terça-feira, junho 30, 2009

OTÁRIOS E ESPERTALHÕES

A nossa mal construída democracia , associada ao desprezo secular pela educação, conduziu milhões de pessoas à situação de ignorância, carência material, e passividade, campo propício para que os espertalhões atuem com desenvoltura incomum tanto no setor público quanto no privado.O governo Lula acentuou como nenhum outro esta tendência.
OTÁRIOS E ESPERTALHÕES

espertalhão
[De esperto + -alhão.]
Adjetivo.
1.Diz-se de homem esperto, finório, velhaco, astuto, malicioso; esperto.
Substantivo masculino.
2.Indivíduo espertalhão; esperto. [Fem.: espertalhona.]
otário
[Do lunf. otario, ‘homem ingênuo, de boa-fé’.]
Substantivo masculino.
1.Gír. Indivíduo tolo, simplório, fácil de ser enganado:

Dicionário Aurélio Eletrônico
"Gosto de levar vantagem em tudo, certo?" Quem tem mais de 30 anos de idade provavelmente se lembra de um comercial de cigarro protagonizado pelo ex-jogador Gérson, autor do bordão acima. Por causa da frase, o craque ficou injustamente estigmatizado, mas a cultura da esperteza só fez crescer e se consolidar nas décadas seguintes. E neste início de século parece mais enraizada do que nunca.

De fato, a sociedade brasileira parece irremediavelmente dividida em duas categorias: os espertalhões e os otários. Os espertalhões são os que só fazem tirar vantagem em tudo e estão pouco se lixando para o restante da sociedade. Sob a sua ótica, o outro só existe para ser devidamente explorado, humilhado, desprezado. Os otários somos todos que de uma forma espontânea ou compulsória, consciente ou inconsciente servimos aos espertos . Graças a nós, eles conseguem acumular fama, dinheiro, ou poder. Ou as três coisas juntas.

Espertos são os políticos em geral, que encontram mil formas de se apropriar do dinheiro público, os funcionários públicos que exigem propina por serviços que deveriam ser gratuitos,os banqueiros que cobram juros e taxas bancárias exorbitantes, os padres e pastores que prometem o Reino dos Céus em troca dos generosos dízimos de seus fiéis, os charlatães de toda ordem que prometem a cura dos mais variados males, na proporção do que o cliente se dispõe a pagar.E os comerciantes que conscientemente vendem gato por lebre, ou seja, produtos falsificados, estragados, adulterados. Em comum, a promessa não cumprida da solução para as carências materiais, afetivas e espirituais.Desde que o outro esteja obrigado ou disposto a pagar.

Toda essa introdução é para dizer que essa democracia mal construída, associada ao desprezo secular pela educação, conduziu milhões de pessoas à situação de ignorância, carência material, e passividade, campo propício para que os espertalhões atuem com desenvoltura incomum tanto no setor público quanto no privado.O governo Lula acentuou como nenhum outro esta tendência.

Lula construiu toda a sua bem sucedida carreira no time dos espertos. Inicialmente, como líder sindicalista, depois como deputado federal, presidente de partido e presidente da República. Viveu e enriqueceu com o dinheiro público. No governo, não parou de praticar a política da esperteza, tanto na relação com seus aliados no Congresso - gente do porte de José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, e Fernando Collor -, quanto na relação com a sociedade. Poderia ter investido em educação de qualidade, mas isto não se traduziria em nenhum ganho imediato. Preferiu adotar, como política social central o supra sumo da esperteza, ou seja, o mais puro assistencialismo traduzido na política do é dando ( bolsas, cotas, geladeiras e tudo o mais ) que se recebe (votos ).

O Senado se transformou num antro de políticos experientes e astutos , viciados nas mais diversas práticas da malandragem. Lá, os espertalhões chefiados pelo mais esperto deles – José Sarney – produziram um sutil e secreto sistema para de surrupiar o dinheiro público, sob a aparência de legalidade, que não seria descoberto não fosse uma disputa entre eles pelo poder da Casa.

