terça-feira, setembro 30, 2008

AINDA EXISTE OPOSIÇÃO NO BRASIL?

A oposição, se é que ela ainda existe, tem que reconhecer os seus erros, construir novas estratégias de luta, desmitificar a figura de Lula e desmistificar o seu governo. Tem que incorporar os anseios de uma imensa parcela da sociedade que ainda tem a lucidez de enxergar que esse governo é tão consistente quanto uma bolha de sabão. Se tudo isto já não é uma tarefa fácil para uma oposição unida, imagine para uma oposição dividida e desnorteada, como se apresenta agora.

AINDA EXISTE OPOSIÇÃO NO BRASIL?

Ainda existe oposição no Brasil? A pergunta é pertinente, se levarmos em consideração que com o Congresso praticamente fechado e os políticos entregues aos afazeres municipais, Lula tem o terreno livre para crescer e aparecer em todos os espaços, longe das impertinências dos poucos que ainda insistiam em criticar o seu governo no Congresso. Ancorado em pesquisas de opinião que lhe tem proporcionado sucessivos picos de popularidade, o presidente parece ter perdido o senso da realidade e a virtude da modéstia, e se dedica, por exemplo, a aconselhar Bush sobre como lidar com a crise, a dizer que Deus é brasileiro por obra e graça do seu governo, e a se comparar à Cristo.Enquanto isso, em muitos municípios,políticos do DEM e do PSDB não só evitam atritos com um presidente com índices de popularidade estratosféricos, como chegam à ousadia de se mostrarem como aliados do Presidente e, portanto, capazes de levar para os seus rincões os recursos do PAC.

A razão desse tipo de atitude, que leva muitos políticos ao descrédito e enfraquece a oposição pode ser buscada na fraqueza de nossa organização partidária e na hipertrofia do Executivo.Os políticos agem fisiologicamente porque dependem dos recursos federais para levar obras aos seus redutos. Obras que lhes são cobradas pelos seus eleitores, convencidos de que a função do parlamentar é essa, e não a de legislar e fiscalizar o executivo. É uma deturpação evidente do processo político. Por esta razão, os minguados oposicionistas concentrados no PSDB e no DEM preferem esconder a sua cor partidária na hora de pedir voto ao eleitor porque não querem ser identificados como adversários de Lula.

Pelo país afora repetem - se situações semelhantes ao que vem ocorrendo no processo eleitoral de Divinópolis, Minas, onde a campanha do candidato do DEM, Geraldinho Martins é toda ela calcada no discurso de uma suposta parceria com o governo federal. Em tese, o candidato democrata deveria, por força do seu partido, se comportar como candidato de oposição a Lula, mas , na prática, faz questão de esconder a sua sigla, e se diz capaz de encher a cidade de obras financiadas pelo governo federal.

Acontece que o candidato é irmão de Jaime Martins Filho, deputado federal mais votado em Minas nas últimas eleições, e verdadeiro cacique do DEM local. Jaiminho Martins vem construindo a sua carreira política como um típico despachante político, que usa seu cargo em Brasília para percorrer os ministérios em busca de recursos para os seus rincões eleitorais, e no Congresso vota disciplinadamente a favor dos projetos de interesse do governo Lula. Por puro oportunismo, após a vitória de Lula em 2002, o deputado “deixou” o então PFL, um dos partidos de sustentação do governo de FHC, e se filiou a um pequeno partido da base de apoio ao novo governo.

A justificativa para tal tipo de comportamento se repete em todo o Brasil: a eleição municipal é um mundo particular, e nada tem a ver com a política nacional, o que significa dizer que se pode ser "oposicionista" em Brasília e "governista" no seu município

Tendo inimigos como esses, Lula nem precisa de amigos. Não foi por mera coincidência que os maiores problemas do seu governo foram causados por amigos, correligionários e aliados do presidente, e não pela oposição. Nos cinco anos e meio de governo, tucanos e democratas foram mansos e condescendentes com o ex- metalúrgico. Em 2005, no auge da crise do mensalão, quando Lula atingiu os mais baixos índices de popularidade, a oposição teve a faca e o queijo nas mão para exigir o afastamento do presidente, mas preferiu fazer crer que estava ferido de morte, para deixa-lo no poder até o final do mandato.Hoje quem parece estar morrendo à mingua é a oposição

Passado o pleito municipal, democratas e tucanos terão pouco tempo para juntar os cacos e assumir um oposicionismo autêntico e contundente, se é que têm pretensões em 2010. Pelo andar da carruagem, terão que fazer um esforço enorme para unificar os seus discursos e os seus projetos. Isso porque na capital de São Paulo, esquecendo-se de que seu principal adversário é a candidata do PT, têm dedicado todos os seus esforços a uma briga em suas hostes, que pode deixar cicatrizes na próxima campanha.Se marcharem divididos, como estão, rumo à sucessão presidencial, certamente colocarão Lula mais uma vez na posição mais alta do pódio.

