segunda-feira, abril 26, 2010

CIRO MORRE PELA BOCA

Ciro é um daqueles políticos que não joga para o time, mas quer que o time jogue para ele. Mesmo que o time seja pequeno, como é o caso do PSB, ao qual está filiado, e escolhido por ele para ser o trampolim legal às suas pretensões nada modestas. Ciro se considera o dono de todas as verdades do mundo político, e o único possuidor das soluções para os problemas. Quer porque quer o Planalto, mesmo ficando claro que não possui apoio suficiente, até mesmo no seu partido.
CIRO MORRE PELA BOCA

Numa semana carente de acontecimentos políticos, Ciro Gomes fez a alegria de redatores, comentaristas e blogueiros. Em entrevista ao portal IG, o presidenciável revelou toda a sua mágoa com Lula e o PT ao declarar que o presidente, além de se considerar “o todo-poderoso”, “está navegando na maionese”. Disse também que o tucano José Serra é “mais preparado” do que a petista Dilma Rousseff na disputa presidencial.

Como é de seu estilo, mais tarde, diante da repercussão de suas declarações, recuou, disse que “não é bem assim”, e que “não esperava que uma simples conversa de amigos fosse transformada numa entrevista”. Mas já era tarde, pois o estrago já havia sido feito.

Personalista e voluntarioso, Ciro Gomes pertence àquela linhagem de políticos brasileiros, na qual os representantes mais ilustres são Jânio Quadros e Fernando Collor. Para essa gente, partido político é meramente uma escada que se usa e se descarta de acordo com as circunstâncias; programa partidário é algo que só serve para ser usado durante as campanhas eleitorais e convenientemente esquecido depois; e ideologia é coisa de intelectual elitista distante da prática política.

Ciro é um daqueles políticos que não joga para o time, mas quer que o time jogue para ele. Mesmo que o time seja pequeno, como é o caso do PSB, ao qual está filiado, e escolhido por ele para ser o trampolim legal às suas pretensões nada modestas. Ciro se considera o dono de todas as verdades do mundo político, e o único possuidor das soluções para os problemas. Quer porque quer o Planalto, mesmo ficando claro que não possui apoio suficiente, até mesmo no seu partido.

Apresentou-se como candidato presidencial pela primeira vez em 1998 e ficou em terceiro lugar com 10,9 % dos votos, o que foi considerado um ótimo resultado, considerando-se que era, até então, um ilustre desconhecido. Em 2002, voltou a concorrer. Chegou a liderar as pesquisas no primeiro turno, quando o seu temperamento descomedido se exacerbou: cometeu grosserias contra eleitores e contra a sua mulher, Patrícia Pillar, e foi ultrapassado por Lula , José Serra e Anthony Garotinho.

Derrotado, aliou-se de imediato a Lula, a quem, na campanha, havia chamado de ignorante e despreparado.Pelo apoio, foi premiado com um importante ministério no primeiro mandato do petista.Como ministro, manteve uma postura de fidelidade ao líder petista, quem sabe, na esperança de ser ungido por ele como candidato da base aliada. No segundo mandato de Lula, como deputado federal, trabalhou pela aprovação dos projetos que interessavam ao Planalto. E, por isso, esperava ser recompensado pela sua fidelidade e dedicação. Mas o presidente tinha os seus próprios planos, e neles não estava incluído Ciro Gomes.

Mesmo sem o apoio de Lula, o deputado se ofereceu como uma espécie de segunda opção da base governista, tanto por querer usufruir dos frutos que acredita ter ajudado a produzir, quanto por acreditar que Dilma não tem carisma nem bagagem para derrotar José Serra. Ao se apresentar para a disputa, Ciro jogou com a possibilidade de desbancar Dilma ainda no primeiro turno, e, por falta de opção, colocar Lula e toda a máquina governamental a seu serviço no segundo turno.

Os mesmos motivos que levaram Ciro a entrar na disputa presidencial são os mesmos que fizeram Lula querer mantê-lo longe dela: sua presença colocaria Dilma fora do segundo turno e obrigaria Lula, a contragosto, a apoiar um nome que está fora do projeto continuista do atual governo: uma vez no poder, é impossível enxergar Ciro Gomes como um mero administrador das vontades de Lula e do PT, como se espera que Dilma seja.

Intemperado, muitas vezes arrogante, e dono de um discurso ríspido e provocativo, Ciro Gomes, tal qual o peixe, costuma morrer pela boca. Entrou no jogo para fazer barulho, e pode sair dele fazendo muito mais.

