segunda-feira, junho 14, 2010

CLIMA DE DERROTA

Na campanha de Serra, o discurso é pouco audacioso e as decisões vão sendo adiadas. A ausência de um vice, por exemplo, por mais que os tucanos insistam ser por uma questão de estratégia, passa a impressão de indecisão e fraqueza. Mas o pior é que o tucano parece temer de o confronto direto com Lula.

Em eleição, só existem dois caminhos viáveis: o do apoio ao governo e o da oposição ao governo. O caminho de Dilma Rousseff está bem definido: ela é governo, é apoiada pelo governo, usufrui da máquina do governo, e fala como governo. Se José Serra julga que é possível ser, ao mesmo tempo, oposição e governo, ou mesmo candidato de uma suposta terceira via, é melhor desistir, pegar as malas e ir embora.

Enquanto nas hostes da candidatura oficial, em que pese a inexpressividade da candidata, tudo transcorre conforme o programado, no quartel adversário a indecisão predomina.Na campanha governista, graças a um bom trabalho de articulação entre os caciques do PT e do PMDB, a candidata vem conquistando mais apoios políticos e recursos financeiros , ao mesmo tempo que cresce nas pesquisas .

Na campanha de Serra, o discurso é pouco audacioso e as decisões vão sendo adiadas. A ausência de um vice, por exemplo, por mais que os tucanos insistam ser por uma questão de estratégia, passa a impressão de indecisão e fraqueza. Mas o pior é que o tucano parece temer de um confronto direto com Lula, de quem chegou a dizer que está acima do bem e do mal. Serra pensa que pode ser o "pós Lula", quando deveria ser o anti-Lula..

Tucanos e democratas, que durante os oito anos de mandato de Lula fizeram uma oposição tímida ao governo, querem brigar com Dilma , mas evitam bater no presidente. Numa analogia futebolística,é como se um adversário da seleção Argentina entrasse em campo fugindo da disputa direta com o craque do time, Messi. Impossível. Se quiserem de fato vencer o confronto, vão ter que enfrentar Lula.

O fato é que, embora latente, existe um inegável clima de derrota no campo da aliança oposicionista. É obvio que ainda é cedo para se afirmar que tal candidato será vencedor ou derrotado , pois a campanha oficial nem começou. Mas se quiserem afastar o fantasma do derrotismo, Serra e sua equipe terão que mudar com urgência e de forma radical a orientação da campanha.

Precisarão buscar identificação com a grande parcela do eleitorado que rejeita o governo Lula.Para isso, apresentar discurso, projetos e atitudes que de fato representem essa faixa do eleitorado.E deixar o eleitor decidir. Se, no final, decidir pela continuidade, paciência. É do jogo democrático.
140610

quinta-feira, junho 10, 2010

QUE OPOSIÇÃO?

Dos três principais candidatos, até agora, nada além de uma miscelânea de promessas vagas e propósitos indefinidos, que pouco convence de que teremos algo muito diferente do que o atual governo está a praticar. QUE OPOSIÇÃO?

Uma significativa parcela da sociedade brasileira não se sente representada por nenhum dos candidatos à sucessão presidencial. São pessoas que se posicionam contra o governo Lula , seja por convicção ideológica , seja por tudo que o atual governo praticou ou, principalmente, deixou de praticar nos quase oito anos de mandato. Esses cidadãos não encontram em José Serra, Marina Silva, e muito menos em Dilma Rousseff, propostas, projetos e compromissos que se identifiquem minimamente com o pensam e desejam para o País. Pelo menos, até o atual momento da campanha eleitoral.

Dos três principais candidatos, até agora, nada além de uma miscelânea de promessas vagas e propósitos indefinidos, que pouco convence de que teremos algo muito diferente do que o atual governo está a praticar. Se, por um lado, avaliações apressadas e superficiais , na maioria das vezes com propósitos eleitorais , atribuem excelente conceito ao governo Lula ,análises mais profundas e criteriosas ressaltam o que o Brasil perdeu ou deixou de fazer nos últimos anos. E não foi pouco.