Enquanto a oposição briga em São Paulo e não encontra o consenso sobre quem é o candidato ideal para acabar com a hegemonia lulo-petista, Dilma Roussef, a ilustre desconhecida candidata preferida por Lula, vem se tornando cada dia mais ilustre e menos desconhecida, na medida em que o eleitor a reconhece como candidata do presidente. Quem disse que governante popular não transfere votos, precisa conhecer o que acontece em Belo Horizonte, onde um, também, ilustre desconhecido, em poucas semanas, disparou nas pesquisas, assim que foi apresentado à população como candidato apoiado pelo governador Aécio e pelo prefeito Fernando Pimentel.

Portanto, a oposição, se é que ela ainda existe, tem que reconhecer os seus erros, construir novas estratégias de luta, desmitificar a figura de Lula e desmistificar o seu governo. Tem que incorporar os anseios de uma imensa parcela da sociedade que ainda tem a lucidez de enxergar que esse governo é tão consistente quanto uma bolha de sabão. Se tudo isto já não é uma tarefa fácil para uma oposição unida, imagine para uma oposição dividida e desnorteada, como se apresenta agora.
300908

sexta-feira, setembro 26, 2008

CAPITALISMO E CRISE

"Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse". Essa famosa frase de Adam Smith sintetiza e ilustra o princípio motor do capitalismo. Deixadas livres, sem interferência dos governos, as forças do mercado promoveriam o bem-estar dos indivíduos e da coletividade. A mão invisível guiaria a ação dos indivíduos e, ao fim e ao cabo, cada um aumentaria o seu bem-estar e promoveria o bem comum. Mas a realidade não funciona exatamente como pensava o autor de "A Riqueza das Nações". O mercado não é entidade onisciente e onipotente. O mercado falha e falha redondamente, tanto é assim que há crises. Marx foi, por certo, quem melhor compreendeu a complexa relação de forças do capitalismo. Crises são inerentes à dinâmica do sistema.
É aí que entra o Estado. Não lhe cabe apenas garantir a ordem e a segurança contra os inimigos externos. Garantir a estabilidade macro-econômica e minimizar falhas e imperfeições de mercado são também suas funções. Tivesse o Federal Reserve Bank deixado de socorrer os bancos norte-americanos com linhas de crédito e empréstimos-ponte, quando a bolha do mercado imobiliário explodiu há um ano atrás, as conseqüências da crise teriam sido devastadoras. O FED impediu a quebra do Bearn Stearns e agora resgatou a AIG, a maior seguradora norte-americana, para impedir que o restante da economia fosse duramente atingido e para que investidores, rentistas e aposentados não vissem suas poupanças irem pelo ralo. No "crack" da bolsa em 1929, o banco central americano não interveio. O país entrou em depressão, o desemprego beirou 30% da força de trabalho e a sociedade americana ficou mais pobre. Os mais pobres tornaram-se miseráveis. Os Estados Unidos só saíram da crise com o New Deal, um vasto programa público lançado por Roosevelt, que aumentou a demanda e tirou a economia do buraco. Intervir para evitar risco sistêmico, como agora nos Estados Unidos, ou como no caso que levou ao Proer, no Brasil, é uma coisa.

Intervir para salvar empresas, quando o impacto para a sociedade não é tão grave, equivale a garantir o lucro e instituir o capitalismo sem risco. Houve tempo no Brasil em que o Estado funcionava como um hospital de empresas. Felizmente, esse tempo ficou para trás. O governo Lula, cujos pendores pró Estado são inegáveis, recusou-se a socorrer a Varig e a deixou falir. Fez certo, como certo também agiu o governo FHC quando instituiu o Proer, para impedir a quebra de bancos e evitar uma crise de confiança no sistema bancário. A decisão do FED e do Tesouro americano pode parecer estranha, mas não é absurda e não significa a derrota do capitalismo ou a volta aos tempos do Estado intervencionista e onipotente. O mercado falha e capitalismo e crise não são antípodas. Ao contrário, costumam andar juntos ou próximos. Cabe ao Estado o esforço para que a sociedade ou parte grande dela não pague preço excessivamente elevado para equilibrar de novo o sistema.

Luis Aureliano / O Tempo (http://www.otempo.com.br/otempo/colunas)

terça-feira, setembro 23, 2008

VIOLÊNCIA CORROSIVA

Mas a aplicação de uma estratégia eficaz de combate ao crime exige decisão política, o que significa priorizar e redirecionar recursos orçamentários de outras áreas para a guerra contra o crime. Quantas autoridades públicas, a começar pelo presidente Lula, estarão dispostas a abrir mão de recursos destinados a suas áreas de interesse e aos seus currais eleitorais?

VIOLÊNCIA CORROSIVA

Os números de um levantamento financiado pelo governo suíço sobre a violência no mundo são alarmantes. A pesquisa revela que no Brasil ocorrem, em média, 48600 mortes por ano, provocadas pela violência. O que coloca o país no topo do ranking mundial, superando países como a África do Sul ( 13328 mortes/ano ), Colômbia( 18111 mortes/ano ), Turquia ( 6573 mortes/ano ) e Guatemala ( 5 338 mortes/ano). No dia 11 de setembro o estudo foi divulgado em Genebra, na presença do Ministro da Justiça , Tarso Genro. Considerando que a pesquisa revelou que 490000 homicídios ocorrem anualmente em áreas fora de conflito, conclui-se que somente o Brasil é responsável por 10% desse número.

