quinta-feira, fevereiro 28, 2008

ACABAR COM O CONGRESSO?

Defender a pura e simples abolição do sistema representativo, pelo mau comportamento dos nossos parlamentares, não resolve o problema: alguém tomará o poder de legislar nas mãos e o fará à nossa revelia e às nossas custas. Já cansamos de ver este filme. Defender a abolição da democracia representativa em razão dos seus defeitos só pode nos levar a um caminho: o das trevas do autoritarismo. E, então, não poderemos sequer reclamar.


Motivos não faltam para muitos desejarem o fim do Congresso. Melhor seria lutar contra o mau uso que os políticos fazem do Congresso...

ACABAR COM O CONGRESSO?

O tema pode parecer extemporâneo – considerando que em matéria de corrupção o executivo é a bola da vez -, mas a sucessão de escândalos que tem marcado a vida do Congresso Nacional nos últimos anos fez aumentar em parcela significativa da população brasileira o sentimento de repúdio à política e aos políticos em geral. Tal sentimento se traduz na crença de que o fechamento do Congresso seria o remédio definitivo para todos esses males.Não apenas falamos daqueles que por convicção ideológica, à esquerda ou à direita, defendem a instauração de uma ditadura no país. Falamos principalmente de uma grande parte da população - a chamada maioria silenciosa -, que sempre manifestou certo desprezo pela política e pelos políticos em geral, e sempre viu na atividade dos parlamentares uma perda de tempo e dinheiro.

Este sentimento não deixa de estar fundamentado em fatos e argumentos convincentes, na medida em que deputados e senadores nestes últimos tempos têm se esmerado em dar um verdadeiro show de mau comportamento político e de desprezo a todos os padrões éticos que devem nortear a atividade parlamentar.

Dentre os mais freqüentes destes maus exemplos estão o número excessivo de parlamentares, o reduzido número de sessões deliberativas ao longo do ano, os constantes recessos, as repetidas ausências de determinados parlamentares ( e não são poucos ), o interminável troca-troca de partidos, a presteza em legislar em causa própria e se auto conceder generosos reajustes em seus vencimentos, as mordomias,o nepotismo, o fisiologismo, os acordos confessáveis e as negociatas inconfessáveis a cada votação de interesse do governo, e a completa submissão à agenda do Executivo, fato traduzido pelo excesso de medidas provisórias, para não irmos muito longe.

A crise autofágica que culminou com a renúncia do presidente Renan Calheiros, e praticamente paralisou as atividades do Senado no segundo semestre do ano passado, apenas representou o coroamento desse processo de degradação do parlamento brasileiro.

A repercussão pública de todo este processo só fez aumentar o repúdio e a descrença, não apenas em relação ao comportamento dos parlamentares, mas à própria instituição, dando corda aos que pregam a abolição do Congresso. Tal sentimento é realimentado na proporção da insistência com que muitos parlamentares repetem comportamentos antiéticos, imorais e muitas vezes, criminosos, e recebem o silêncio complacente ou a solidariedade indecente da maioria de seus colegas. Desta forma, estabelece-se um ciclo vicioso: a baixa educação cívica e o pouco apreço pelas instituições democráticas geram o combustível que leva os parlamentares a reincidirem no mau comportamento ,o que , por sua vez, só faz aumentar esse sentimento de repúdio ao Congresso.

Portanto, se queremos um aperfeiçoamento no comportamento dos nossos políticos e o fortalecimento das instituições é necessário, é óbvio, o fortalecimento da convicção democrática do nosso povo, o que somente se dará com a melhoria da educação em geral, e da educação para a cidadania em particular. Não tem como fugir disso.

Já dizia Churchill que a democracia representativa é o pior dos sistemas políticos, exceto todos os demais. Pregar a pura e simples abolição do sistema representativo, pelo mau comportamento dos nossos parlamentares, não resolve o problema: alguém tomará o poder de legislar nas mãos e o fará à nossa revelia e às nossas custas. Já cansamos de ver este filme. Defender a abolição da democracia representativa em razão dos seus defeitos, ao invés de investir no seu aperfeiçoamento, se, por um lado, revela uma revolta justa indignação com o show de desfaçatez dos nossos parlamentares, por outro lado revela uma perigosa descrença nos valores democráticos que só podem nos levar a um caminho: o das trevas do autoritarismo. E, então, não poderemos sequer reclamar.
280208

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

PIZZA COM RECHEIO RUIM

Enquanto eles brigam , ou fingem brigar, a sociedade paga. E paga caro. O governo federal, sob o comando do PT, continua torrando o nosso dinheiro e a nossa paciência.Aos setores esclarecidos e independentes da sociedade não interessa se mais esse assalto aos cofres públicos foi cometido apenas pelos petistas e seus aliados ou também por tucanos e seus aliados de então. Interessa, isso sim, saber a dimensão e o volume desse desvio. E os responsáveis por ele.



