terça-feira, janeiro 20, 2009

ADEUS, BUSH

Foi ruim enquanto durou. O governo George W. Bush mentiu, torturou, prendeu pessoas sem acusação, teve prisões secretas, arruinou a economia, deixou um rombo nas contas públicas, desrespeitou a ONU, fez duas guerras, bloqueou acordos contra o aquecimento global, desamparou as vítimas do Katrina, censurou cientistas. Sim, foi pior do que o governo que odiávamos tanto: o de Richard Nixon.
Não, a História não lhe dará razão. Pode fazer o contrário: confirmar as piores suspeitas. Já começa a fazer isso. Bob Woodward, sempre ele, o lendário repórter do Watergate, publicou no "Washington Post" a confirmação de que em Guantánamo se torturava. Mohammed Al-Qahtani, um saudita, foi mantido isolado, impedido de dormir, exposto nu a frio extremo, sofreu afogamentos e outras perversidades próprias de governos extremistas. Quem confirmou isso ao jornalista não foi um "garganta profunda", mas alguém de quem se sabe nome, rosto e cargo: a juíza Susan Crawford, funcionária do Pentágono, com autoridade de decidir quem deveria ir ou não a julgamento. Qahtani não irá a julgamento porque seu interrogatório foi criminoso. "Nós torturamos", reconheceu.
George W. Bush foi para a vida americana o que o AI-5 foi no Brasil. Pessoas sumiam sem qualquer acusação formal, eram mantidas presas sem processo e formação de culpa, cientistas do governo, que alertaram sobre aquecimento global, foram perseguidos ou tiveram seus textos alterados, cidadãos tiveram conversas gravadas sem autorização judicial.
No princípio, foi a fraude eleitoral; no fim, o apocalipse econômico. O governo Bush foi todo equivocado, com um intervalo em que ele perdeu a chance aberta por uma tragédia: o 11 de Setembro. A primeira eleição foi perdida no voto popular e vencida no colégio eleitoral graças à manipulação na contagem dos votos no estado governado pelo irmão Jeb Bush, a Flórida. Foi o pior momento recente do sistema eleitoral americano, em que se viu o quanto o sistema e o método de votação haviam envelhecido.
A tragédia do 11 de Setembro abriu uma chance ao presidente. A população americana se uniu em torno da pessoa que representava a instituição máxima da Nação. O mundo se solidarizou com os Estados Unidos e sofreu pelos mais de três mil inocentes que morreram enquanto trabalhavam, ou andavam pelas ruas da cidade mais internacional do planeta. O terrorismo agindo em rede só podia ser enfrentado pelos governos unidos em rede. Bush fez naufragar essa chance, aberta pelo sofrimento e pelo luto, ao escolher o caminho do isolacionismo, do desrespeito às leis internacionais e do enfraquecimento das Nações Unidas.
Se, na luta contra os Taleban, o governo americano teve o apoio da maioria da opinião pública mundial, na guerra do Iraque ele violou princípios e alienou aliados. Agora, Bush admite que errou ao apostar na existência das armas de destruição em massa. É tarde. Na época, ele ignorou os relatórios da ONU e a oposição de amigos como a França e a Alemanha. Saddam Hussein era um ditador e ninguém o chora, a não ser seus adeptos ferrenhos. Mas a civilização ganharia se ele fosse deposto de outra forma. O julgamento viciado e o enforcamento grotesco não ajudam a fortalecer princípios e valores democráticos.
Bush não criou um mundo mais seguro com suas guerras sem fim. O mundo estará mais seguro dentro de dois dias, quando chegar ao fim a era Bush. O desafio da luta contra a irracionalidade do terrorismo vai continuar, e testará o novo presidente. Mas se houver uma cooperação entre os países aliados e os organismos internacionais e respeito às leis e valores, haverá mais esperança de vencer.



