segunda-feira, janeiro 25, 2010

OS RINOCERONTES INVADEM O BRASIL

O título da crônica de hoje foi extraído da famosa peça de Eugène Ionesco, escritor romeno de notoriedade por haver dado formas definitivas ao que se convencionou denominar "teatro do absurdo", em razão dos enredos por ele escritos e representados em todo o mundo. Com a peça "Rinocerontes" ganhou prestígio internacional, que o conduziu à Academia Francesa e deu-lhe o título de "pai do teatro do absurdo".


Na peça, Ionesco descreve uma pequena cidade onde os habitantes vão, paulatinamente, sendo transformados em rinocerontes. O rinoceronte é o símbolo da conformidade. O personagem principal do drama cada vez mais se distancia de seus concidadãos pela luta desenvolvida contra o conformismo dos moradores, cuja passividade os conduz ao absurdo de considerarem os rinocerontes belos animais. E a natureza não os premiou com atributos de beleza.


É uma crítica genial contra o estado de "rinocerontização" em que estão envolvidas muitas sociedades modernas, povoadas de rinocerontes pela adesão consciente ou inconsciente à permuta do belo pelo feio, do culto pelo inculto, do lícito pelo ilícito, do justo pelo injusto, do moral pelo imoral, do correto pelo incorreto, enfim, a distorção a todos envolvendo, a ponto de não ser mais possível ou até mesmo razoável a reação.


Cada leitor encontrará, em seu pequeno mundo, crescente volume de rinocerontes, expostos no dia a dia das manchetes jornalísticas da corrupção no setor público, no aumento das tarifas e dos impostos, na constante ameaça figurada na lesão de seus direitos pelas concessionárias de serviços. Outros tantos rinocerontes passeiam pelas ruas à vista de todos, merecendo exclamações como aquelas da peça teatral do autor romeno: "Olhe os rinocerontes; veja como são belos". São a passividade e o conformismo sublimados a estágio de completo domínio das mentes e dos corações.


Quando os habitantes da cidade ficcional de Ionesco já não têm forças mentais e morais para a reação e o confronto, o único morador resistente ao processo de contaminação pela resignação invencível torna-se personagem estranho ao ambiente local. É conduzido ao desespero e à exasperação, ambos estados de alma destituídos de forças para modificar as coisas. Com certeza cada qual já percebeu a "rinocerontização" do governo, em seus três estágios, transferindo à população os ônus de seu fracasso gerencial, oculto debaixo das potentes luzes da publicidade governamental, capaz de pela técnica transformar palavras ocas e vazias em realizações nunca vistas.


A banalização da violência nas cidades, também estendida aos campos, torna-se repetitiva a ponto de se transformar também em enorme rinoceronte. A reação contra ela não passa do discurso de intenções proferido em arrepio aos cânones da língua, cuja agressão praticada por autoridades e quejandos é outro animal repugnante, cuja disformidade já adquiriu tonalidades de esteticamente suportável.


O Brasil está se transformando num enorme rinoceronte.


Murilo Badaró em O Tempo