quarta-feira, junho 04, 2008

O FIM DA BATALHA DEMOCRATA

McCain terá a tarefa mais difícil, ou seja, conservar o apoio de George Bush sem se associar demasiadamente ao seu desastrado governo. Obama, como opositor de uma administração tão desprestigiada, terá uma tarefa mais fácil do que a do seu adversário, mas não totalmente isenta de perigos. A sua proposta por mudança –“Change” -é correta, mas não pode ser somente um emblema de campanha.


O FIM DA BATALHA DEMOCRATA

Barack Obama, após uma intensa disputa com a senadora Hillary Clinton, finalmente conquistou a indicação do Partido Democrata como candidato à Presidência dos Estados Unidos, cuja formalização ocorrerá na convenção do partido, em agosto. O que em muitos despertava o receio de que o acirramento dos ânimos poderia prejudicar a candidatura democrata e beneficiar a republicana, pelo desgaste natural que uma disputa interna ocasiona, em outros teve o efeito oposto, pois agiu como uma injeção de ânimo, movimentando as bases do partido durante meses seguidos, atraindo a atenção da mídia, e colocando Obama e Hillary no centro das atenções, enquanto o republicano MacCain permanecia na penumbra. O que os democratas esperam é que as marcas e as feridas deixadas pela batalha democrata sejam rapidamente cicatrizadas, e duas partes se recomponham e se unam para derrotar o verdadeiro rival.

O fato é que enquanto os democratas se estendiam numa longa e intensa batalha, os republicanos, já em março, haviam-se decidido pela candidatura de John MacCain. A indecisão dos democratas parecia ser o combustível necessário para uma temida e definitiva divisão nas hostes do partido, o que seria o prenúncio de uma derrota nas eleições de novembro. O término nesta semana das primárias, com a consolidação de Obama, conduziu à conclusão de que não interessa a Hillary e muito menos a Obama o prolongamento da disputa entre eles por conta dos ressentimentos da campanha: o foco principal é a unidade do partido para a decisiva batalha contra MacCain. Em seu discurso de vitória, Obama deixou claro que quer o apoio e a colaboração de Hillary e o voto de seus eleitores, enquanto a senadora admitiu a possibilidade de compor a chapa democrata como candidata à vice-presidência.

Poucas vezes na história recente dos Estados Unidos uma campanha eleitoral assumiu ares de uma disputa ideológica tão intensa quanto a atual. Por disputa ideológica entenda-se a histórica identificação dos republicanos com o liberalismo a economia e o conservadorismo nos costumes, e dos democratas com o liberalismo nos costumes e intervencionismo econômico. Mesmo que esta diferença ideológica, ao final, não seja a principal motivação do voto do eleitor, o fato é que é inegável a marca conservadora do eleitorado republicano representada pelas pequenas e médias cidades, pelas áreas rurais, pelo fundamentalismo religioso e pelos grandes grupos financeiros. Do lado democrata , o liberalismo e a “visão progressista”predominante nas grandes cidades da costa leste e oeste, os trabalhadores, os meios intelectuais e universitários, os negros e os imigrantes. Os conservadores preferirão a prudente estabilidade proposta por MacCain, enquanto os liberais–progressistas tenderão a optar pela “mudança” apregoada por Obama.

Paradoxalmente, as biografias de Obama e de MacCain não parecem justificar o aparente radicalismo que a campanha poderá tomar. Nem Obama é tão liberal quanto pode parecer, nem MacCain é tão conservador. Em muitos momentos de sua atuação parlamentar, MacCain se identificou com o setor mais liberal do seu partido, e foi um crítico da política belicista de George W Bush. Em 2004, flertou com os democratas, o que fez, inclusive, que se cogitasse de sua mudança de partido para ser vice na chapa de John Kerry , que concorria contra Bush.

Por seu turno, Barack Obama pouco se destacou pelo fervor liberal ou pelo extremado anti-conservadorismo, e muito menos pela defesa das causas das chamadas minorias, dos negros e dos marginalizados norte americanos, o que o coloca como alvo de críticos que o consideram pretensamente intelectual,esnobe e elitista.

McCain terá a tarefa mais difícil, ou seja, conservar o apoio de George Bush sem se associar demasiadamente ao seu desastrado governo. O atual presidente termina o seu segundo mandato com um dos mais baixos índices de popularidade , mergulhado até o pescoço no atoleiro militar do Iraque e com a economia americana dando sinais de fraqueza. O candidato republicano terá que convencer o eleitorado de que será capaz de continuar com uma política dura em relação ao terrorismo sem mergulhar o país num impasse, enquanto tenta reorganizar a economia norte americana.

Obama, como opositor de uma administração tão desprestigiada, terá uma tarefa mais fácil do que a do seu adversário, mas não totalmente isenta de perigos. A sua proposta por mudança –“Change” -é correta, mas não pode ser somente um emblema de campanha. O candidato terá agora que detalhar as mudanças que pretende fazer e convencer o eleitorado sobre elas. Bater nos erros de Bush é fácil. Propor um plano de retirada gradativa das tropas do Iraque também não é complicado. O que exigirá maior esforço da campanha do candidato democrata será convencer o eleitorado de que será capaz de promover mudanças que levem à estabilidade da economia, ao aumento do poder de compra do cidadão, ao crescimento da oferta de empregos, de educação e habitação, que foram negligenciadas nos oito anos de mandato de Bush. Por tudo, a atual campanha presidencial promete ser quente e empolgante.
040608

4 comentários:

Rs SP disse...

