segunda-feira, dezembro 27, 2010

MAU COMEÇO

A presidente eleita tem demonstrado que no trabalho de constituição do primeiro escalão tem prevalecido o velho e conhecido fisiologismo. Na escolha dos futuros ministros, prepondera o atendimento às exigências dos partidos aliados, a reserva dos melhores lugares para os correligionários mais influentes, e a abertura de novos espaços para amigos derrotados nas últimas eleições.
Diferença : Nos EUA Bill Richardson, indicado secretário de Comércio, foi descartado por Obama; no Brasil, Ideli permanece incólume.
MAU COMEÇO

Se Dilma Roussef tem marca política própria e capacidade de imprimir um novo estilo de governo que a diferencie de Lula, essas virtudes não estão sendo reveladas na formação de sua equipe de governo. Em tudo e por tudo, ela se iguala aos métodos de seu padrinho político, e ,em alguns casos, consegue superá-lo negativamente.

A presidente eleita tem demonstrado que no trabalho de constituição do primeiro escalão, muito longe da competência e do mérito, que deveriam servir de referencial a nortear a escolha dos nomes, tem prevalecido o velho e conhecido fisiologismo, Na escolha dos futuros ministros, tem preponderado a preocupação em atender às exigências dos partidos aliados, em reservar os melhores lugares para os correligionários mais influentes, e em abrir novos espaços para amigos derrotados nas últimas eleições.

O resultado tem sido a formação de uma equipe gigantesca e constituída por pessoas cuja qualificação específica para as pastas para as quais foram indicadas é uma incógnita para o grande público eleitor e contribuinte. A adição de novos cargos aos já existentes no escalão ministerial tem efeito multiplicador sobre os níveis inferiores, jogando para o espaço as promessas de campanha e a necessidade urgente de racionalização e enxugamento da estrutura governamental.

As conseqüências imediatas de tal disparate já se fazem sentir. Pelo menos, dois dos escolhidos para compor o futuro ministério aparecem envolvidos em maracutaias com dinheiro público. A senadora Ideli Salvatti, indicada ministra da Pesca, que recebe do Senado R$3800 mensais para custear sua moradia, cobrou do erário R$ 4606 referentes à hospedagem num hotel em Brasília.Por sua vez, o octogenário deputado Pedro Novais, escolhido ministro do Turismo por indicação de José Sarney, recebeu da Câmara R$ 2156 por conta de uma suposta hospedagem num motel (?) de São Luis ( MA), em junho deste ano.

Nos Estados Unidos, no momento da formação de seu secretariado, o então presidente eleito Barack Obama teve o desconforto de saber que alguns dos escolhidos não eram exatamente o que se pretendia em matéria de correção moral e probidade. A solução foi imediata: os indicados tiveram que “ desistir “ do cargo para não comprometerem o início do novo governo, não sem antes se submeterem a um constrangedor pedido público de desculpas.

No Brasil, a senadora Ideli e o deputado Novais permanecem incólumes e consideram perda de tempo dar explicações à sociedade, enquanto a presidente eleita, Dilma Rousseff, acha desnecessário afastá-los da equipe.Sem dúvida,um mau indício para um governo que ainda nem começou.
271210

quinta-feira, dezembro 16, 2010

TAPA NA FACE DO BRASILEIRO

Ontem, o Congresso Nacional agiu de forma pouco comum em sua história recente. Deputados e senadores, da situação e oposição, finalmente se uniram em torno de um ideal. Menos de dois meses depois de uma conturbada eleição presidencial, deixaram as diferenças políticas de lado, bate-bocas, as ofensas pessoais, dossiês e acusações, para votar uma proposta de maneira quase uníssona e em uma agilidade impressionante.

Não, caro leitor, não foi por um novo regime tributário, que acabaria com as cobranças em cascatas de impostos que sufocam as empresas - principalmente as menores - travando o crescimento do país.Não é a reforma política, que impediria o uso de figuras populares para quebrar recordes de votação, alavancando coligações e elegendo consigo mais uma trupe de candidatos que tiveram menos votos do que muitos que ficaram de fora.

Infelizmente, a união de todo o Congresso ontem não foi para aumentar o salário mínimo, cujo governo oferece dar um aumento de R$ 30 para cada trabalhador, depois de gritar aos quatro cantos que o país já deixou a crise econômica para trás há meses. Pelo contrário. Ontem, parlamentares do PT e do PSDB, peemedebistas, democratas e todas as outras legendas - exceto o PSOL - fizeram questão de esquecer tudo aquilo que deveria ser prioritário para o país, em favor de si mesmos.

