segunda-feira, outubro 26, 2009

A VERDADEIRA FACE DO BRASIL

Se o governo tivesse dedicado às questões sociais a mesma atenção que dedica às obras eleitoreiras e de caráter puramente midiático, certamente o país estaria melhor do que está. Saúde pública, educação de base, saneamento e moradia foram itens solenemente desprezados , e a precariedade com que foram tratados serviu de combustível para acelerar a violência urbana.
A VERDADEIRA FACE DO BRASIL

A violência urbana que toma conta do Rio de Janeiro insiste em atrapalhar os planos megalomaníacos do presidente Lula. Transformada por obra e graça do governo no palco dos dois maiores eventos esportivos mundiais, a cidade maravilhosa, nas últimas semanas, passou a ganhar espaço na mídia internacional, menos pelas suas inegáveis belezas naturais, mais pelos últimos acontecimentos policiais, que colocaram em dúvida a capacidade do país organizar eventos de tal envergadura.

Mas sob esse aspecto, não há muito que temer. O governo moverá mundos e fundos no sentido de garantir aos visitantes e atletas o sossego e a segurança que faltam, por exemplo, aos moradores do Morro do Macaco, na Penha, cenário da mais recente batalha entre policiais e traficantes e que culminou com a derrubada cinematográfica de um helicóptero da polícia.

Nos dias de competição esportiva, a exemplo do que ocorreu em eventos internacionais anteriores, os turistas poderão apreciar as belezas das zonas sul e oeste da cidade sem o incômodo das balas perdidas, ônibus e trens incendiados, assaltos, seqüestros, e guerra entre quadrilhas. Terminado os eventos esportivos, os cariocas voltarão a conviver com todos os inconvenientes que fazem de sua vida diária algo parecido com o inferno. Isso porque se sobram recursos – e o fato do Brasil assumir o patrocínio dos dois megaeventos é uma prova disto – faltam vontade política e planejamento para o combate contínuo e efetivo ao chamado crime organizado.

Qualquer especialista em violência urbana – e muitos, daqui e do exterior, já se pontificaram a ajudar o governo no sentido de extirpar definitivamente esse câncer social – sabe que a erradicação do crime organizado das favelas e periferias é um trabalho hercúleo, mas perfeitamente possível. Deve, sobretudo, envolver as três esferas do poder federativo – federal, estadual e municipal – e abranger ações que vão desde a vigilância permanente das fronteiras, porta de entrada das armas e drogas, até a presença efetiva do Estado nas comunidades dominadas pelos marginais, passando pela unificação e completa reformulação dos quadros da polícia no sentido de torná-la menos corrupta e mais eficiente.

O governo Lula iniciou o seu já longo e cansativo governo com a promessa de ser o governo das causas sociais. Se tivesse cumprido o prometido, grande parte dos problemas de violência urbana que infernizam o Rio e outras metrópoles brasileiras estariam resolvidos. Mas a sua única ação digna de nota foi a ampliação de um programa assistencialista criado no governo anterior e transformado pelo atual numa grande fonte de votos em épocas eleitorais. Nada mais.

Se o governo tivesse dedicado às questões sociais a mesma atenção que dedica às obras eleitoreiras e de caráter puramente midiático, certamente o país estaria melhor do que está. Saúde pública, educação de base, saneamento e moradia foram itens solenemente desprezados , e a precariedade com que foram tratados serviu de combustível para acelerar a violência urbana.Violência que, num efeito bumerangue, agora se volta contra o próprio governo, e desmoraliza o seu projeto de vender no exterior a imagem de um país bonito por natureza e a caminho do paraíso do primeiro mundista. Não é.
Sem as luzes e os artifícios criados pela propaganda oficial, a realidade insiste em desmentir o governo, e teima em mostrar ao mundo a verdadeira face do Brasil,um país com imensas desigualdades e um IDH sofrível, se comparado a países com iguais ou menores índices de crescimento.



segunda-feira, outubro 19, 2009

DEMOCRACIA CLAUDICANTE

O mais recente golpe contra a democracia ocorreu na Argentina sob a forma de uma nova “lei para o controle da imprensa e dos meios de comunicação”, imposta pelo governo de Cristina Kirchner e aprovada a toque de caixa por parlamentares em final de mandato , uma vez que o novo Congresso, de maioria oposicionista tomará posse em 10 de dezembro. Sob o pretexto de combater os monopólios, Kirchner quer de fato controlar a mídia
DEMOCRACIA CLAUDICANTE

A democracia na América Latina, ou o que resta dela, corre risco de morte. Nesta primeira década do século XXI, o continente foi tomado por uma espécie de populismo autoritário de esquerda, que chegou ao poder pelo voto mas quer permanecer nele indefinidamente, pelo desrespeito contínuo às constituições e o esmagamento sistemático das instituições democráticas.