É claro que uma grande parcela dos otários o são por sua livre escolha. Mas estes sempre existiram e existirão. São inocentes úteis tolos e ingênuos e parecem sempre dispostos a se deixar seduzir por algum estelionatário de plantão.São otários por vocação.Em relação a estes, pouca coisa pode ser feita.Afinal, a estultice é inerente a uma grande parcela da humanidade.

Quanto aos otários compulsórios - todos nós que pagamos ao erário cerca de 40% do que recebemos como fruto do nosso trabalho- algo ainda pode ser feito.Desde que nos disponhamos a sair do comodismo e da inércia e façamos valer a nossa condição de cidadãos. Para isso, mais do que cobrar dos nossos governantes um comportamento ético e republicano, exigir deles o compromisso do emprego correto dos impostos que, por dever, depositamos sob a sua responsabilidade. Isso significa não continuar a admitir que os sucessivos governos nos enfiem goela abaixo escolas de má qualidade, péssimo serviço de saúde, segurança precária e rodovias esburacadas. Do contrário, continuaremos eternamente sob a tutela dos espertalhões.
300609

6 comentários:

Rosena disse...

Realmente nõ existe melhor definião para o pacato povo brasieiro. Somos otarios de verdade . E os politicos nos fazem de palhaços . É triste mas é verdade.

Ilton disse...

Fernando
Assim vc simplifica as coisas.Pelo que entendi vc coloca o cidadão que trabalha honestamente e paga os seus impostos como se otários fossem. O problema do brasil é a impunidade. É ela que faz com que nestepaís o crime compense.

Fernando Soares disse...

Caro Ilton;
A sociedade está paralisada, inerte, ante a corrupção generalizada. O senador Cristovam Buarque, e nisto eu lhe dou razão, disse que a corrupção não está apenas no desvio ou no superfaturamento: está também na prestação de serviços de péssima qualidade. Somos otários quando não exigimos dos parlamentares e governantes o correto emprego das verbas públicas e continuamos passivos .

Anônimo disse...

"se o malandro soubesse o quanto é malandro ser honesto ele iria ser honesto só por..malandragem".É isso que falta ensinar aos espertões e otários,que a longo prazo as consequencias da "esperteza" são: a falta de segurança nas ruas,ruas que os malandros e suas familias moram não apenas os otarios,escolas que não ensinam ninguem,trafico de drogas,filhos tanto dos otarios quanto dos malandros drogados,porque no país da malandragem não tem porque acabar com o trafico,poder paralelo,o mesmo que pode atingir com uma bala perdida tanto a familia do otario quanto a do esperto,pois é os espertos esquecem que moram num mesmo país,que não tem peito de aço,que bunker é um modo de prisão.Agora nós honestos com orgulho,vamos também nos unir e acabar com a festa dos "espertos",só existe o esperto quando se existe,(no nosso caso persiste) o trouxa,aquele que não se une,não sai às ruas,não briga,não luta..vamos nos organizar cambada de honestos..só

Miriam disse...

É uma questão histórica, cultural, a da melandragem no Brasil. Vem desde os tempos de colônia. Os colonizadores queriam apenas usufruir do trabalho pesado dos escravos. Pegar no duro, eles não queriam . Veja o caso dos Estados Unidos. Lá aconteceu o contrário daqui. Os colonizadores construiram a sua riqueza pelo próprio suor e esforço. O fato é que no Brasil predomina a lei no menor esforço, da esperteza, da malandragem. Como aqui não existe punição para os que tentam lucrar fácil às custas dos demais, então os honestos são os otários

Melina disse...

Fernando, excelente artigo e melhor ainda a analogia feita. É triste ver que de fato, nós trabalhadores, honestos, e que pagamos em dia as altas taxas tributárias, somos os otários que pagamos a conta dos espertos de Brasília. Somos otários, pois, não reagimos bravamente nas ruas. Espero que um dia isso aconteça.