terça-feira, junho 30, 2009

OTÁRIOS E ESPERTALHÕES

A nossa mal construída democracia , associada ao desprezo secular pela educação, conduziu milhões de pessoas à situação de ignorância, carência material, e passividade, campo propício para que os espertalhões atuem com desenvoltura incomum tanto no setor público quanto no privado.O governo Lula acentuou como nenhum outro esta tendência.
OTÁRIOS E ESPERTALHÕES

espertalhão
[De esperto + -alhão.]
Adjetivo.
1.Diz-se de homem esperto, finório, velhaco, astuto, malicioso; esperto.
Substantivo masculino.
2.Indivíduo espertalhão; esperto. [Fem.: espertalhona.]
otário
[Do lunf. otario, ‘homem ingênuo, de boa-fé’.]
Substantivo masculino.
1.Gír. Indivíduo tolo, simplório, fácil de ser enganado:

Dicionário Aurélio Eletrônico
"Gosto de levar vantagem em tudo, certo?" Quem tem mais de 30 anos de idade provavelmente se lembra de um comercial de cigarro protagonizado pelo ex-jogador Gérson, autor do bordão acima. Por causa da frase, o craque ficou injustamente estigmatizado, mas a cultura da esperteza só fez crescer e se consolidar nas décadas seguintes. E neste início de século parece mais enraizada do que nunca.

De fato, a sociedade brasileira parece irremediavelmente dividida em duas categorias: os espertalhões e os otários. Os espertalhões são os que só fazem tirar vantagem em tudo e estão pouco se lixando para o restante da sociedade. Sob a sua ótica, o outro só existe para ser devidamente explorado, humilhado, desprezado. Os otários somos todos que de uma forma espontânea ou compulsória, consciente ou inconsciente servimos aos espertos . Graças a nós, eles conseguem acumular fama, dinheiro, ou poder. Ou as três coisas juntas.

Espertos são os políticos em geral, que encontram mil formas de se apropriar do dinheiro público, os funcionários públicos que exigem propina por serviços que deveriam ser gratuitos,os banqueiros que cobram juros e taxas bancárias exorbitantes, os padres e pastores que prometem o Reino dos Céus em troca dos generosos dízimos de seus fiéis, os charlatães de toda ordem que prometem a cura dos mais variados males, na proporção do que o cliente se dispõe a pagar.E os comerciantes que conscientemente vendem gato por lebre, ou seja, produtos falsificados, estragados, adulterados. Em comum, a promessa não cumprida da solução para as carências materiais, afetivas e espirituais.Desde que o outro esteja obrigado ou disposto a pagar.

Toda essa introdução é para dizer que essa democracia mal construída, associada ao desprezo secular pela educação, conduziu milhões de pessoas à situação de ignorância, carência material, e passividade, campo propício para que os espertalhões atuem com desenvoltura incomum tanto no setor público quanto no privado.O governo Lula acentuou como nenhum outro esta tendência.

Lula construiu toda a sua bem sucedida carreira no time dos espertos. Inicialmente, como líder sindicalista, depois como deputado federal, presidente de partido e presidente da República. Viveu e enriqueceu com o dinheiro público. No governo, não parou de praticar a política da esperteza, tanto na relação com seus aliados no Congresso - gente do porte de José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, e Fernando Collor -, quanto na relação com a sociedade. Poderia ter investido em educação de qualidade, mas isto não se traduziria em nenhum ganho imediato. Preferiu adotar, como política social central o supra sumo da esperteza, ou seja, o mais puro assistencialismo traduzido na política do é dando ( bolsas, cotas, geladeiras e tudo o mais ) que se recebe (votos ).

O Senado se transformou num antro de políticos experientes e astutos , viciados nas mais diversas práticas da malandragem. Lá, os espertalhões chefiados pelo mais esperto deles – José Sarney – produziram um sutil e secreto sistema para de surrupiar o dinheiro público, sob a aparência de legalidade, que não seria descoberto não fosse uma disputa entre eles pelo poder da Casa.

É claro que uma grande parcela dos otários o são por sua livre escolha. Mas estes sempre existiram e existirão. São inocentes úteis tolos e ingênuos e parecem sempre dispostos a se deixar seduzir por algum estelionatário de plantão.São otários por vocação.Em relação a estes, pouca coisa pode ser feita.Afinal, a estultice é inerente a uma grande parcela da humanidade.