Os cidadãos que não se sentem representados pelos partidos e candidatos que disputam o poder desejam, por exemplo, modificações estruturais que permitam a redução da carga e a racionalização da política tributária, investimentos maciços e prioritários em educação, saúde e segurança, combate sem trégua à corrupção e ao desperdício dos recursos públicos - especialmente nos altos escalões de Brasília -, reforma política, mudança na orientação da política externa - priorizando as relações com as nações democráticas - , e uma política social que elimine de vez o mero assistencialismo e ofereça reais oportunidades de educação e emprego a milhões de pessoas.

Querem também que o próximo governo conclua o que foi iniciado pelo governo anterior, qual seja, o prosseguimento da política de privatizações de estatais dispendiosas e que pouco beneficiam o cidadão comum. Em outras palavras, é preciso acabar com o tabu de que a Petrobrás , o Banco do Brasil e a Caixa Federal são instituições intocáveis.

O governo Lula, que teve o mérito de manter a estabilidade construída pelo governo anterior, propagou o mito do crescimento do PIB conseguido à custa da forte presença do Estado. Não é verdade: o atual estágio de crescimento foi muito mais fruto da conjunção do esforço da iniciativa privada com a situação mundial favorável às exportações brasileiras.

O mito do crescimento econômico como obra exclusiva do governo, que ganhou ares de verdade incontestável graças a atuação da máquina de propaganda governamental aliada ao inegável carisma pessoal do presidente, resultou no crescimento da popularidade do presidente . A popularidade de Lula atemorizou os seus adversários, que além de incapazes de fazer um discurso eleitoral autenticamente oposicionista, não conseguem convencer de que têm um projeto diferente do atual.
100610

segunda-feira, junho 07, 2010

CRIADOR E CRIATURA


Nos países desenvolvidos e com fortes raízes democráticas, é praticamente impossível que políticos saídos do nada, e sem um recheado currículo político e eleitoral, ascendam, através das urnas, aos mais altos cargos do executivo. No Brasil, isso não só é possível, como é bastante comum. Aqui, onde os partidos políticos são meros trampolins para que políticos personalistas incrementem suas carreiras, é rotineiro que governantes bem avaliados pela população, e em final de mandato, se dediquem a fazer de figuras inexpressivas os seus sucessores. É a velho e conhecido preceito do governante tão prestigiado que consegue eleger até mesmo um poste.

Que não me deixem mentir, por exemplo, Orestes Quércia e Paulo Maluf. O primeiro saiu do governo de São Paulo, em 1990, com grande aprovação. Ainda não pesavam sobre ele as denúncias de corrupção que mais tarde marcariam a sua carreira política. Fez do inexpressivo Antonio Fleury Filho, secretário de Segurança Pública , o seu sucessor. Da obra política e administrativa de Fleury pouco ficou, exceto o tristemente famoso massacre do Carandiru, que vitimou 111 detentos, em outubro de 1992.

Paulo Maluf teve o seu momento de glória em 1996, quando deixou a prefeitura de São Paulo com fama de bom administrador e tocador de obras. Inebriado pelo fugaz sucesso, inventou Celso Pitta, secretário das Finanças do município, como seu candidato à sucessão. Com argumentos de tipo “votem no Pitta, e se o Pitta não for um bom prefeito nunca mais votem em mim”, não teve dificuldade em elegê-lo. Como sabemos, o pupilo herdou do professor a mesma vocação para se apropriar do dinheiro publico, mas não a esperteza e o cinismo do mestre. Resultado: Pitta foi afastado do poder por corrupção, e, mais tarde, acabou preso.

No atual processo eleitoral, Lula e Aécio Neves, ao lançarem politicamente os desconhecidos Dilma Rousseff e Antonio Anastasia, deixam claro o propósito de , através deles, continuarem a ter o controle e a influência sobre seus respectivos partidos e territórios. Em outras palavras, não querem perder o poder construído nos oito anos de mandato. Pode dar certo. Mas o tiro pode sair pela culatra se, uma vez eleita, a criatura traçar os seus próprios trajetos, ganhar liderança, prestígio e popularidade, e , ao final, se rebelar contra o criador.
070610