Felizmente Hussein não foi escolhido de direito candidato Democrata. Isso só acontecerá em agosto com a definição dos votos dos 800 superdelegados, na convenção. É como um Collor.. discursa bonito, chama a atenção da mídia superficial e emburrecedora, maisna realidade, mostra ser um perigo. Com seu 'carisma', conseguiria enganar boa parte da brasilerada média e volúvel de que a Amazônia realmente é internacional, ou de que o Irã é menos pior (ou muito pior) por ter armas nucleares. Felizmente Hillary está no páreo, e quem vencerá novembro será o Republicano McCain.

silas disse...

Tem razão o re sp
Todos estão parabenizando Obama por sua coragem... mas será que só eu vi a palavra "confronto" no discurso do bravo democrata... bravo em todos os sentidos... que história é essa de diplomacia mais dura à Roosevelt ou Truman. Não sei, mas não vejo bons sinais no discurso do democrata... por enquanto são só impressões e espero que assim continue. Já nos deu problemas demais o governo Bush, o que será que nos reservará o governo Obama... se é que esse governo existirá.

rosena disse...

"McCain propõe a realização de debates semanais com Obama". É... enquanto isso, em democracias menos desenvolvidas de países menos desenvovidos o candidato que está bem nas pesquisas se recusa a ir aos debates. Não é mesmo, Lula?

Anônimo disse...

VEJA desta semana chega com uma questão que vale fantásticos US$ 418 milhões. Isto mesmo leitor: estamos falando da bagatela de R$ 670 milhões. Estão vendo o documento acima? Por meio dele, a TAM admitia comprar a Varig por US$ 1,2 bilhão. A proposta depois foi fechada em US$ 738 milhões. Mas a empresa, por razões que o capitalismo, a aritmética e o bom senso se negam a explicar, foi vendida por US$ 320 milhões para a Gol. Qual será o mistério?

Lembram-se daquele texto de anteontem, em que eu falava de “Dilma, a fascinante”? Num determinado trecho do artigo, não vendo mais nos fatos os instrumentos para retratar o surrealismo nativo, recorri, então, à imaginação. E o tio lhes propôs a seguinte “ficção”. Para quem não se lembra (segue em azul):

Marco Antonio Audi deixa claro que o chinês Lap Chan ameaçou não dar mais um tostão ao negócio e que praticamente impôs a venda da Varig à Gol. É preciso saber:
a) a TAM estava disposta a dar mais pela Varig?;
b) se a TAM aceitava dar mais, por que o governo só autorizaria a venda para quem aceitava dar menos?;
c) digamos que alguém estivesse escrevendo um roteiro de ficção:
1 – Hipotéticas empresas G e T estão interessadas na também hipotética empresa V;
2 - a empresa V, que não é boba, prefere a empresa T, que paga mais;
3 - mas o negócio depende de autorização do governo, que só aceita vender para a empresa G, que paga menos;
4 – o roteirista já tem um mistério, um enigma, e precisa tirar o leitor ou telespectador da sinuca. O que se passa?
5 – o roteirista, cheio de caraminholas, inclui em sua história o pagamento de um complemento, "por fora" (vocês sabem: "recursos não-contabilizados", como diria Schopenhauer) não ao dono da empresa V, mas aos agentes oficiais que forçaram a venda para a empresa G.

Isso foi o que imaginou um ficcionista. A primeira pergunta que fiz acima já está respondida.
Sim, a TAM aceitava pagar mais pela Varig. Muito mais. R$ 670 milhões a mais. Já o resto permanece um ministério, não é mesmo? Ou mais ou menos. Pegadas da Casa Civil – chefiada pela ministra Dilma Rousseff - apareceram na pressão feita na Anac para que a agência deixasse de cumprir sua função e aprovasse logo o negócio. E já se começa a perceber, também, a pressão oficial para que a empresa fosse vendida para a Gol.

Quem é a personagem onipresente na negociação do começo ao fim, de cabo a rabo? Ele mesmo: Roberto Teixeira, o “Papai”. Uma dívida bilionária da Varig desapareceu, foi parar numa empresa “podre”. O que se vendeu foi só a parte boa. Teixeira, depois, “arrombou as portas” da Anac para que se permitisse a venda para o consórcio que tinha o tal fundo americano. Lap Chan, o chinês que punha dinheiro na empresa, avisa que a fonte está seca, que é preciso vender a Varig. E impõe a Audi a venda para a Gol. Teixeira, que era advogado de Audi, passa a assessorar os compradores, tanto é que os conduz até a sala de Lula. E hoje? Hoje, ele é advogado de Lap Chan, o mesmo que tirou a escada dos sócios brasileiros, obrigando-os a passar a empresa adiante.

Resumo da operação:
- Varig com dívida bilionária: ninguém quer;
- Consórcio compra o enrosco por US$ 24 milhões;
- Anac diz que consórcio não cumpre requisitos legais;
- Teixeira faz lobby; Dilma pressiona Anac e Infraero;
- Dívida bilionária desaparece;
- Varig volta a valer uma fortuna;
- TAM propõe valor inicial de US$ 1,2 bilhão, mas termina oferecendo US$ 738 milhões;
- Impõe-se ao consórcio a venda à Gol por US$ 320 milhões.


Leiam os detalhes deste incrível negócio na VEJA desta semana. Abaixo, imagens que retratam bem a era Lula.