Quanto aos otários compulsórios - todos nós que pagamos ao erário cerca de 40% do que recebemos como fruto do nosso trabalho- algo ainda pode ser feito.Desde que nos disponhamos a sair do comodismo e da inércia e façamos valer a nossa condição de cidadãos. Para isso, mais do que cobrar dos nossos governantes um comportamento ético e republicano, exigir deles o compromisso do emprego correto dos impostos que, por dever, depositamos sob a sua responsabilidade. Isso significa não continuar a admitir que os sucessivos governos nos enfiem goela abaixo escolas de má qualidade, péssimo serviço de saúde, segurança precária e rodovias esburacadas. Do contrário, continuaremos eternamente sob a tutela dos espertalhões.
300609

terça-feira, junho 23, 2009

SARNEY É A CRISE

Pegos mais uma vez em flagrante delito, os senadores procuram simular seriedade e desejo de colocar tudo em pratos limpos, mas os debates que se travam no plenário e nos corredores não conseguem esconder o cinismo e a hipocrisia.De fato, está em curso mais uma tentativa de se construir uma farsa, dentre muitas que já marcaram a vida do Congresso nos últimos anos.Poucos são os senadores, se é que existem, sinceramente dispostos a investigar o que quer que seja, sem antes fazer uma autocrítica do próprio comportamento. SARNEY É A CRISE

Nas últimas semanas, o Senado Federal dedicou-se a debater os malfeitos praticados por membros e funcionários graduados da instituição. O tempo que deveria ser investido na elaboração de projetos em benefício da população, foi inteiramente dedicado a uma espécie de purgação interna. Os malfeitos não foram poucos nem de pouca gravidade. A relação inclui o pagamento de verbas indenizatórias indevidas, a criação de um número absurdo de diretorias (181, com salários em torno de R$20 mil), o pagamento de horas extras durante o recesso parlamentar, a nomeação de amigos e parentes através de atos secretos, as fraudes na contratação de serviços terceirizados , e a utilização de funcionários públicos regiamente pagos para serviços particulares, como acaba de ser denunciado em relação à ex-senadora Roseana Sarney. Ela mantinha um mordomo em sua mansão em Brasília com salário pago pelo contribuinte.

Pegos mais uma vez em flagrante delito, os senadores procuram simular seriedade e desejo de colocar tudo em pratos limpos, mas os debates que se travam no plenário e nos corredores não conseguem esconder o cinismo e a hipocrisia.De fato, está em curso mais uma tentativa de se construir uma farsa, dentre muitas que já marcaram a vida do Congresso nos últimos anos.Poucos são os senadores, se é que existem, sinceramente dispostos a investigar o que quer que seja, sem antes fazer uma autocrítica do próprio comportamento.

Nessa crise de desmoralização que mais uma vez toma conta do Senado e paralisa as atividades parlamentares a figura central é a do presidente da Casa. Num discurso em que tentava justificar o injustificável, José Sarney, alegou que a crise não é exclusivamente de sua responsabilidade, mas de toda a corporação. Velho de guerra, o senador amapaense sabia que suas palavras seriam recebidas em silêncio pela platéia que assistia ao seu discurso. De fato, os senadores, com poucas exceções, foram partícipes, cúmplices ou omissos em relação ao festival de indecência e de ilegalidades que assolava o Senado, e que somente foi tornado público como reflexo da disputa mal resolvida entre o PT e o PMDB pela presidência da Casa.

Mas o velho senador exagerou em sua tentativa de se isentar de culpa pela situação caótica em que se encontra a Câmara Alta. Como presidente da Casa pela terceira vez nos últimos quatorze anos – 1995-1997, 2003-2005, e a partir de 2009 -, José Sarney tem total responsabilidade sobre a montagem da estrutura que permitiu a série de negócios escusos e desvios de conduta que agora vêm a público. Se estivéssemos num País sério, o mínimo a se exigir seria a imediata abertura de inquérito para investigar a atuação do senador nos anos em que ocupou a presidência, Com certeza, o resultado seria o mais deprimente possível para a sua biografia .