Para Keith Krause, autor do relatório, a situação de violência no Brasil é “corrosiva”, representando “um sério empecilho ao desenvolvimento do país”.E está coberto de razão.De fato, a violência ultrapassou, há muito, a fronteira do suportável, e ganha a proporção de uma metástase incontrolável, que corrói o tecido social, degrada as instituições políticas, e afugenta os investimentos. Os frios números do estudo feito não levam em conta, nem poderiam, a sordidez e a crueldade com que grande parte desses crimes são praticados.

Os especialistas do tema, na maioria das vezes, divergem sobre as raízes desse mal, mas algumas delas já se tornaram consensuais: a degradação cada vez maior das condições sociais da maioria da população, o que leva a proliferação de favelas e de bairros periféricos completamente desassistidos pelo poder público; o fraco crescimento da economia, gerando o desemprego, o alcoolismo e o uso abusivo de drogas; o enfraquecimento dos valores éticos e morais, a ineficiência dos órgãos públicos de repressão e da Justiça.

Quanto aos remédios para se atacar o mal, de forma que ela se reduza , ao menos em níveis civilizados, existe o consenso sobre a necessidade de se conjugar medidas repressivas com políticas sociais efetivas, em especial no campo da educação. Tem que haver um aumento extraordinário dos investimentos no setor da segurança pública, de tal forma que tenhamos uma polícia tão eficiente quanto imune à corrupção. Tem que se multiplicar por mil os investimentos no setor da educação, de tal forma que a Escola passe a ser, pela qualidade do ensino, um ambiente que assegure ao jovem a perspectiva de um futuro de trabalho, conhecimento e cidadania. Hoje, a escola pública é pouco mais do que um depósito de crianças e adolescentes, o que faz com que os jovens das camadas mais pobres da população se tornem presas fáceis do tráfico e da criminalidade.

O combate à violência está a exigir, portanto, um esforço concentrado das três esferas da administração, pública – Federal, Estadual e Municipal -, e dos três poderes da federação – Executivo, Legislativo e Judiciário – e caberia ao principal líder da Nação, o Presidente da República, o dever de propor um plano no sentido de reverter o quadro.

Mas a aplicação de uma estratégia eficaz de combate ao crime exige decisão política, o que significa priorizar e redirecionar recursos orçamentários de outras áreas para a guerra contra o crime. Quantas autoridades públicas, a começar pelo presidente Lula, estarão dispostas a abrir mão de recursos destinados a suas áreas de interesse e aos seus currais eleitorais?

Infelizmente, enquanto as autoridades públicas se mostram desarticuladas, indecisas, apáticas e ausentes, a violência assume as proporções de uma calamidade nacional, retarda o desenvolvimento, e faça com que o Brasil permaneça no vergonhoso hall da fama internacional, como o campeão de homicídios em tempos de paz.
230908


segunda-feira, setembro 22, 2008

A ÚLTIMA FRONTEIRA

Até outro dia mesmo os suplentes ocupavam 13% das cadeiras do Senado. De repente já são mais de 20% os integrantes da bancada dos senadores sem-voto em uma das Casas do Poder da representação popular, conforme mostra levantamento publicado terça-feira no Estado.Talvez suas excelências que engavetaram na Comissão de Constituição e Justiça proposta para a mudança nas regras da suplência - aprovada no ano passado - não tenham se dado conta, mas estamos perto de alcançar a marca dos senadores biônicos criados pelo general presidente Ernesto Geisel como uma das formas de conter o avanço da representação oposicionista ao regime militar.
Possivelmente também não tenham vislumbrado outro significado: o Congresso, que já entregou ao Executivo e ao Judiciário a tarefa de legislar e nos últimos tempos tratou de desmoralizar as comissões de inquérito abrindo mão da prerrogativa de fiscalização, agora vai aos poucos abandonando também sua função de representar.Finge que não vê, e com isso alimenta o avanço gradativo dos suplentes mostrando-se indiferente à delegação recebida no voto. No caso dos senadores, majoritário.O primeiro impulso é fazer uma comparação com os governadores imaginando como seria a reação se quase um quarto deles resolvesse transferir de uma só vez os cargos aos vices. Mas o exemplo não serve, porque os vices bem ou mal são eleitos.


Os suplentes chegam ao Senado por razões aleatórias e, no entanto, votam, dão opiniões, podem mudar o rumo de decisões, recebem todas as benesses destinadas ao senador sem precisar para isso de um só voto.Se a prática é absurda mesmo como exceção, quando começa a virar norma configura-se uma deformação completa da razão de ser do Parlamento.
Segundo as regras do Pacote de Abril de Geisel, os biônicos - assim chamados por chegarem ao Senado por indicação, não por eleição - ficavam com um terço das cadeiras.Hoje, dos 81 senadores, 19 são suplentes, não tiveram um voto, são indicados pelos motivos mais convenientes ao titular da chapa, ocupam 23% das cadeiras e, nesse ritmo, logo chegam ao terço preconizado pela concepção constitucional da ditadura.Podendo ultrapassar a margem, chegar, por exemplo, à metade do colegiado, quem sabe até mais, porque não há impedimento legal. Basta o dono da cadeira apresentar uma desculpa qualquer para deixar alguém em seu lugar brincando de senador.
O caso do senador Fernando Collor é emblemático por recente e por mostrar que nem a passagem pela Presidência torna o político imune a ligeirezas institucionais.Eleito em 2006, Collor tomou posse em 2007 e, de lá para cá, já tirou duas licenças. Na primeira, para "fazer palestras", assumiu o primo, Euclides Mello. Agora, na segunda vez, outra prima, Ada Mello, brincará de senadora por 90 dias enquanto Collor trabalha como cabo eleitoral do filho no interior de Alagoas.Como ele, muitos outros jogam os votos recebidos no lixo, dão de ombros à legitimidade invocando a escora da legalidade e deixam a democracia se estuporar.