Na economia, seu governo não foi apenas inepto. Foi irresponsável. Foram perseguidos e silenciados os que dentro da máquina pública alertaram para o risco da bolha imobiliária. Os sinais da excessiva ausência do Estado, no seu papel regulador e fiscalizador, ficaram cada vez mais contundentes. E a resposta foi mais ausência. Bush chegou a tentar nomear executivos da indústria de derivativos para órgãos reguladores do setor imobiliário. Surfou na bolha para se reeleger. O estouro lançou o mundo na era de incerteza. E até ontem, hora final, a crise bancária voltou a piorar.
Os republicanos tinham ao menos a fama de ser responsáveis fiscalmente. Hoje já não podem dizer isso. O governo George W. Bush recebeu os EUA com superávit orçamentário e entrega o país com um enorme déficit, que pode chegar a US$ 1,3 trilhão, e uma dívida crescente.
Bush sabotou deliberada e persistentemente todos os esforços do mundo para reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. Não por acaso, o estado campeão de emissões no país é exatamente o Texas. Foi incompetente no Katrina, antes e depois da tragédia, e não entendeu o alerta da natureza. Qualquer minuto de atraso na luta para preservar o planeta é um crime contra as gerações futuras, que herdarão a Terra.
Difícil saber onde Bush não errou. A boa notícia desta manhã de sábado é que faltam dois dias para o fim dos longos e duros oito anos. Terça-feira há de ser outro dia.
Míriam Leitão -O Globo(17/01/09)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

BRIGA DE FOICE NO QUINTAL GOVERNISTA

Se Lula não for capaz de promover a ordem no seu quintal de tal forma que entre mortos e feridos todos se salvem, certamente terá os dois anos finais de seu governo recheados por crises, desentendimentos e dificuldades que poderão fazer com que ele perca a condução dos rumos da sua própria sucessão. Sucessão no Senado: todos brigam e ninguém tem razão
BRIGA DE FOICE NO QUINTAL GOVERNISTA

Nada neste mundo é capaz de tirar o sossego dos nossos parlamentares em suas longas e merecidas (?) férias. Nem a crise econômica que ameaça trazer a falência para milhares de empresários e o desemprego para milhões de trabalhadores; nem os desastres climáticos que matam centenas de pessoas e desabrigam outras milhares. Nada, exceto uma eleição. E não se trata de uma eleição qualquer, mas sim da escolha de quem vai presidir o Senado e a Câmara no próximo biênio.

Dada as circunstâncias, é até compreensível, embora não justificável, que os políticos se assanhem dessa maneira. Afinal, além de estar em jogo dois dos quatro cargos mais importantes da República – os outros dois são a Presidência da República e a Presidência do Supremo – as eleições deste ano conferem aos vencedores e aos seus respectivos partidos uma dose de poder não desprezível, num biênio que promete ser marcado por acordos e desacordos em torno da futura sucessão presidencial. É interessante notar que a briga que hora se trava é uma disputa interna na base do governo,entre os seus dois maiores partidos, e não entre governo e oposição, como seria natural, democrático e saudável.

Na Câmara dos Deputados, o consenso entre os governistas foi maior, e a escolha do peemedebista Michel Temer parece estar definitivamente garantida, embora o deputado Ciro Nogueira, membro do chamado baixo clero e afilhado político de Severino Cavalcanti, prometa melar o jogo e repetir o feito do seu padrinho, que, em 2005, conseguiu a presidência, graças à incompetência dos governistas em definir um candidato que unisse a base.

O Senado é mais uma vez a pedra no sapato do Planalto. Segundo o acordo tácito em vigor a sucessão se faria pela alternância entre os dois maiores partidos governistas, o que daria ao PT o direito de ocupar a cadeira presidencial no próximo biênio.O PMDB, provavelmente inflado pelos bons resultados alcançados nas últimas eleições, e pelo desejo de não se limitar a ser um mero coadjuvante nas próximas, resolveu não abrir mão da chance de ter a presidência de ambas as casas do Congresso num momento político tão importante. E partiu para a luta.