Pois o que Sarney mais tem feito nas últimas semanas é apelar para o seu passado de sessenta anos de vida pública e alegar, em sua defesa, um histórico de bons serviços prestados ao país.Mas, mesmo ajudado por um holofote, fica difícil encontrar na biografia de Sarney algo que o faça mais semelhante a um estadista e menos parecido com um tradicional coronel da política nordestina, com todos os defeitos.

O que a História registra foi que num momento crucial da nossa vida política, Sarney viu cair no seu colo a presidência da República , mas não teve o discernimento e a grandeza que o momento exigia. Só para lembrar, o seu período na presidência é lembrado muito mais pela inflação estratosférica, pelos planos econômicos mirabolantes e desastrosos e pela sua relação extremamente fisiológica com o Congresso do que por algum projeto ou ação no sentido de levar o Brasil ao desenvolvimento. Sarney entrou para a galeria dos piores governantes da História deste País.

Neste imbróglio, como é de praxe, o presidente Lula somente abriu a boca para dizer besteira. E saiu em defesa de Sarney, ao manifestar aberta solidariedade ao presidente do Senado, do qual, aliás, se mostra um hábil aprendiz na arte de fazer política de baixo nível, com grandes doses de fisiologismo.Em final de mandato, e mendigando o apoio do PMDB ao seu plano de continuar no poder através da eleição de Dilma Roussef, mais do que nunca ele precisa dos préstimos do senhor do Maranhão e do Amapá para poder driblar a oposição e aprovar os de seus projetos no Congresso.

Pressionado pela mídia, pela opinião pública e por um diminuto grupo de senadores, o presidente do Senado, numa tentativa de dar uma aparência de respeitabilidade à sua gestão, apressou-se, na semana passada, em formalizar uma comissão de sindicância interna que, sob o “acompanhamento” do TCU e do Ministério Público investigará a série de denúncias.Os alvos principais são os ex-diretores Agaciel Maia e João Carlos Zoghbi.

Fica claro que se punições acontecerem, elas atingirão exclusivamente o corpo administrativo da Casa, pois dificilmente algum senador será responsabilizado. E se for, terá direito ao foro privilegiado do STF. Ou seja, ao fim e ao cabo, será responsabilizado meia dúzia de funcionários, isentados todos os senadores. E a vida segue porque o povo esquece, pensam os donos do poder.

E não deixarão de ter razão enquanto a opinião pública não ensejar uma ação pública, num amplo movimento pela moralização do Congresso. Pelo atual andar da carruagem, se tiver tempo, saúde e vontade, José Sarney ainda terá uma sobrevida política.Ele conhece muito bem o chão em que pisa e melhor ainda os seus companheiros de viagem.
230609

terça-feira, junho 16, 2009

DA PIOR FORMA POSSÍVEL

A busca do consenso poderia se dar por meio de um amplo debate com a participação de todas as frentes interessadas na questão.Enquanto não se encontra o caminho que permita a exploração econômica da região, de forma sustentável, a atitude do governo não deve ser outra que não a intensificação da fiscalização e da repressão a todos as ações predatórias do meio ambiente. Senadoras Marina Silva e Katia Abreu: choque de concepções sobre a Amazônia.



DA PIOR FORMA P0SSÍVEL

O governo Lula e o Congresso Nacional tentaram consertar uma agressão sistemática ao meio ambiente da pior maneira possível: legalizando-a. É o que se deduz da MP 458,aprovada pelo Senado em 3 de junho, que dispõe sobre a venda ou doação de uma área gigantesca na Amazônia - 67,4 milhões de hectares, o tamanho dos territórios da Alemanha e Itália somados .

O governo argumenta que as áreas já estavam ocupadas há muito, e que a legalização da posse formalizaria uma série de compromissos dos proprietários com o Estado, e, por conseqüência, facilitaria a fiscalização dos órgãos governamentais contra a progressão continuada do desmatamento e a agressão sistemática ao meio ambiente. Para os ambientalistas, entretanto, o governo nada mais fez do que entregar o ouro aos bandidos e oficializar a grilagem de terras.

De fato, a questão amazônica, não é de hoje, tem requerido uma atenção especial, o que nenhum dos últimos governos republicanos soube ou quis fazer.A sua imensa riqueza e diversidade biológica a faz alvo de ambições de toda sorte. Além do mais, a sua complexidade social faz com que se contraponham numa simbiose explosiva, interesses de posseiros, latifundiários, grileiros, índios,ambientalistas, missionários , agricultores sem terras, e ONGs internacionais.