Dora Kramer (http://arquivoetc.blogspot.com/2008/09/dora-kramer-ltima-fronteira.html )


quarta-feira, setembro 17, 2008

POPULARIDADE E PRESTÍGIO

Prestígio resulta de uma avaliação positiva da História , e está calcado em ações consistentes e transformadoras no campo político, econômico ou social.Certamente, a avaliação positiva que a maioria da população faz do governo Lula não está referendada em nenhuma obra consistente de governo, mas em ações de impacto imediato, alimentadas por intensa propaganda governamental e pelo próprio carisma do presidente.

Três presidentes populares: JK e Getúlio, além da popularidade, ganharam o prestígio, por conta de uma obra governamental consistente e transformadora.

POPULARIDADE E PRESTÍGIO

Pesquisas divulgadas na última semana mostram o aumento da popularidade do presidente Lula. A pesquisa Data-Folha revela que 64% dos brasileiros consideram o governo atual “ótimo” ou “bom”, o que coloca Lula como o presidente melhor avaliado dede 1985, quando teve início a série de governantes civis, após o período militar. Seria motivo de comemoração se esse pico de popularidade fosse reflexo do reconhecimento por uma obra governamental sólida e permanente. Mas não é o que acontece.

Popularidade nem sempre é sintoma de prestígio do governante, e sinal de administração competente. Dá votos na hora de disputar eleição, mas não coloca o governante no panteão da História. Em muitos casos, advém de fatores circunstanciais, passageiros e inconsistentes, como frutos de ações demagógicas de governos populistas. Quando não embasada numa obra consistente de governo, costuma ser tão fugaz quanto a duração dos castelos de areia.

Prestígio resulta de uma avaliação positiva da História , e está calcado em ações consistentes e transformadoras no campo político, econômico ou social.Certamente, a avaliação positiva que a maioria da população faz do governo Lula não está referendada em nenhuma obra consistente de governo, mas em ações de impacto imediato, alimentadas por intensa propaganda governamental e pelo próprio carisma do presidente.

Presidentes que passaram por ondas de grande popularidade, já tivemos alguns: Sarney, por exemplo, foi extremamente popular nos meses de vigência do Plano Cruzado, mas terminou o seu mandato de maneira melancólica, com um dos mais altos índices de reprovação; Itamar Franco também teve os seus dias de glória por conta da implementação do Plano Real, mas hoje ninguém mais se lembra dele; até mesmo o general Médici, o terceiro dos cinco presidentes do Regime Militar,que governou o Brasil embalado pelo “milagre econômico” e pela conquista da Copa do Mundo de 1970,costumava ser aplaudido pela massa de torcedores que lotava o Maracanã nas tardes de domingo, mas hoje é lembrado como o símbolo do que a ditadura teve de pior.

Presidentes populares, porém donos de um prestígio conquistado pela eficiência e pela influência de seus governos, tivemos poucos. Talvez, apenas dois: Getúlio Vargas, o construtor do Estado Brasileiro, tal como conhecemos, e Juscelino Kubitschek, que administrou a era de maior desenvolvimento econômico que o País viveu.Presidentes influentes, porém impopulares, também tivemos poucos. O mais recente deles, Fernando Henrique, deu início uma reforma do Estado, privatizou estatais garantiu a solidez da moeda, equilibrou as finanças, mas, ao final do seu segundo mandato foi atingido por uma onda de impopularidade, em grande parte alimentada pela intransigência do PT e seus aliados. Porém, populares ou impopulares, esses três governantes deixaram como herança obras definitivas, que, para o bem ou para o mal, os colocaram no topo do ranking da eficiência e do prestígio.O que não acontece com o atual presidente.

As razões da popularidade de Lula não são difíceis de identificar: a política assistencialista; o seu indubitável carisma, que se traduz na facilidade com que se comunica com a população mais simples; uma conjuntura econômica mundial favorável - que pode ser finalmente abalada com a atual crise norte-americana-; e uma eficiente máquina de propaganda que multiplica por mil os fatos positivos de seu governo, mesmo que incipientes, como a recente descoberta de reservas de petróleo abaixo da camada de sal.

Já as razões para se entender a associação entre a popularidade do presidente e a pretensa eficiência de seu governo não são tão fáceis de compreender: nos cinco anos e meio de atuação, o governo Lula não empreendeu uma obra sequer que mereça destaque. Desde 2003,quando herdou de FHC a casa arrumada e as finanças equilibradas, se limita a empurrar o governo com a barriga, ao sabor do momento e das circunstâncias.