O problema do partido é que embora a fome de poder seja ampla, geral e irrestrita, não existe consenso sobre qual seria o candidato capaz de unir o partido.Divididos em várias tendências, a maioria com interesses conflitantes, o partido reflete no microcosmo do Senado a mesma falta de unidade que o caracteriza no cenário nacional. E não é por outro motivo que enquanto o PT apresentava a candidatura de Tião Viana, o PMDB ainda não havia encontrado o seu. No princípio, alguns nomes foram cogitados: Romero Jucá,nome da confiança do Planalto, Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, que teriam o apoio da oposição, além do eterno José Sarney.Este, por sua vez se mostrou intransigente na recusa.

O atual presidente, Garibaldi Alves, que a princípio parecia descartado, se sentiu fortalecido diante da indecisão do partido, e foi à luta, ancorado em pareceres jurídicos que lhe asseguram o direito à reeleição.

Diante do impasse de um partido que deseja o poder, mas é incapaz de definir um nome, a candidatura foi mais uma vez oferecida a José Sarney, desta vez com o aval de Lula.Mas o ex-presidente não quer ser apenas o nome capaz de unir o partido, e sim o nome capaz de representar toda a base governista. De fato, ele não quer ser eleito numa disputa contra Tião Viana; ele quer ser aclamado, o que significaria a desistência do petista.

No atual estágio do imbróglio, somente Lula, usando o seu alegado poder de persuasão, além de todas as armas, lícitas e ilícitas, que o maior cargo da República lhe confere, é capaz de convencer Sarney a aceitar essa tarefa, e demover Tião Viana da idéia de ocupar a cadeira presidencial. Tudo em nome da paz e da unidade nas hostes governistas. Afinal, é muito mais fácil e barato ao Presidente submeter os obedientes e disciplinados petistas do que convencer os insubmissos e heterogêneos peemedebistas,de que agora é a hora e a vez do PT. A não ser a custa de muito dinheiro, suor e lágrimas.

Se Lula não for capaz de promover a ordem no seu quintal de tal forma que entre mortos e feridos todos se salvem, provavelmente terá os dois anos finais de seu governo recheados por crises, desentendimentos e dificuldades que poderão fazer com que ele perca a condução dos rumos da sua própria sucessão.
160109

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O PAÍS REAL

Sabemos que a vocação ilusionista do Presidente tem um forte componente eleitoreiro: Lula projetava para 2009/2010 um biênio de bonança e de realizações, que perpetuariam a permanência de seu partido no poder. A crise atrapalhou os seus planos continuistas e o que restou foi um falso otimismo e uma série de providências paliativas e pouco eficientes para estancar a crise. Trabalhadores da GM em SP paralisam contra as demissões.

O PAÍS REAL

A crise econômica chegou com toda a força.Dados do IBGE comprovam que a partir de Novembro, como resultado direto da queda da produção, o emprego industrial registrou a maior baixa desde outubro de 2003. O próprio governo através do Ministério do trabalho reconhece que 600 mil postos de trabalho foram fechados em Dezembro, e que as demissões deverão superar as contratações até Fevereiro.

Finalmente o governo teve que admitir que a crise que abala as economias dos países ricos não é uma marolinha , como fazia crer o nosso Presidente. O País não entrou em acentuada recessão, como a que acontece no hemisfério norte, mas caminha celeremente para isso, se medidas corretas não forem tomadas. O fato é que ao entrar em 2009 deixamos para trás o país virtual dos discursos presidenciais e entramos no país real.

Nos últimos dias, por exemplo, tomamos conhecimento que a Volkswagen anunciou um plano de demissão voluntária para 250 funcionários; a ALCOA registrou queda nas vendas de 19% no último trimestre de 2008; a Sony registrou o primeiro prejuízo em 14 anos no Brasil; a Peugeot anunciou que suas vendas globais caíram 8,7%; e a Citigroup reorganiza as suas atividades em todo mundo e pode “demitir mais”.

Iludidos pelo espírito natalino acompanhado pela massiva propaganda que envolve as festas de fim de ano, os brasileiros foram às compras com a disposição de sempre, quando a prudência estava a recomendar cautela e contenção nos gastos. Passado os festejos natalinos, a ressaca não tardou e bateu à porta de cada brasileiro na forma de impostos diversos, queda nas atividades econômicas e ameaça de desemprego.