O que acontece é que por força da radicalização das posições e da omissão do Estado a solução para os problemas da região tem sido adiada com prejuízos tanto para o meio ambiente quanto para as populações locais. Os ambientalistas extremados não deixam de ter razão quando insistem que a biodiversidade local deva ser preservada, mas pecam quando não admitem que o desenvolvimento econômico possa ser feito de maneira equilibrada e sustentável.

Da mesma forma, os ruralistas têm razão quando defendem que a floresta e seus recursos não podem permanecer eternamente intocáveis , mas erram feio quando desconsideram a degradação natural que uma ocupação mal planejada pode provocar. Encontrar um meio termo entre essas duas concepções é uma tarefa que vai exigir um amplo e profundo debate em busca de bom senso e equilíbrio, sob mediação do governo.No Senado, as duas posições antagônicas ficaram evidentes nas figuras das senadoras Marina Silva( PT – AC ), ex-Ministra do Meio Ambiente, e Kátia Abreu ( DEM- TO ) atual presidente da Confederação Nacional da Agricultura( CNA).

A busca do consenso poderia se dar por meio de um amplo debate com a participação de todas as frentes interessadas na questão.Enquanto não se encontra o caminho que permita a exploração econômica da região, de forma sustentável, a atitude do governo não deve ser outra que não a intensificação da fiscalização e da repressão a todos as ações predatórias do meio ambiente.

O governo Lula, pressionado pelas forças políticas ligadas à ocupação predatória da região amazônica, a maior parte acantonadas na sua base de apoio, sob a alcunha de “bancada ruralista”, optou pela mais simples e pior das alternativas. Uma decisão que deveria ser tomada, no mínimo, através de um Projeto de Lei, foi atirada no Congresso através de uma Medida Provisória.

O conteúdo da MP não separou o joio do trigo, e o resultado foi a legalização das terras, beneficiando os posseiros que as ocupavam. Para muitos, tratou-se de um prêmio aos que ocuparam as terras de maneira ilegal e um incentivo a que novos aventureiros e predadores ocorram à região, em busca da terra prometida.

Com isso, não se resolveu o núcleo da questão da ocupação predatória do território, legalizou-se a grilagem, não se estruturou um sistema eficiente de fiscalização, e, ao final, com uma canetada, talvez se tenha praticado contra a Amazônia a maior agressão ambiental de toda a História. O tempo dirá o tamanho do crime cometido.
160609