Perdeu a chance de entrar para a História como estadista ao se negar a implementar, no mínimo, três reformas fundamentais para o futuro do País: a reforma da educação, a reforma do Estado, incluindo a reforma tributária, e a reforma política.Por outro lado,a situação da saúde pública nunca esteve tão caótica, as estradas nunca estiveram tão esburacadas. A segurança pública deixou de ser um mero assunto de polícia e passou a ser também um caso de estratégia militar, tal a complexidade que assumiu. A corrupção continua a perambular nos corredores do Planalto e nas ante-salas do gabinete presidencial. Enquanto isso, a carga tributária aumenta na mesma medida em que diminui a eficiência das obras e dos serviços prestados à sociedade.

Por isso a onda de popularidade do presidente Lula pode ser motivo de comemoração para seus partidários, mas deve ser motivo de reflexão das demais pessoas. Adiante, quando o seu governo for submetido ao crivo da História, o que mais restará para dizer? Getúlio deixou como herança um Estado consolidado e uma Legislação trabalhista, JK deixou a expansão do desenvolvimento, e FHC deixou um Estado reformado e as finanças ajustadas. E Lula, o que vai deixar, para que não entre para a História como um presidente popular de um governo vazio?

Inebriado pela presente popularidade, a avaliação crítica da História provavelmente seja a última de suas preocupações. Com certeza, sonha com o retorno triunfal ao poder em 2014, seja qual for o seu sucessor. Poderá cair do cavalo, e passar do sonho ao pesadelo, se o tal sucessor realizar um bom governo, e fizer tudo o que ele deixou de fazer.
170908

segunda-feira, setembro 15, 2008

REPUBLICANO CRESCE E APARECE

Porcos à parte, na essência, estarão em choque duas concepções históricas e antagônicas a respeito de como deve ser gerido o Estado norte americano:de um lado, a defesa da liberdade econômica, a menor intervenção do Estado na sociedade e o conservadorismo nos costumes; do outro lado, o maior controle do Estado sobre a economia, a maior intervenção social e uma maior liberalismo em questões morais e de costumes. Mas na prática, nem sempre as coisas funcionam assim.
REPUBLICANO CRESCE E APARECE

Nos Estados Unidos, as recentes pesquisas eleitorais têm colocado o republicano John MacCain em ligeira vantagem sobre o democrata Barack Obama na corrida presidencial rumo à Casa Branca. Segundo alguns, esta superioridade ainda é reflexo da repercussão da Convenção Republicana e da indicação da governadora do Alaska, Sarah Palin,como candidata a vice; segundo outros, é a conseqüência do esgotamento da superexposição do democrata na mídia, nos últimos meses. O fato é que o que muitos analistas previam, a ascensão avassaladora de Barack Obama nas pesquisas após a vitória contra Hillary Clinton na Convenção do Partido Democrata, não tem acontecido.

Inicialmente, a candidatura de Obama se impôs em grande parte por representar osentimento anti-Bush, ou seja , o candidato capaz de fazer os americanos esquecerem as travessuras perpetradas por um dos piores – e mais azarentos - presidentes de sua História.Como se sabe, seus dois mandatos foram pontuados por gigantescos ataques terroristas, tragédias naturais, acidentes espaciais, e guerras dispendiosas e infrutíferas. Para terminar, uma crise econômica como há muito não se via no País. Em todos esses momentos, Bush não soube dar respostas à altura de um estadista, e , com isso teve a sua imagem definitivamente deteriorada.

Pela sua relativa juventude, pelo seu carisma, e muito menos pelo fato de ser negro, Obama se impôs, inicialmente, como o candidato capaz de exercer uma contraposição ao atual presidente, deixando para os republicanos o ônus da defesa de um governante tão impopular. MacCain tem sabido escapar dessa armadilha e procura manter uma boa distância de Bush ao impor a sua própria agenda e abordar os pontos que realmente interessam ao eleitor: a diminuição dos impostos, o apoio à livre iniciativa e a redução da excessiva intervenção do Estado na vida dos cidadãos.

Para compensar a fama de ser um republicano muito liberal para os padrões do partido, e garantir o voto da maioria do eleitorado conservador, o candidato parece ter acertado o alvo ao convidar uma mulher com fama de conservadora para compor a sua chapa. Agradou a gregos – os que defendiam a presença feminina como meio de capturar eleitores desiludidos com a derrota de Hillary Clinton – e troianos –os que achavam que faltava à chapa republicana um molho mais conservador. O fato é que Obama parece ter sentido o impacto, e, na semana passada, deixando de lado o seu lado cavalheiresco, progressista e politicamente correto, comparou a companheira de chapa de MacCain a um porco: “Você pode passar baton em um porco, e ele continuará a ser um porco”, afirmou o democrata, sob aplausos da platéia.

Porcos à parte, na essência, estarão em choque duas concepções históricas e antagônicas a respeito de como deve ser gerido o Estado norte americano:de um lado, a defesa da liberdade econômica, a menor intervenção do Estado na sociedade e o conservadorismo nos costumes; do outro lado, o maior controle do Estado sobre a economia, a maior intervenção social e uma maior liberalismo em questões morais e de costumes. Mas na prática, nem sempre as coisas funcionam assim. Tivemos presidentes democratas que se mostraram extremamente duros sob o ponto de vista político e republicanos que se mostraram bastante liberais.

