terça-feira, junho 02, 2009

EMBOLANDO O MEIO-DE-CAMPO

Caminhando para a parte final de seu já longo governo, a antecipação do debate eleitoral pelo próprio presidente surpreendeu a muitos observadores e confundiu o cenário político. Afinal, tal atitude não é usual. O normal é o presidente em exercício procure adiar ao máximo o debate sucessório, pelo receio de ver o seu poder definhar. Mas aconteceu o contrário com Lula.Para muitos, essa atitude atípica foi proposital.

EMBOLANDO O MEIO-DE-CAMPO
Ao escolher a ministra Dilma Rousseff como sua candidata ao trono que ora ocupa e conduzi-la a todos os comícios sob o pretexto de inaugurar obras, o presidente Lula antecipou o debate sucessório, confundiu o cenário político,e, de uma maneira pouco usual, fez permanecer sobre si os holofotes da mídia. Normalmente, no final de mandato o governante de plantão passa a ser gradativamente esquecido.

Mas para criar esse clima anormal, Lula acabou impondo o preço da dúvida e da insegurança entre os seus aliados, fato agravado com a revelação da doença de Dilma. Sem norte, e desconhecendo os reais propósitos de seu chefe, os aliados se dividiram entre os que conservaram o apoio incondicional à candidata de Lula, os que ainda esperam o lançamento de um nome alternativo que possa ser trabalhado até a metade de 2010, os que desejam um terceiro mandato para Lula, e os que - principalmente no PMDB - estão dispostos a negociar passo a passo o apoio ao governo ,e, se algo der errado- leia-se, crescimento de Serra nas pesquisas - a pular para o lado da oposição.

Como se não bastassem a perplexidade e o desnorteamento da base governista, a oposição colocou mais lenha na fogueira ao formalizar a CPI da Petrobrás. Não que tucanos e democratas queiram investigar a fundo as falcatruas e os desmandos na maior empresa estatal da América Latina. O que a oposição quer de fato é colocar o governo contra a parede, desarticular qualquer tentativa governista de uma aliança eleitoral forte , e deixar evidente para o povão que o governo Lula foi incompetente e negligente na administração da empresa, visando um ganho eleitoral com todo esse imbróglio.De qualquer forma, pelo anunciado, a oposição não terá muito o que fazer na Comissão.O governo colocou em ação sua tropa de choque , nomeou Renan Calheiros o seu comandante, e se dispôs a pagar caro para que tudo se transforme numa monumental pizza.

Nesse meio-de-campo embolado e confuso, ganhou espaço nas últimas semanas a tese do terceiro mandato. Num misto de medo e esperteza, os principais líderes governistas não têm assumido abertamente a defesa dessa idéia. A tarefa foi entregue a um obscuro parlamentar do baixo clero da Câmara, Jackson Lago ( PMDB SE ), que no final da semana passada protocolou uma proposta de emenda constitucional (PEC) que permite duas reeleições para presidente da República, governadores e prefeitos. A proposta continha 194 assinaturas, sendo 15 de parlamentares de oposição. A primeira tentativa de Lago abortou porque os oposicionistas foram obrigados por seus líderes a retirarem as suas assinaturas. Mas o insistente deputado prometeu voltar nesta semana com um número maior de assinaturas.

Nada disso estaria acontecendo se o presidente Lula fosse transparente em suas atitudes e não deixasse dúvidas sobre as suas alegadas convicções democráticas. Mas não poucas vezes nos quase sete anos de mandato, o ex-metalúrgico se deixou flagrar manifestando admiração por obscuros ditadores africanos, declarando firme amizade a dirigentes do naipe de Fidel Castro e Hugo Chávez, negociando projetos e posições com a banda mais podre do Congresso, e envolvendo-se, não se sabe ainda em que grau, em tramas obscuras do porte do mensalão, com certeza o maior escândalo da História republicana.