terça-feira, junho 09, 2009

PRA FRENTE, BRASIL

Se os investimentos necessários se dessem sob rigorosíssimo controle e fiscalização, tudo já seria um grande desperdício. Mas, como todos sabem, no País do desvio de verbas, e do superfaturamento, certamente os recursos destinados às obras se perderão no buraco negro da corrupção, e farão a alegria de poucos – gente da CBF, do Ministério dos Esportes, de Governos estaduais e de entidades organizadoras do evento. Mas no final, a conta será paga por todos nós.
PRA FRENTE BRASIL!
O Brasil tem um caso de amor quase doentio pelo futebol , e a escolha do País como sede da Copa do Mundo de 2014 deve ter anestesiado a opinião pública e entorpecido o senso crítico de analistas da mídia. Poucos têm manifestado contrariedade com a decisão de um país com graves problemas de toda ordem assumir a organização de um evento milionário. A promoção de um evento de tal porte requer investimentos vultosos. A possibilidade de presenciar o desfile dos maiores astros do futebol seria motivo de regozijo, não fosse o fato de que quem vai acabar pagando a festa é o contribuinte.
O que o Brasil menos precisa nesse momento é de um evento esportivo de tal dimensão. Sob qualquer ângulo, as desvantagens superam em muito os possíveis ganhos. Talvez outros motivos, menos prosaicos, explicariam melhor essa excentricidade que vai custar caro aos brasileiros. Menos a pequenos e poderosos grupos, que juntarão a fome de autopromoção política à vontade de comer fatias do grande bolo financeiro gerado pela organização do evento esportivo. Segundo os promotores, a maior parte vinda do setor privado, mas, ao que tudo indica sairão mesmo dos cofres públicos.
O governo brasileiro assumiu perante a FIFA o compromisso de organizar, e foi o único a fazê-lo: os demais países demonstraram mais juízo. Desde 1986, ano em que a Copa foi sediada no México,países com problemas econômicos e dificuldades sociais não se arriscam a promover espetáculos desta envergadura financeira. Nos últimos 23 anos os mundiais de futebol foram bancados por países desenvolvidos - Itália, Estados Unidos, França, Coréia e Japão, e Alemanha; a exceção fica por conta da África do Sul que se propôs a sediar o próximo mundial, mas vem encontrando graves problemas na organização. Tanto que a FIFA já tem arquitetado o plano B: caso o país africano não dê conta do recado, Inglaterra ou Alemanha já estão preparadas para sediar o torneio.
A principal etapa, que consiste na reforma e construção de estádios, já revela problemas. A iniciativa privada, mergulhada em dificuldades, parece pouco disposta a investir dinheiro em canoa furada. Dos estádios anunciados como sedes dos jogos , nenhum será inteiramente bancado pelo setor privado, como seria desejável. Estádios como o Morumbi,Beira Rio, e Arena da Baixada, que pertencem a clubes, deverão ter suas reformas financiadas através de parcerias público-privadas; os demais certamente serão reformados ou construídos inteiramente com dinheiro estatal.
O grande entrave é saber o que fazer com as arenas após o término da competição. A manutenção de cada uma delas vai exigir um custo que poucos estarão dispostos a assumir Soluções tão mirabolantes quanto inviáveis - transformar os estádios em centros de compra e de lazer e palco de shows musicais – não faltam. O mais provável é que os estádios construídos em cidades onde o futebol profissional praticamente inexiste estarão fadados a se transformarem em vistosos e dispendiosos elefantes brancos.
Mas não são apenas os estádios. A organização exige gastos exorbitantes em obras de infra-estrutura, comunicação, transporte, hospedagem, centros de treinamento, e muito mais. As anunciadas obras estarão direcionadas para um setor específico, e talvez pouca valia tenham após o encerramento do torneio. Melhor se fossem realizadas como rotina administrativa de um projeto de governo, a serviço da população, sem que, para tal, houvesse a necessidade de um evento caríssimo. A herança dos jogos pan-americanos do Rio , em 2007,exemplifica bem: hoje as instalações construídas para o Pan estão entre subaproveitadas ou completamente abandonadas .
Se tais investimentos necessários se dessem sob rigorosíssimo controle e fiscalização, tudo já seria um grande desperdício. Mas, como todos sabem, no País do desvio de verbas, e do superfaturamento, certamente os recursos destinados às obras se perderão no buraco negro da corrupção, e farão a alegria de poucos – gente da CBF, do Ministério dos Esportes, de Governos estaduais e de entidades organizadoras do evento. Mas no final, a conta será paga por todos nós.
Agora Inês é morta, e pouco adianta chorar sobre o leite derramado. Resta, a quem estiver vivo até lá, torcer pela seleção canarinho e exercer marcação cerrada sobre os gastos públicos com a promoção do espetáculo.Afinal, no dia seguinte ao encerramento da Copa, diante da realidade caótica da saúde, segurança, educação e saneamento, talvez não tenhamos forças nem ânimo para gritar “pra frente, Brasil!”

terça-feira, junho 02, 2009

EMBOLANDO O MEIO-DE-CAMPO

Caminhando para a parte final de seu já longo governo, a antecipação do debate eleitoral pelo próprio presidente surpreendeu a muitos observadores e confundiu o cenário político. Afinal, tal atitude não é usual. O normal é o presidente em exercício procure adiar ao máximo o debate sucessório, pelo receio de ver o seu poder definhar. Mas aconteceu o contrário com Lula.Para muitos, essa atitude atípica foi proposital.

EMBOLANDO O MEIO-DE-CAMPO
Ao escolher a ministra Dilma Rousseff como sua candidata ao trono que ora ocupa e conduzi-la a todos os comícios sob o pretexto de inaugurar obras, o presidente Lula antecipou o debate sucessório, confundiu o cenário político,e, de uma maneira pouco usual, fez permanecer sobre si os holofotes da mídia. Normalmente, no final de mandato o governante de plantão passa a ser gradativamente esquecido.