O combustível que movimenta tal tipo autoritarismo são nossos velhos conhecidos: a pobreza, as imensas desigualdades sociais e a educação precária, gerando no povo a incapacidade de discernir entre política públicas eficazes e consistentes e políticas demagógicas de caráter assistencialista e eleitoreira.

Assim, sucessivamente, países como Venezuela, Equador, Bolívia ,Argentina e Brasil foram tomados por essa velha prática política que, embora sustentada por discursos modernos e sedutores, não passa de uma versão moderna do velho caudilhismo que tanto infelicitou a vida da América Latina num passado não muito distante.

A doença se espalhou pela América do Sul e contaminou a América Central , onde a Nicarágua e Honduras se deixaram levar pela lábia de Chávez. Em Honduras, a inusitada e acertada reação das instituições democráticas do país contra a tentativa de Manuel Zelaya de prolongar o seu mandato não foi bem compreendida pela comunidade internacional, e o impasse se prolonga, com a cessão da embaixada do Brasil para que Zelaya continue a desestabilizar a vida do pequeno país na sua tentativa de retomar o poder perdido.

Mas o mais recente golpe contra a democracia ocorreu na Argentina sob a forma de uma nova “lei para o controle da imprensa e dos meios de comunicação”, imposta pelo governo de Cristina Kirchner e aprovada a toque de caixa por parlamentares em final de mandato , uma vez que o novo Congresso, de maioria oposicionista tomará posse em 10 de dezembro.

Sob o pretexto de reduzir o poder dos monopólios sobre a mídia, o governo mobilizou a sua base de apoio e, sabe-se lá como, conseguiu votos na oposição para colocar a concessão de licenças para canais de rádio e de TV sob o estrito controle do Estado. O alvo principal da ação do governo é o Clarín, maior grupo de mídia do país, que desde o ano passado tem atormentado a vida do casal Kirchner com o aumento da contundência das críticas ao governo.

É bom não esquecer que o Brasil de Lula já tentou percorrer a mesma trilha que agora é percorrida pelo governo argentino. No seu primeiro mandato, o petista tentou impor a censura e o controle sobre a imprensa através dos projetos da Ancive e do Conselho Federal de Jornalismo. Não fosse a reação da sociedade, talvez hoje Lula não sentisse o desprazer de ver a sua popularidade ser contraposta por meia dúzia de bravos e malcriados jornalistas que teimam em apontar os inúmeros erros do governo, em meio à unanimidade burra que parece ter tomado conta do Brasil.

O exemplo da Venezuela , onde Chávez submeteu gradativamente as instituições - Imprensa, Congresso, Justiça - que representavam a liberdade e o equilíbrio entre os poderes, e instalou de fato uma ditadura, parece ter contaminado definitivamente a América Latina. Portanto, por mais bem intencionado que pareça o discurso do governo argentino, ele não consegue esconder o propósito obscurantista da mais recente decisão do governo Kirchner.
191009

sexta-feira, outubro 16, 2009

UMA NAÇÃO DE CÓCORAS

Objetivamente: qual a necessidade de o presidente da República passar três dias vistoriando obras do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco em quatro estados, na companhia de uma vasta comitiva de ministros, entre eles a chefe da Casa Civil?

Para uma vistoria, engenheiros dariam conta do recado. Para uma prestação de contas à sociedade com a finalidade de mostrar que as obras estão andando, há verbas (abundantes) de propaganda institucional.

Mas, como o objetivo não é verificar coisa alguma e a publicidade pura e simples, no caso, não cumpre o objetivo, o presidente Luiz Inácio da Silva ocupa três dias úteis dos raros que tem passado no país com uma turnê de acampamentos e pronunciamentos de caráter pura e explicitamente eleitoral.

Isso quando há problemas graves que mereceriam do presidente mais que referências ligeiras ou declarações de natureza político-partidária, ora em sentido de ataque, ora de defesa.

Exemplos mais recentes: o cancelamento por fraude do Enem e o confisco temporário de parte da devolução do Imposto de Renda para cobrir gastos públicos contratados pela necessidade de sua excelência alimentar o mito do grande beneficiário da Nação, empreendedor ousado.

