fernando Soares,

Descobri o arquivo com as respostas. Obrigado por escrevê-las, estão muito bem resolvidas.

Atenciosamente,

José Marcos

Reinaldo disse...

Fernando; esta é uma das raras vezes em que discordo de uma análise sua. Acho a intervenção das forças ocidentais na Líbia necessária e urgente tanto para libertar aquele povo de um assassino como Kadafi, como tb para preservar o transito do petróleo. Ditadores como Kadafi não entendem outra linguagem que não a da força . Abs.

Fernando Soares disse...

Caro Reinaldo. Confesso que muitas vezes sou tentado a aplaudir ações bélicas em nome da paz, da justiça e da democracia.Em situações extremas, sou inteiramente favorável que a força seja empregada. Não é o caso da Líbia.Considero precipitada a ação militar e considero falsos os argumentos apresentados até agora. O Ocidente usa muita munição para um adversário fraco e agonizante. O problema da intervenção militar é que é que se sabe como começa mas não como termina.