A ambos os candidatos não interessa apenas garantir o eleitorado cativo de seus respectivos partidos. É preciso conquistar os eleitores indecisos. O democrata, por exemplo, terá que convencer o eleitor de que não irá estourar o orçamento com políticas de pretensa ajuda aos mais pobres, nem retirar abruptamente as tropas norte americanas no Iraque, deixando o pais entregue aos aliados do Irã ou da Al Qaeda.O republicano terá que convencer de que não vai esvaziar o tesouro e dobrar os impostos por conta da manutenção de guerras inúteis ao redor do mundo. Acima de tudo, ambos terão que convencer o eleitorado indeciso de que serão capazes de recompor a economia norte americana.

No campo das propostas e das idéias tem prevalecido o vazio. Mesmo assim, MacCain tem conseguido levar uma ligeira vantagem sobre a imprecisão e as generalidades de Obama. Num país que tem funcionado em sua plenitude, o instinto conservador da sociedade costuma falar mais alto do que o desejo de mudanças. Habilmente, tem construído a imagem de político experiente, com uma biografia emoldurada pela fama de herói de guerra, cujo patriotismo não pode ser colocado em cheque,e, portanto, capaz de dar continuidade das conquistas da Nação norte americana.

Por mais conservador que Barck Obama tente parecer, o que prevalece em grande parte do eleitorado é a imagem do político relativamente jovem, negro – e aí pesa uma carga de preconceito racial ainda existente na sociedade – inexperiente, e, portanto, sob o risco de meter o país em alguma aventura. Daí, talvez, a razão da ligeira superioridade do republicano nas pesquisas de opinião.

É claro que esta análise é um retrato do momento, e os próximos passos de ambos, especialmente os debates na TV, é que vão nortear o futuro da campanha e decidir a disputa. De qualquer modo, o impacto inicial da candidatura do jovem democrata arrefeceu-se, e o público norte americanos tem assistido nas últimas semanas o crescimento lento , gradual e contínuo do velho republicano.
140908

segunda-feira, setembro 08, 2008

QUEM DIZ O QUE QUER...

Diferentemente do bate boca com os jogadores da Seleção, no qual, no máximo, ficou arranhada a formalidade e a dignidade do cargo que ocupa, o caso da opinião presidencial a respeito do uso do tabaco se reveste de uma gravidade maior porque foram afrontadas, na melhor das hipóteses, duas normas constitucionais que envolvem a administração pública.
QUEM DIZ O QUE QUER...

Quem fala o que quer, ouve o que não quer. E o presidente Lula teve que ouvir constrangido o goleiro Júlio César sugerir que ele renuncie ao cargo e vá morar na Argentina, porque, “talvez, assim as coisas no Brasil melhorem”.Apesar do posterior pedido de desculpas do jogador, provavelmente pressionado pela CBF, o que ficou foi a resposta desaforada do jogador a uma crítica feita por Lula ao comportamento da Seleção Brasileira.

É bom lembrar que esta não é a primeira vez que o presidente se mete numa troca de farpas com a seleção. Às vésperas da última Copa do Mundo, em resposta a uma constatação de Lula de que estaria gordo, o atacante Ronaldo devolveu com uma insinuação de que o presidente “bebe pra caramba”. Lula teve que engolir calado a resposta do atacante, como agora teve que engolir a do goleiro.

Sem entrar no mérito da opinião de Lula sobre a seleção de Dunga – de fato, o time é tudo aquilo que o presidente e a maioria dos brasileiros dizem –, o cargo de Presidente da República impõe a seu ocupante um padrão de conduta equilibrado e sóbrio. Muito distante, portanto, do estilo boquirroto, marcado pelo linguajar chulo e pela extrema liberalidade com que aborda qualquer assunto.

Ainda na semana passada, em conversa com um grupo de jornalistas, o presidente foi na contramão do que afirmam autoridades da área médica e a Organização Mundial de Saúde, ao defender o “uso do fumo em qualquer lugar”porque “só fuma quem é viciado”. Disse mais, ao demonstrar que não pretende fazer o menor esforço para se juntar às organizações de Saúde no sentido de banir o fumo dos ambientes fechados: “eu não vou propor ( a proibição do fumo). Mando para o Congresso e não voto.”E, como se não bastasse, completou: “Na minha sala, mando eu”, para enfatizar que não pretende largar mão do hábito de fumar cigarrilhas no seu gabinete no Planalto.

Diferentemente do bate boca com os jogadores da Seleção, no qual, no máximo, ficou arranhada a formalidade e a dignidade do cargo que ocupa, o caso da opinião presidencial a respeito do uso do tabaco se reveste de uma gravidade maior porque foram afrontadas, na melhor das hipóteses, duas normas constitucionais que envolvem a administração pública.

A primeira é a que obriga o Presidente a zelar pela saúde pública, o que significa, dentre outras, promover e incentivar campanhas de combate ao uso do fumo, comprovadamente uma das maiores causas de internações e óbitos no Brasil. Ao advogar, de maneira leviana, o livre uso do tabaco, Lula desautorizou todo o esforço que o seu governo, através do Ministério da Saúde, vem fazendo nos últimos anos para limitar os prejuízos causados à saúde pública por essa praga.