Mas o que espanta já não é mais o que Lula faz. O que assusta é o que deixam que ele faça. E pelas piores razões: uns por oportunismo deslavado, outros por medo de um fantasma chamado popularidade, que assombra – mas, sobretudo, enfraquece – todo o país.

Fato é que os poderes, os partidos, os políticos, as instituições, as entidades organizadas, a sociedade estão todos intimidados, de cócoras ante um mito que se alimenta exatamente da covardia alheia de apontar o que está errado.



Por receio de remar contra a corrente, mal percebendo que a corrente é formada justamente por força da intimidação geral, temor de ser enquadrado na categoria dos golpistas. Tomemos o partido de oposição que pretende voltar ao poder nas próximas eleições, o PSDB, pois ontem um dos postulantes à candidatura presidencial, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, manifestou-se com muita clareza a respeito dessa última e mais atrevida turnê eleitoral financiada com dinheiro do bolso de quem é partidário do presidente e de quem não é.

“Acho que o presidente tem todo direito de viajar pelo país. Isso faz parte do jogo político. Eu não me preocupo com essas viagens. Acho que elas são legítimas, da mesma forma que nós, da oposição, de forma extremamente respeitosa, temos de ter nossa estratégia. Isso é a democracia”, disse o governador, num momento de acentuado equívoco.

Pelo seguinte: não se trata de a oposição se preocupar eleitoralmente ou não com as viagens de Lula. Inclusive porque a questão não são as viagens, mas a natureza eleitoral, partidária, portanto, e o fato de transgredirem a lei no que tange ao uso da máquina pública.

A declaração do governador de Minas, sendo ele quem é no cenário político e em particular de seu partido, representa a voz do PSDB. Que, portanto, não apenas aceita que o dinheiro público seja usado pelo governante para financiamento de campanha como, ao achar tudo muito “natural e legítimo”, confessa que faria (se já não faz) o mesmo.

O governador de Minas, e de forma mais contida o de São Paulo, José Serra, acham que fazendo vista grossa a todo e qualquer tipo de transgressão estão sendo politicamente espertos, quando apenas fogem de suas responsabilidades como homens públicos que se pretendem “íntegros”, conforme pregou outro dia o governador Serra. Não contestam coisa alguma, coonestam e assim vão amaciando, “respeitosamente”, o caminho rumo ao Palácio do Planalto.

Pode até ser que a estratégia dê certo sob o ponto de vista eleitoral da oposição. Mas é um desserviço à democracia, que, ao contrário do que parece pensar o governador Aécio, não significa liberdade para transgredir, mas respeito ao direito – e ao dinheiro – de todos.

terça-feira, outubro 13, 2009

CIRO PROMETE BARULHO

Personalista e voluntarioso, Ciro Gomes pertence àquela linhagem de políticos brasileiros, da qual os representantes mais ilustres são Jânio Quadros e Fernando Collor. Para essa gente, partido político é meramente uma escada que se usa e se descarta de acordo com as circunstâncias; programa partidário é algo que só serve para ser usado durante as campanhas eleitorais e convenientemente esquecido depois; e ideologia é coisa de intelectual elitista distante da prática política. Ciro e seus novos aliados paulistas: o que ele quer é o Planalto
CIRO PROMETE BARULHO

Quando se imaginava que o panorama das próximas eleições presidenciais ficaria reduzido ao embate entre a candidatura oficial, representada pela ministra Dilma Rousseff, e o candidato da oposição, José Serra, eis que se apresenta, mais uma vez, Ciro Gomes.

Personalista e voluntarioso, Ciro Gomes pertence àquela linhagem de políticos brasileiros, da qual os representantes mais ilustres são Jânio Quadros e Fernando Collor. Para essa gente, partido político é meramente uma escada que se usa e se descarta de acordo com as circunstâncias; programa partidário é algo que só serve para ser usado durante as campanhas eleitorais e convenientemente esquecido depois; e ideologia é coisa de intelectual elitista distante da prática política.

Ciro é um daqueles políticos que não joga para o time, mas quer que o time jogue para ele. Mesmo que o time seja pequeno, como é o caso do PSB, ao qual está filiado e escolhido por ele para dar sustentação legal às suas pretensões nada modestas.Ciro quer porque quer o Planalto.Apresentou-se como candidato presidencial pela primeira vez em 1998 e ficou em terceiro lugar com 10,9 % do votos, o que foi considerado um ótimo resultado, considerando-se que era até então um ilustre desconhecido.