E é isso que alguns setores governistas temem: humilhado e ofendido, pode jogar farofa no ventilador e expor as mazelas, que certamente conhece, de seus novos desafetos. Nesse caso, o seu silêncio seria comprado a preço de ouro, quem sabe, com a garantia de muita influência e poder num eventual governo de Dilma Rousseff. Afinal, Ciro já demonstrou que apesar de falar grosso costuma afinar conforme as circunstâncias.
260410

segunda-feira, abril 19, 2010

URBANIZAÇÃO E TRANSPORTE: QUESTÕES URGENTES

A questão do transporte, no contexto da discussão sobre a qualidade de vida nos grandes metrópoles passa a ser urgente, se considerarmos que a sistemática negligência no tratamento dessa questão tem levado a que os espaços urbano se tornem cada vez menos viáveis como locais dignos para a moradia, o trabalho, o lazer e a convivência social. URBANIZAÇÃO E TRANSPORTE: QUESTÕES URGENTES

Ao reduzir o IPI sobre determinados produtos industrializados, o governo Lula escreveu certo por linhas tortas. Certo, porque a sociedade há muito clama pela diminuição de impostos ; errado, porque a medida beneficiou principalmente as multinacionais do setor automotivo e a produção de veículos de passeio, em detrimento do transporte de massa.

Como se sabe, as metrópoles brasileiras vivem um impasse: o acelerado crescimento urbano, a desordenada ocupação dos espaços e a proliferação caótica dos veículos não encontram da parte do poder público a contrapartida em obras de infra-estrutura capazes de tornar a vida dos habitantes menos infernal. As decisões tomadas pelos governos têm caráter mais emergencial do que preventivo.

Nas nações desenvolvidas, investimentos planejados no setor de transportes coletivos são a regra, dentro da consciência de que, se não caminhar nesse sentido, os prognósticos apontarão para a estagnação do trânsito, o aumento da poluição e a queda drástica da qualidade de vida dos habitantes nas grandes metrópoles.

A questão do transporte, no contexto da discussão sobre a qualidade de vida nos grandes metrópoles passa a ser urgente, se considerarmos que a sistemática negligência no tratamento dessa questão tem levado a que os espaços urbano se tornem cada vez menos viáveis como locais dignos para a moradia, o trabalho, o lazer e a convivência social.

Na campanha eleitoral que se inicia, os candidatos à presidência e seus respectivos partidos precisam trocar os desaforos e as questiúnculas rotineiras pela discussão franca dos grandes problemas que angustiam o país .Dentre eles,a ausência de uma política planejada de urbanização e o transporte.É o mínimo que esperamos deles.
190410

segunda-feira, abril 12, 2010

RIO,UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Seria simplificar as coisas culpar São Pedro – como fez Lula -, a geografia da cidade, ou a má educação da população, e isentar o poder público. Faz sentido perguntar aos governantes a razão da inexistência de obras de infra-estrutura que permitam um melhor fluxo da água acumulada pelas chuvas, bem como da ausência de uma estratégia efetiva e coordenada de defesa civil. TRAGÉDIA ANUNCIADA

Fenômenos naturais de grande intensidade, que resultam em catástrofes, ocorrem no mundo todo. Mas no Brasil costumam tomar proporções gigantescas devido ao acúmulo de erros humanos e sistemático processo de agressão à natureza. Foi o que aconteceu no Rio de Janeiro, na última semana.

A região metropolitana do Rio foi assolada pelo maior temporal das últimas décadas, cuja intensidade seria, por si só, suficiente para causar estragos materiais de grande porte, e, mesmo, perdas de vidas, mas não nas proporções em que ocorreram. Até o último de semana, foram contabilizados 230 mortos, muita lama e destruição e , sobretudo, governantes atônitos.

É certo que a geografia do Rio atrapalha: premida entre os morros e o oceano, com muito asfalto e cimento no meio, não se poderia esperar outra coisa que não o acúmulo de água e de detritos nas ruas e avenidas da cidade. Isso, somado à conhecida falta de civilidade da população, que insiste em transformar vias públicas em depósitos de lixo, resulta numa ambiente sujeito às catástrofes.