A segunda norma afrontada por Lula é a que distingue o espaço público do espaço privado. Ao defender o seu “direito” de fumar no gabinete presidencial, Lula parece desconhecer os limites entre o público e o privado. O cidadão Luis Inácio Lula da Silva tem todo o direito de fumar quantas cigarilhas quiser no ambiente de seu apartamento em S Bernardo do Campo, mas o presidente Lula não pode fazer do gabinete presidencial o seu espaço privado. Como bem disse a jornalista Dora Kramer, trata-se “da mais pública das salas da República”.

Mesmo passando por constrangimentos, Lula certamente continuará usando o seu estilo fanfarrão porque acredita que o povo o prefere assim. Se, em troca da popularidade fácil ele preferir continuar a insistir na falta de compostura no cargo, vai chegar o momento em irá exigir respeito. Então já terá sido tarde, porque a obrigação fundamental de quem quer ser respeitado é dar-se ao respeito.
080908

quinta-feira, setembro 04, 2008

A REPÚBLICA GRAMPEADA

Mais uma vez Lula afirmou que desconhecia o que se passava sob o seu nariz, pois a ABIN é um órgão de assessoramento direto do Presidente da República. Tenta com isso, a exemplo de ocasiões anteriores, sair ileso de mais uma crise sobre a qual tem responsabilidade direta. Prefere continuar a representar o papel de tolo e incompetente do que assumir o de arquiteto de um governo corrupto com tendências autoritárias. Menos mal: é preferível um presidente néscio a um ditador embrionário. A pronta ação de Gilmar Mendes, vítima do grampo da ABIN, fez Lula afastar toda a diretoria do órgão.
A REPÚBLICA GRAMPEADA

As recentes ações da Polícia Federal, e a revelação de que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) vinha monitorando autoridades dos Três Poderes são preocupantes.Nos dois casos, não fosse a pronta ação do Supremo Tribunal Federal ( STF), em especial do seu presidente, e a, digamos, excessiva liberalidade com que vinham agindo poderia ganhar a dimensão de uma bola de neve a rolar montanha abaixo, colocando em risco as próprias instituições republicanas.

Primeiro foram as operações espetaculosas da PF, a investigar, invadir, prender e algemar cidadãos de colarinho branco, suspeitos de participação em esquemas fraudulentos e em quadrilhas criminosas. Quando tais ações, geralmente batizadas com nomes cinematográficos, começaram a ultrapassar os limites da legalidade, foi preciso o STF recolocar as coisas nos trilhos da Lei: primeiro, quando o presidente Gilmar Mendes concedeu por duas vezes habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, e, depois, quando o plenário do Tribunal considerou ilegal o uso indiscriminado de algemas, tal como vinha sendo praticado pela PF.

Agora foi revelado que o presidente do Supremo, o presidente do Senado e alguns senadores da oposição estavam sendo vítimas de escutas telefônicas praticadas pela ABIN, órgão que constitucionalmente tem a função de abastecer à Presidência da República e o Ministério da Defesa com informações sigilosas relativas à segurança nacional. Até onde se sabe, são desconhecidos os riscos que figuras como Gilmar Mendes, Garibaldi Alves e Demóstenes Torres – três dos “grampeados” – representariam para a segurança do País. Somente depois da grande repercussão do caso na mídia, e pressionado pela ação de senadores e de ministros do STF,é o presidente Lula decidiu afastar toda a diretoria do órgão de inteligência, o que não foi muito, diante da dimensão e da gravidade do fato.

Mais uma vez Lula afirmou que ignorava o que se passava sob o seu nariz, pois a ABIN é um órgão de assessoramento direto do Presidente da República. Tenta com isso, a exemplo de ocasiões anteriores, sair ileso de mais uma crise sobre a qual tem responsabilidade direta. Prefere continuar a representar o papel de tolo e incompetente do que assumir o de arquiteto de um governo corrupto com tendências autoritárias. Menos mal: é preferível um presidente néscio a um ditador embrionário.

Pior seria se todas estas ações de cunho arbitrário tivessem não só o seu conhecimento, como estivessem sendo executadas sob o comando e a coordenação do Planalto no sentido de minar a credibilidade nas instituições democráticas, enfraquece-las e abrir caminho para a hipertrofia do poder presidencial.Por isso, esperamos que o Congresso, o Ministério Público e a Justiça ajam no sentido de esclarecer tudo.
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terça-feira, setembro 02, 2008

BOLHA DE SABÃO

Os que enxergam a realidade, tal como ela é, costumam ser considerados pessimistas, especialmente num momento em que o governo alcança altos índices de popularidade e se permite a uma autopromoção como nunca antes vista. Acreditando ter encontrado a fórmula mágica do sucesso político, e certo de que irá fazer o seu sucessor em 2010, Lula tende a multiplicar por mil as conquistas sociais e econômicas do seu segundo mandato. Conta com o entusiasmo ingênuo da maioria pobre da população, e a passividade da outra parcela, justamente a mais prejudicada pela atual política.