Caminhando para a parte final de seu já longo governo, a antecipação do debate eleitoral pelo próprio presidente surpreendeu a muitos observadores e confundiu o cenário político. Afinal, tal atitude não é usual. O normal é o presidente em exercício procure adiar ao máximo o debate sucessório, pelo receio de ver o seu poder definhar. Mas aconteceu o contrário com Lula.

Para muitos, esta atitude atípica foi proposital. Lula teria lançado prematuramente o nome de Dilma Rousseff para que sua receptividade pudesse ser mais bem avaliada e o crescimento nas pesquisas mais bem observado. A sua doença, entretanto, foi de fato um complicador, mas, paradoxalmente, abriu espaço para o plano B, o que vem a ser nada menos do a continuidade de Lula no poder, através de uma alteração constitucional.

Na hipótese de a ministra ficar impossibilitada de dar seqüência à campanha, Lula se apresentará para o "sacrifício".Todo o discurso de que não quer o terceiro mandato ficará esquecido, e, inebriado pela popularidade e ancorado nas ações populistas de seu governo, dirá , repetindo canhestramente D Pedro I ,que se for para o bem do povo e felicidade geral da Nação ele ficará no poder.

Contra a possibilidade de golpe, entretanto, estão os obstáculos do tempo cada vez mais exíguo para que se realize uma mudança na Constituição, a sociedade cada vez mais atenta e a possibilidade da saúde política e orgânica da ministra sofrer melhoras significativas. Em todo caso, a atenção dos democratas deverá ser redobrada nos próximos meses, pois no país onde o golpismo e a instabilidade política é a regra, tudo é possível.
020609

5 comentários:

Anônimo disse...

Quando FHC mudou a constituição e impôs um a reeleição, muitos dos que criticam a hipótese de Lula fazer o mesmo aplaudiram a atitude de FHC. Eta turminha hipócrita!Lula está bem avaliado pelo povão, tem feito uma bom governo, mas já indicou que não quer um terceiro mandato. Por isso escolheu com antecedncia Dilma Roussef.

Reis disse...

Acho que Lula pessoalmente não está interessado nesta história de terceiro mandato que interessa muito mais aos puxa-sacos da base aliada, interessados nas benesses do poder.

Anônimo disse...

Totalmente de acordo com seu comentário. Acrescentaria que talvez fosse umaq propícia ocasião para que se discutisse o fim da reeleição de modo geral, isto é, também para as funções legislativas. Aí teríamos a renovação constante , sem riscos de perpetuação no poder de seres anômalos à democracia.

Reinaldo disse...

Fernando, corremos esse risco.Uma república que se diz democrática se caracteriza por eleições com mandato determinado com alternância de governo entre os partidos.Do contrário cairemos num caudilhismo que tanto infelicitou a América Latina, em que governantes imbuídos de um caráter messiânico se prolongam indefinidamente no poder. Se queremos estabilidade política precisamos frear este golpe de reeleições ilimitadas.
Fernando Henrique diz que "tres presidencias consecutivas não são uma democracia , mas uma monarquia".
O melhor sistema de governo que tivemos foi a Monarquia parlamentarista, sob Dom Pedro II, com ampla liberdade de imprensa , respeito à constituição e ao patrimônio público.Entretanto já que vivemos nesta República que haja pelo menos um mínimo de compromisso com a estabilidade democrática , que se pense mais no Brasil e menos no interesse mesquinho dos partidos no poder.

Melina disse...

Embolando o meio-de-campo de forma planejada em cada jogada minuciosa, de forma articulada há vários anos atrás. Esta é a ação do Lula. Ele quer o 3º, o 4....até quando...ninguém sabe. Lula já aparece na mídia com aquela cara de safado que ele tem dizendo a máxima: são vocês ("povo") é que estão dizendo e pedindo um 3º madato. É aí que mora o perigo e a onda se alastra. Coisa ruim pega logo.