Em condições críticas como a atual, o que o governo tem a fazer – ensinam os manuais básicos de Economia – é uma drástica corte nos gastos, redução dos impostos, diminuição dos juros, e investimentos seletivos na infra-estrutura. Uma ampla reforma trabalhista, como forma de reduzir o custo da mão de obra e desonerar a produção, seria bem-vinda.

Não se tem notícia de medidas efetivas do setor público nessa direção. Ao contrário, tal qual a orquestra do Titanic que continuava a tocar enquanto o navio ia a pique, o setor público brasileiro continua a sua cínica farra com os nossos recursos, como se nada de grave estivesse acontecendo.

O nosso presidente, que nunca teve vocação para estadista, se mostra mais uma vez incapaz de exercer a liderança.Ao contrário do momento da eclosão da crise, quando parecia desconhecer o caráter global da economia e insistia na velha fábula de que o País é uma ilha de paz e prosperidade, a gravidade da atual situação fez com que ele diminuísse o número de gracejos e colocasse um dos pés no chão, embora o outro ainda pareça continuar nas nuvens.

Sabemos que a vocação ilusionista do Presidente tem um forte componente eleitoreiro: Lula projetava para 2009/2010 um biênio de bonança e de realizações, que perpetuariam a permanência de seu partido no poder. A crise atrapalhou os seus planos continuistas e o que restou foi um falso otimismo e uma série de providências paliativas e pouco eficientes para estancar a crise.
140109

terça-feira, janeiro 06, 2009

RESPOSTA CONTUNDENTE AO TERRORISMO

É evidente que todos os amantes da paz mundial torcem para que a atual situação tenha um fim rápido. Mas não se pode exigir de Israel, sob a pressão constante de vizinhos que não escondem o desejo de destruí-lo, que seja complacente com o terrorismo. Sob este ângulo, é compreensível e legítima a reação contundente aos ataques palestinos. Artilharia israelense dispara contra alvos em Gaza

RESPOSTA CONTUNDENTE AO TERRORISMO

No atual conflito entre Israel e organizações terroristas palestinas, é preciso levar em conta que as sistemáticas agressões sofridas por Israel antes que o seu governo tomasse a extremada decisão de bombardear a Faixa de Gaza e invadir o território sob o domínio do Hamas.

Uma grande parte da opinião pública mundial tem se manifestado contra os bombardeios israelenses, pelo número significativo de mortos e feridos resultantes da artilharia israelense. É inegável a dramaticidade da situação vivida pela população civil do território de Gaza, que somente poderá ser solucionada numa mesa de negociação, desde que exista de fato a determinação de uma paz definitiva e justa na região.

Infelizmente, esta determinação não faz parte dos projetos do Hamas, grupo terrorista que ocupa o território de Gaza desde junho de 2007, e cujo propósito exclusivo é a destruição do Estado de Israel. Com uma organização desse porte sob seus calcanhares, a assolar o seu território 24 horas por dia , 365 dias por ano, com ataques e atentados contínuos contra cidades e cidadãos israelenses, é impossível qualquer acordo que não resulte em submissão e fraqueza.

Sob a mediação do governo norte americano, nas últimas décadas aconteceram diversos entendimentos com os grupos moderados da Palestina, em especial o Fatah, que resultaram em avanços importantes para o povo palestino e abriram grandes perspectivas para a paz definitiva na região.Mas a intransigência do Hamas tem posto tudo a perder.

É evidente que todos os amantes da paz mundial torcem para que a atual situação tenha um fim rápido. Mas não se pode exigir de Israel, sob a pressão constante de vizinhos que não escondem o desejo de destruí-lo, que seja complacente com o terrorismo. Sob este ângulo, é compreensível e legítima a reação contundente aos ataques palestinos.

Portanto, qualquer acordo de paz que se pretenda definitivo terá que considerar o direito que Israel tem de viver livre das agressões árabes tanto quanto o dos palestinos à sua autodeterminação.Neste caso, a Justiça não pode ser uma via de mão única.
060109