A indignação não é pelo valor em si - R$ 10,2 mil a mais para cada parlamentar -, mas pelo ato simbólico de ignorar a realidade do país dias depois de subirem em palanques e prometerem agir com ética, responsabilidade e dignidade.
É claro que as caras deles não queimam. Ardem as nossas com mais esse tapa.

Rafael Gomes

segunda-feira, dezembro 13, 2010

DIVIDINDO A SOCIEDADE

Apesar do discurso rancoroso e demagógico ter soado como música nos ouvidos dos mais carentes e menos esclarecidos, Lula não contribuiu um milímetro para arrancá-los efetivamente da pobreza e da ignorância, e ainda se permitiu a práticas de distribuição de cotas e bolsas, fato que só fez acentuar o caráter puramente assistencialista de suas políticas sociais . Fez de ações que deveriam ser apenas emergenciais e paliativas, a marca registrada de seu governo.
DIVIDINDO A SOCIDADE

Ao afirmar que governa somente para os pobres, porque os ricos não precisam do Estado, Lula colocou mais um tijolo no muro de asneiras que proferiu ao longo de seus dois mandatos, e confirmou que se esforçou pelo apartheid social. Dentre outras, Lula deixa como herança maldita o fato de ter incorporado ao cenário político,de forma insistente e proposital, o surrado maniqueísmo. Com suas declarações, acirrou o ódio entre as classes, bem ao velho estilo marxista, mas de forma canhestra.

Lula tem alimentado o ódio entre as classes ao atribuir aos “ricos” a culpa por todas as mazelas do país. Estabeleceu uma nítida linha demarcatória entre os que potencialmente formariam o seu eleitorado – a maioria absoluta do povo – e os que lhe fariam oposição.

Apesar do discurso rancoroso e demagógico ter soado como música nos ouvidos dos mais carentes e menos esclarecidos, Lula não contribuiu um milímetro para arrancá-los efetivamente da pobreza e da ignorância, e ainda se permitiu a práticas de distribuição de cotas e bolsas, fato que só fez acentuar o caráter puramente assistencialista de suas políticas sociais . Fez de ações que deveriam ser apenas emergenciais e paliativas, a marca registrada de seu governo.

O líder petista se engana, e tenta enganar aos incautos, quando diz que os ricos não precisam do Estado. Toda a sociedade, independentemente de classe social, é credora do Estado. Todos contribuem com seus impostos para que o Estado aja em benefício de todos. Se, por exemplo, ao invés de práticas assistencialistas. o governo implementasse a melhoria da educação, “ricos” e pobres se beneficiariam.

A classe média – que Lula chama de “ricos” – não precisaria arcar com as despesas de serviços particulares de ensino, e seus filhos freqüentariam, junto com os filhos dos pobres, escolas públicas de qualidade, o que certamente possibilitaria, pelo esforço e pela competência , a ascensão social de todos.

No apagar das luzes, Lula confirmou mais uma vez a sua visão limitada sobre as atribuições do governo e do Estado, e sua relação com a sociedade. Penalizou o setor produtivo com impostos extorsivos, manteve a sua massa de eleitores na pobreza e na ignorância, adicionando uma dose de dependência, com o propósito primeiro de dar continuidade ao projeto de perpetuação no poder do lulo-petismo. Nesse sentido, a eleição de Dilma Rousseff representou a vitória do maquiavelismo mais cínico e oportunista.
131210

segunda-feira, dezembro 06, 2010

CHEQUE EM BRANCO


A oposição ao governo mineiro na Assembléia Legislativa pode ter todos os defeitos possíveis, mas tem razão quando dificulta a tramitação do projeto de Lei Delegada, que concede ao governador Antonio Anastasia amplos poderes para promover a reforma administrativa no Estado, sem precisar da aprovação dos deputados estaduais.

A exemplo do que já havia ocorrido nas duas gestões de Aécio Neves, na prática, a Assembléia passa ao atual governador um cheque em branco para criar e extinguir órgãos e secretarias , remanejar funcionários, estabelecer critérios salariais e planos de carreira, contratar e demitir funcionários , e muito mais.