BOLHA DE SABÃO

O verdadeiro desenvolvimento econômico e social de um país somente se constrói sobre bases sólidas. Caso contrário, não passará de um castelo de areia, ou uma bolha de sabão. Para começar, deve esta ancorado na existência de um Estado enxuto, com uma máquina administrativa racional e eficiente, um sistema financeiro equilibrado, sustentado por uma sólida poupança interna, ampla liberdade econômica e de investimentos, e uma sociedade plenamente educada.Infelizmente, o atual crescimento econômico , alardeado pelo governo Lula não se sustenta, pelo que tem de inconsistente, artificial.

Inconsistente e artificial porque é mais do que notório que Lula e sua turma acreditam que para ser capaz de executar o bem público é Estado deva ser mastodôntico, complexo, burocratizado, e , por conseqüência, dispendioso, esbanjador e corrupto. O aumento progressivo da carga tributária, a contratação maciça de funcionários públicos, a multiplicação do número de ministérios, secretarias, órgãos públicos e estatais, nos levam à certeza de que mesmo tendo acertado no primeiro mandato, ao dar continuidade à política de contenção dos gastos e equilíbrio das contas públicas para o pagamento da dívida externa,no estágio atual, o setor público caminha inexoravelmente para uma faixa de desequilíbrio fiscal, aumento dos impostos, aumento da dívida pública e crescimento da inflação, com conseqüências que se fazem sentir nas costas da classe média e do setor produtivo.

Inconsistente e artificial também porque está baseado numa generosa injeção financeira governamental no sentido de promover o aumento do consumo das camadas populares, o que de fato acontece pela política de facilitação do crediário e dos empréstimos consignados em folha. Também é conseqüência dos sucessivos aumentos do salário mínimo, da política de distribuição de bolsas assistencialistas e do aumento da oferta de empregos no setor público. O resultado tem sido o acesso imediato das camadas pobres a bens de consumo que até então eram privilégio da classe média, tais como automóveis e computadores. Segundo a propaganda oficial, tal aumento do consumo é a parte mais visível da melhoria do padrão de vida das classes pobres no governo Lula


De fato, é o governo agindo com extrema liberalidade na concessão de empréstimos, créditos, bolsas, aumentos salariais e empregos no setor público o que cria a ilusão de aceleração da economia, quando na verdade não vai além de um mero populismo econômico. Essa generosidade tende a se transformar numa gigantesca corrente de endividamento e de inadimplência, assim que uma possível crise internacional abalar a capacidade do Estado de avalizar os milhões de brasileiros que se deixaram iludir pela facilidade do dinheiro fácil.

Por fim, o crescimento econômico atual é inconsistente e artificial porque cria a ilusão de que as desigualdades sociais estão definitivamente sendo erradicadas, quando de fato não estão. Ao promover uma política que privilegia programas assistencialistas o atual governo reforça o desprezo pelos investimentos em setores sociais capazes de efetivamente resgatar milhões de brasileiros da pobreza. Com isso, acentua a crença de que as conquistas da vida não dependem de esforço e são dádivas governamentais.
O fato é que no governo Lula a educação pública continua a ser tão negligenciada como sempre foi. As medidas tomadas pelo ministério da Educação – ProUni, sistema de cotas, etc – não passam de mera maquiagem que não atingem o essencial. E o essencial é que o nosso ensino público, que mal consegue ensinar a criança e o jovem a ler e a escrever, está longe de acompanhar os avanços do conhecimento e da tecnologia, qualificar pessoas para o mercado e formar cidadãos conscientes. A imensa defasagem do nosso sistema de ensino é que, em última análise, mantém milhões de pessoas na marginalidade,por não lhes oferecer os instrumentos que as possibilitem ascender socialmente.

Portanto, a alegada “ascensão social” que vem sendo trombeteada pelo governo petista como exemplo do crescimento do País é mais uma falácia, pois está baseada apenas numa mera transferência de recursos de uma camada ( classe média ) para a outra ( classe pobre ), sem que isso signifique uma real e efetiva mobilidade social. Neste contexto, a exemplo da bolha econômica, o governo Lula cria uma bolha social, pronta também para se desfazer adiante.

Os que enxergam a realidade, tal como ela é, costumam ser considerados pessimistas, especialmente num momento em que o governo alcança altos índices de popularidade e se permite a uma autopromoção como nunca antes vista. Acreditando ter encontrado a fórmula mágica do sucesso político, e certo de que irá fazer o seu sucessor em 2010, Lula tende a multiplicar por mil as conquistas sociais e econômicas do seu segundo mandato. Conta com o entusiasmo ingênuo da maioria pobre da população, e a passividade da outra parcela, justamente a mais prejudicada pela atual política.

Se a atual bolha de crescimento econômico e social não estourar, estarão sendo contrariados todos os bons manuais de economia e de História, que nos ensinam a respeito da ascensão das nações desenvolvidas da América do Norte, Europa, Ásia e Oceania. Eles nos ensinam, sobretudo, que o autêntico desenvolvimento econômico e social se constrói sobre quatro alicerces: ampla liberdade econômica, enorme capacidade de poupar e de investir na produção, existência de um estado enxuto e um governo eficiente, e educação pública de alta qualidade. O ilusório crescimento brasileiro não se baseia em nenhuma destas premissas, e em muitos casos vai de encontro a elas. Portanto, entre acreditar no ilusionismo criado pelo governo Lula e permanecer acreditando na lógica, fico com a lógica.
020908