Em 2002, voltou a concorrer. Chegou a liderar as pesquisas no primeiro turno, quando o seu temperamento intempestivo se exarcebou: cometeu grosserias contra eleitores e contra a sua mulher, Patrícia Pillar, e foi ultrapassado por Lula , José Serra e Anthony Garotinho. Derrotado, aliou-se de imediato a Lula, que na campanha havia sido chamado por ele de ignorante e despreparado, e foi premiado com um importante ministério no primeiro mandato do petista.

Como ministro, manteve uma postura discreta e fidelidade ao líder petista, quem sabe na esperança de ser ungido por ele como candidato da base aliada. Mas, como sabemos, Lula tinha outros planos, e dentro deles a candidatura de Dilma Rousseff. Desde então, Ciro tem se dedicado a um malabarismo político de tal ordem que poucos são capazes de prever o resultado.

Mesmo sem o apoio de Lula, insiste em se apresentar como uma espécie de segunda opção da base governista por querer usufruir dos frutos que acredita ter ajudado a produzir, e por acreditar que Dilma não tem carisma nem bagagem para derrotar José Serra. Ao se apresentar para a disputa, Ciro joga com a possibilidade de desbancar Dilma ainda no primeiro turno, e colocar, por falta de opção, Lula e toda a máquina governamental a seu serviço no segundo turno.

Sob esse ângulo, a mudança de domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo, que a primeira vista poderia parecer rendição ao seu projeto presidencial em troca de uma candidatura ao governo do estado, pode, ao contrário, estar sinalizando que o deputado deseja de fato é construir uma base política minimamente sólida no estado mais forte da federação, e território de Serra.Portanto, não foi por nada que o PSB filiou figuras como o presidente da FIESP, Paulo Skaf, e o ex-tucano Gabriel Chalita, vereador mais voltado de São Paulo.

Pretensioso, arrogante e autoritário, dono de um discurso provocativo e ríspido, Ciro entrou no jogo para fazer barulho. Mas vai ter que aparar arestas se quiser ser um candidato de fato competitivo. Diante da inexpressividade de Dilma Rousseff e da timidez de José Serra, não são pequenas as chances de que ele venha a ser importante protagonista da próxima campanha eleitoral.
131009

CIRO GOMES E O CQC

Veja o vídeo


terça-feira, outubro 06, 2009

A INSENSATEZ OLÍMPICA

O resultado mais imediato será o engavetamento de possíveis projetos que requeiram altos investimentos no campo da educação, saúde, saneamento e moradia, as verdadeira prioridades do país. Traduzindo: além de pagar o alto custo das duas grandes festas esportivas, o povo vai amargar as consequências da falta de recursos para os setores básicos. Os três novos poderes da República: Teixeira, Lula e Nuzman

A INSENSATEZ OLÍMPICA

Nos próximos sete anos, o Brasil terá praticamente uma única prioridade: despejar rios de dinheiro público na organização dos dois maiores eventos esportivos do planeta. A determinação do governo brasileiro para que o país hospedasse os dois mega eventos foi bem recebida por alguns setores da economia, da política e da mídia. É inegável que as áreas do turismo, entretenimento, lazer, hotelaria, e comércio serão beneficiados . Também serão privilegiados os setores da construção civil e infra-estrutura, mas de maneira restrita, pois direcionadas especificamente às obras de construção e reforma das instalações esportivas.

Nada contra que o Brasil organize eventos esportivos desse porte, desde que não sejam bancados quase exclusivamente pelo Estado. E, pior, por um país com tantos e urgentes problemas a resolver no campo social.Não é por coincidência que eventos do tamanho de uma olimpíada jamais foram assumidos por países “emergentes “ ou subdesenvolvidos. Ao se propor a sediar os jogos de 2016, o Brasil rompe uma tradição de que as disputas sempre foram organizadas por cidades localizadas em países desenvolvidos.

Mas, o governo brasileiro, incorporando um ufanismo despropositado e inconseqüente, resolveu dar visibilidade internacional ao país, além de incrementar os seus projetos políticos de longa permanência no poder, da maneira mais onerosa possível: torrando bilhões de dinheiro público na concretização dos dois espetáculos.Lula quer ombrear o Brasil às grandes potências mundiais, mas jamais será levado a sério enquanto não colocar o país num patamar decente no ranking do IDH mundial.