Mas para criar esse clima anormal, Lula acabou impondo o preço da dúvida e da insegurança entre os seus aliados, fato agravado com a revelação da doença de Dilma. Sem norte, e desconhecendo os reais propósitos de seu chefe, os aliados se dividiram entre os que conservaram o apoio incondicional à candidata de Lula, os que ainda esperam o lançamento de um nome alternativo que possa ser trabalhado até a metade de 2010, os que desejam um terceiro mandato para Lula, e os que - principalmente no PMDB - estão dispostos a negociar passo a passo o apoio ao governo ,e, se algo der errado- leia-se, crescimento de Serra nas pesquisas - a pular para o lado da oposição.

Como se não bastassem a perplexidade e o desnorteamento da base governista, a oposição colocou mais lenha na fogueira ao formalizar a CPI da Petrobrás. Não que tucanos e democratas queiram investigar a fundo as falcatruas e os desmandos na maior empresa estatal da América Latina. O que a oposição quer de fato é colocar o governo contra a parede, desarticular qualquer tentativa governista de uma aliança eleitoral forte , e deixar evidente para o povão que o governo Lula foi incompetente e negligente na administração da empresa, visando um ganho eleitoral com todo esse imbróglio.De qualquer forma, pelo anunciado, a oposição não terá muito o que fazer na Comissão.O governo colocou em ação sua tropa de choque , nomeou Renan Calheiros o seu comandante, e se dispôs a pagar caro para que tudo se transforme numa monumental pizza.

Nesse meio-de-campo embolado e confuso, ganhou espaço nas últimas semanas a tese do terceiro mandato. Num misto de medo e esperteza, os principais líderes governistas não têm assumido abertamente a defesa dessa idéia. A tarefa foi entregue a um obscuro parlamentar do baixo clero da Câmara, Jackson Lago ( PMDB SE ), que no final da semana passada protocolou uma proposta de emenda constitucional (PEC) que permite duas reeleições para presidente da República, governadores e prefeitos. A proposta continha 194 assinaturas, sendo 15 de parlamentares de oposição. A primeira tentativa de Lago abortou porque os oposicionistas foram obrigados por seus líderes a retirarem as suas assinaturas. Mas o insistente deputado prometeu voltar nesta semana com um número maior de assinaturas.

Nada disso estaria acontecendo se o presidente Lula fosse transparente em suas atitudes e não deixasse dúvidas sobre as suas alegadas convicções democráticas. Mas não poucas vezes nos quase sete anos de mandato, o ex-metalúrgico se deixou flagrar manifestando admiração por obscuros ditadores africanos, declarando firme amizade a dirigentes do naipe de Fidel Castro e Hugo Chávez, negociando projetos e posições com a banda mais podre do Congresso, e envolvendo-se, não se sabe ainda em que grau, em tramas obscuras do porte do mensalão, com certeza o maior escândalo da História republicana.

Caminhando para a parte final de seu já longo governo, a antecipação do debate eleitoral pelo próprio presidente surpreendeu a muitos observadores e confundiu o cenário político. Afinal, tal atitude não é usual. O normal é o presidente em exercício procure adiar ao máximo o debate sucessório, pelo receio de ver o seu poder definhar. Mas aconteceu o contrário com Lula.

Para muitos, esta atitude atípica foi proposital. Lula teria lançado prematuramente o nome de Dilma Rousseff para que sua receptividade pudesse ser mais bem avaliada e o crescimento nas pesquisas mais bem observado. A sua doença, entretanto, foi de fato um complicador, mas, paradoxalmente, abriu espaço para o plano B, o que vem a ser nada menos do a continuidade de Lula no poder, através de uma alteração constitucional.

Na hipótese de a ministra ficar impossibilitada de dar seqüência à campanha, Lula se apresentará para o "sacrifício".Todo o discurso de que não quer o terceiro mandato ficará esquecido, e, inebriado pela popularidade e ancorado nas ações populistas de seu governo, dirá , repetindo canhestramente D Pedro I ,que se for para o bem do povo e felicidade geral da Nação ele ficará no poder.

Contra a possibilidade de golpe, entretanto, estão os obstáculos do tempo cada vez mais exíguo para que se realize uma mudança na Constituição, a sociedade cada vez mais atenta e a possibilidade da saúde política e orgânica da ministra sofrer melhoras significativas. Em todo caso, a atenção dos democratas deverá ser redobrada nos próximos meses, pois no país onde o golpismo e a instabilidade política é a regra, tudo é possível.
020609