Mas seria simplificar as coisas culpar São Pedro – como fez Lula -, a geografia da cidade ou a má educação da população, e isentar o poder público. Faz sentido perguntar ao presidente da República, ao governador do Rio e aos prefeitos do Rio e de Niterói a razão da inexistência de obras de infra-estrutura que permitam um melhor fluxo da água acumulada pelas chuvas, bem como da ausência de uma estratégia efetiva e coordenada de defesa civil, que possa atuar com rapidez e eficácia em momentos como esse.

Faz sentido, também, indagar aos governantes a razão de continuarem a permitir que pessoas continuem a construir casas e barracos em morros e lixões, assim como questioná-los sobre a falta de um plano de remoção de moradores dessas áreas de risco. Sobretudo, cobrá-los por um sistema educacional deficiente, incapaz de incutir nas mentes das crianças e dos jovens conceitos básicos de cidadania, civilidade e respeito à natureza.

O Japão, situado numa área altamente sujeita a abalos sísmicos, investiu alto em prevenção, e colocou a técnica e a ciência a serviço do abrandamento dos efeitos danosos dos abalos sísmicos. É possível fazer algo semelhante no Brasil, em relação às enchentes.

Sabe-se, entretanto, que os nossos governantes – não por mera coincidência, os mesmos envolvidos na recente tragédia – dedicam todo o seu empenho no patrocínio de dois megaeventos esportivos , e não terão tempo,disposição e recursos para empreendimentos que resultem em segurança e melhores condições de vida para a população do Rio de Janeiro. A continuar como está , anuncia-se novas catástrofes iguais ou de maiores proporções do que essa.
120410

segunda-feira, abril 05, 2010

PRIVILÉGIOS VITALÍCIOS

Como aqui a cidadania é incipiente, os governantes agem como se proprietários fossem dos recursos públicos, e não agentes políticos e administrativos sob procuração de milhões de cidadãos contribuintes. Legislar em causa própria passou a ser espécie de esporte nacional, praticado tanto em Brasília quanto no mais remoto e insignificante município, passando, é claro, pelas capitais dos Estados. PRIVILÉGIOS VITALÍCIOS

No Brasil, políticos, magistrados, e funcionários dos altos escalões da República gozam de privilégios, vantagens e benesses capazes de deixar estupefatos ou invejosos colegas de países com PIB, renda per capita e IDH muito superiores ao nossos. É que neste país os cidadãos não desenvolveram o saudável hábito de fiscalizar os seus representantes e exigir deles uma conduta sóbria e honrada quando no exercício da função pública.

Como aqui a cidadania é incipiente, os governantes agem como se proprietários fossem dos recursos públicos, e não agentes políticos e administrativos sob procuração de milhões de cidadãos contribuintes. Legislar em causa própria passou a ser espécie de esporte nacional, praticado tanto em Brasília quanto no mais remoto e insignificante município, passando, é claro, pelas capitais dos Estados.

A multiplicação de privilégios e mordomias tem a chancela da lei, e é acobertada pela Constituição: a partir daí , fica difícil extirpar o mal, pois ele se enraizou de tal forma nos hábitos políticos, que o senso comum passou a considerar normal a sua existência.

Vejam o caso dos ex-presidentes da República. É razoável que após deixar o poder eles tenham direito a uma aposentadoria, ou pensão, digna. Mas nada, além disso, se justifica. No Brasil, entretanto, por uma lei sancionada pelo presidente José Sarney, em 1986, alterada durante o governo de Fernando Henrique, e regulamentada por Lula, em 2008, os ex-presidentes têm direito, de forma vitalícia, a dois carros de luxo e oito servidores pagos pelo contribuinte.

Cada funcionário colocado à disposição dos ex-mandatários recebe entre R$1,9 mil e R$8,4 mil. Apenas com gastos de salários desses servidores, sem considerar as despesas com combustível e com a manutenção dos veículos, um ex-presidente custa anualmente R$489,6 mil aos cofres públicos.

José Sarney, Fernando Collor – ambos atualmente no exercício de cargos públicos –, Itamar Franco e Fernando Henrique são os felizes beneficiados com as regalias que eles mesmos criaram, ou mantiveram.

A partir de janeiro de 2011, Lula entrará no time dos felizardos. Mas ao atual presidente toda essa mordomia não basta: ele tentou recriar a pensão para ex-presidentes, extinta pela Constituinte de 1988, como parte de uma reforma política enviada ao Congresso. Felizmente, para alívio dos nossos bolsos, a proposta não foi adiante.
050410