O resultado mais imediato será o engavetamento de possíveis projetos que requeiram altos investimentos no campo da educação, saúde, saneamento e moradia, as verdadeira prioridades do país. Traduzindo: além de pagar o alto custo das duas grandes festas esportivas, o povo vai amargar as consequências da falta de recursos para os setores básicos.

Quando da realização, no Rio de Janeiro, dos Jogos Pan-americanos em 2007, os defensores do evento rebatiam às críticas com a falácia dos benefícios permanentes para a cidade e o esporte brasileiro. Como se viu, não aconteceu uma coisa nem outra.

A zona sul do Rio de janeiro continua linda, mas a zona norte, os subúrbios e as favelas permanecem pobres e violentas. As instalações esportivas construídas, que deveriam funcionar como centros de formação permanente de atletas, estão abandonadas ou são subaproveitadas. Atletas de primeira linha, como os ginastas Jade Barbosa,Diego e Danielle Hypólito (veja o vídeo abaixo), passaram pela humilhação de mendigar patrocínios para poderem treinar.

A realização no Brasil da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas de 2016 é uma insensatez do tamanho dos eventos. O orçamento inicial previsto será estourado dezenas de vezes, o superfaturamento das obras fará a alegria de empreiteiras, a corrupção será a regra, e a fiscalização será praticamente nula. A conta será paga pela sociedade através dos governos que virão a seguir. Por que acreditar que desta vez será diferente, se sempre foi assim?
061009


O PAÍS QUE VAI SEDIAR AS OLIMPÍADAS


quinta-feira, outubro 01, 2009

MARACUTAIA MINEIRA


O problema é que, como sempre acontece quando não são submetidas a um rigoroso controle, essas instituições tornam-se gigantescos cabides de empregos, além de cenário para as mais diversas falcatruas, onde não faltam boas doses de corrupção, desvios, privilégios e toda espécie de práticas danosas ao erário público.
MARACUTAIA MINEIRA

Além do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES ), o Brasil é salpicado por dezenas de bancos similares que se propõem fomentar o desenvolvimento nos respectivos estados. Em princípio, nada contra a sua existência.

Em tese, países em desenvolvimento necessitam de instituições do gênero, para que sirvam de âncoras para projetos de infra-estrutura e incremento das atividades econômicas privadas.Até mesmo economistas liberais admitem que a presença desses órgãos se faz necessária, principalmente em países onde a iniciativa privada carece de recursos suficientes para empreitadas de alto custo financeiro.

Mas nem tudo são flores. O problema é que, como sempre acontece quando não são submetidas a um rigoroso controle, essas instituições tornam-se gigantescos cabides de empregos, além de cenário para as mais diversas falcatruas, onde não faltam boas doses de corrupção, desvios, privilégios e toda espécie de práticas danosas ao erário público.

É o que vem acontecendo no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), onde a prática de rescisões contratuais forjadas pode estar causando um grande prejuízo aos cofres do Estado. A maracutaia consiste basicamente na demissão sem justa causa de funcionários celetistas, prestes a se aposentarem, para que eles recebam, além do FGTS uma indenização rescisória de 40% do valor do saldo do fundo.Em alguns casos , as guias de pagamento revelaram "boladas" individuais, referentes à multa, que chegaram a R$ 136 mil; em outros, que tratam do recolhimento do FGTS, somam até R$ 716 mil.

Para se ter uma idéia do tamanho do rombo, somente no período de 2008 até agosto deste ano, o BDMG gastou R$5,1 milhões em indenizações que beneficiaram pelo menos 25 altos funcionários. O comportamento do banco é respaldado numa resolução interna da instituição, e vem sendo praticado desde 1996.O atual Conselho de Administração é presidido por Itamar Franco e tem como conselheiro o vice governador Antonio Anastasia.

Pelo alto poder explosivo do caso, a oposição ao governo de Aécio Neves na Assembléia Legislativa prepara um pedido de CPI, enquanto o Ministério Público abriu inquérito para investigar a manobra. Num ano pré-eleitoral, um escândalo de grandes proporções no quintal de Aécio é um prato cheio para a oposição.

Para o cidadão, pouco interessa quem é o bandido nessa história. Fundamental é que o caso seja investigado com profundidade, os culpados sejam punidos e os cofres públicos sejam ressarcidos. E que esse tipo de instituição financeira somente continue a funcionar sob estrito controle da sociedade. Caso contrário, mesmo que a existência de tais órgãos venha respaldada pelos mais nobres propósitos, para o bem do bolso do contribuinte o melhor é que sejam definitivamente extintos.
011009