A oposição – limitada ao PT, PC do B,e, apenas em tese, PMDB - faz o que pode, mas não pode muito: o governo tem ampla maioria na Casa. O PSDB e seus aliados argumentam que a reforma pretendida pelo governo é necessária – o que é verdade -,urgente e, portanto, requer tramitação rápida. Alegam que as discussões no parlamento retardariam a sua implementação e resultaria na sua inviabilidade.

Se é indiscutível que a ausência do debate parlamentar agiliza a formalização de qualquer lei, também é fato que nas ditaduras as leis nascem da vontade do déspota ou de um grupo restrito, e sua aplicação é imediata.

Portanto, ao abrir mão do dever constitucional de discutir os passos de uma reforma que altera a estrutura do Estado e modifica a vida de milhares de pessoas, para priorizar a “agilidade”, em nome de uma suposta eficiência, importa saber se os parlamentares mineiros estão dispostos a pagar o preço do enfraquecimento da democracia.

Nesse ponto, as relações entre o Executivo e o Legislativo no Brasil, sempre marcadas pelo avassalador domínio do primeiro sobre o segundo, nos leva a um sentimento de inveja em relação aos países europeus, predominantemente parlamentaristas, onde acalorados debates são travados entre governo e oposição a cada projeto novo. Em Minas, os deputados renunciam à boa prática democrática e não fazem muito menos do que entregar ao governador Anastasia o cetro e a coroa do despotismo.

061210

domingo, dezembro 05, 2010

LUA DE FEL


O presidente Luiz Inácio da Silva é daquelas pessoas sortudas, mas que demonstram acentuada dificuldade em conviver com o que de bom a vida lhes dá. Querem sempre mais e acham que o mundo lhes é um eterno devedor.

Lula tem todos os motivos para celebrar o sucesso: veio da pobreza, viu o ambiente no qual soube aproveitar oportunidades e venceu ao custo de esforço, obstinação e uma sorte rara.

Chegou à Presidência da República, transitou por ela com apoio inédito – política e socialmente falando –, transpôs obstáculos aparentemente intransponíveis, chega ao fim de dois mandatos popular como nenhum outro e carregando consigo o feito de ter convencido a maioria dos brasileiros a eleger presidente uma desconhecida.

Nunca se viu nada igual (para o bem e para o mal) e dificilmente o país verá tão cedo algo parecido.

Lula tem razões de sobra para estar feliz. Felicíssimo. No entanto anda triste. Tristíssimo. Chorando por qualquer coisa, segundo relatos de correligionários. Destilando ressentimento e insatisfação como se pode observar por seus atos e palavras nos últimos tempos.

Durante a campanha eleitoral poder-se-ia atribuir esse estado de espírito à tensão do combate.

Na hora da despedida é difícil perceber por que no lugar de estar em lua de mel consigo, Lula cultiva o fel e se dispõe ao exercício da grosseria com uma frequência atípica para quem teria tudo para estar de bem com a vida.

Não quer largar o poder. En­­tende-se, mas até certo ponto, pois a compreensão da regra do jogo é um imperativo a todo governante. Bem como uma razoável conexão com a realidade.

Lula sai iludido de que é a própria “encarnação” do povo brasileiro. Convenceu-se de que está acima dos demais e que tudo pode. Inclusive dar-se ao desfrute da covardia.

Gratuita, para dizer pouco, a agressividade com que atacou o repórter Leonencio Nossa, do O Estado de S.Paulo, por causa de uma pergunta sobre o motivo de sua visita ao Maranhão, na última terça-feira. O jornalista quis saber se a presença do presidente no estado era uma forma de agradecimento à “oligarquia Sarney”.

Uma pergunta crítica. Respondida de maneira tosca e covarde: “Você tem de se tratar, quem sabe fazer uma psicanálise para diminuir o preconceito”.

De uma investigação psicanalítica necessita o presidente para compreender a razão de defender-se assim diante de uma mera indagação sem nenhuma ofensa. Consciência pesada por ter se aliado ao que há de mais retrógrado na política?

Arrependimento por não ter tentado o lance maior do terceiro mandato?

Consciência tardia de que quebrou o juramento de cumprir a Constituição?

Seja o que for não justifica a ignorância. No sentido de ignorar o sentido do termo oligarquia (governo de poucas pessoas, pertencentes a um mesmo partido, classe ou família) e no sentido da hostilidade e, sobretudo, da covardia, pois sabia que o rapaz não poderia reagir ao ataque.

Esse é só um exemplo entre vários. Demonstração de que o ofício do poder requer preparo, principalmente para deixar de exercê-lo com um mínimo de nobreza.