PIZZA COM RECHEIO RUIM
Quem quer investigar o quê? Nem governo, nem oposição parecem querer investigar a sério o escândalo dos cartões corporativos. Assim, tudo caminha para terminar em farsa. Tanto governistas quanto oposicionistas deixam transparecer ter chegado a um acordo para que nada que comprometa o presidente Lula ou o seu antecessor seja investigado de verdade.
No princípio, os oposicionistas se mostraram valentes nos discursos e ameaçaram o governo com a instituição de uma CPI no Senado para investigar "a fundo" as denúncias de que ministros e membros do governo faziam mau uso dos cartões de crédito do governo federal. Enquanto tucanos e democratas discursavam, as tropas do governo comandadas pelo senador Romero Jucá agiam. Protocolaram imediatamente um pedido de instalação de uma CPI mista - formada por deputados e senadores - e estenderam o alvo das investigações ao segundo mandato de FHC. Foi o que bastou para os tucanos sentirem o golpe, e, a partir de então entrarem num jogo de faz de conta com o governo, de tal forma a inviabilizar as investigações, ou, quando muito, a conduzi-las a um final que responsabilize membros do andar de baixo e preserve o Palácio do Planalto, tanto na gestão atual quanto na anterior.
Faz parte desse jogo de cena a tentativa da oposição de, tardiamente, formalizar uma CPI exclusiva do Senado,onde o equilíbrio de forças é maior ,numa resposta à intransigência dos governistas ao não permitir que nenhuma das duas posições de relevo na Comissão - presidência e relatoria - fique nas mãos da oposição. O presidente do Senado, Garibaldi Alves, não se sabe se falando como representante da instituição ou em nome do governo, disse ser inviável o funcionamento no Congresso de duas CPIs sobre o mesmo tema.E não deixa de ter razão.
Enquanto eles brigam , ou fingem brigar, a sociedade paga. E paga caro. O governo federal, sob o comando do PT, continua torrando o nosso dinheiro e a nossa paciência.O mesmo acontece em São Paulo, onde o governador José Serra, que se projeta como principal candidato de oposição à Lula e sua turma nas eleições de 2010, também se enrola numa mal explicada história de má utilização dos cartões de débito do governo estadual.
Aos setores esclarecidos e independentes da sociedade não interessa se mais esse assalto aos cofres públicos foi cometido apenas pelos petistas e seus aliados ou também por tucanos e seus aliados de então. Interessa, isso sim, saber a dimensão e o volume desse desvio. E os responsáveis por ele.Infelizmente, nossos representantes no parlamento avançam e recuam nas investigações na proporção em que tais avanços e recuos tragam benefícios eleitorais.Como o aprofundamento das investigações parece resultar em muita lama para todos os lados, governo e oposição acharam por bem colocar no forno uma grande pizza recheada de ingredientes podres- muito cinismo, bastante hipocrisia - cobertos por inflamados discursos de falsa indignação, dando razão àqueles que dizem que os políticos são farinha do mesmo saco.
250208

terça-feira, fevereiro 19, 2008

O BALÃO DE ENSAIO MINEIRO

Aécio Neves parece demonstrar confiança na sua força política e acredita que é possível convencer Lula e sua turma de que um acordo entre o seu grupo e o PT nacional objetivando a presidência em 2010, seria vantajoso para ambas as partes, e eleitoralmente mais forte no sentido de afastar os tucanos paulistas definitivamente do Planalto. Sem o apoio de Lula, evidentemente Aécio não se arriscaria a enfrentar a força dos tucanos paulistas.

Aécio e Pimentel, com Lula:Uma aliança entre Aécio e Lula para derrotar os tucanos em 2010? O governador mineiro já trabalha para isso...

BALÃO DE ENSAIO MINEIRO

O que vem sendo apresentado na grande mídia nacional como “uma aliança eleitoral entre o PSDB e o PT em Minas”,não é bem assim. Trata-se, isso sim, de um acordo entre dois fortes grupos políticos – o grupo liderado pelo governador Aécio Neves e o do prefeito de BH, Fernando Pimentel.O objetivo imediato é lançar um nome de consenso à prefeitura da capital mineira, e, a médio prazo, viabilizar a candidatura de Aécio à presidência e de Pimentel ao governo do Estado.

Como sabemos, o nome de Aécio encontra uma forte resistência na cúpula do PSDB, em especial dos caciques paulistas do partido, empenhados na candidatura de José Serra. Aécio sabe disso, mas não abre mão do seu projeto de alcançar a presidência em 2010. Tem consciência de que, excluída a presidência , só lhe restaria o limbo do Senado durante oito anos, tempo demasiadamente longo para as suas ambições , e suficientemente longo para que caia no esquecimento do eleitorado.

O atual acordo entre o governador tucano e o prefeito petista seria, pois, uma espécie de balão de ensaio para o projeto mais amplo da conquista da presidência. Nesse contexto, Aécio reconhece que dificilmente será o candidato do seu partido, e conta também com a inviabilidade de uma candidatura petista, já que o partido de Lula não apresenta nenhum nome com densidade eleitoral e carisma suficientes para vencer em 2010, em que pese toda a carga de popularidade que o atual presidente poderia transferir a essa candidatura.

O que o governador mineiro pretende, portanto, é unir o máximo de forças políticas – inclusive e principalmente Lula e o PT - para, em algum outro partido, assumir uma espécie de candidatura de “união nacional”. Tudo isso pode parecer um delírio, uma loucura, mas é o que o governador mineiro pretende viabilizar.

O balão de ensaio de Aécio encontra, porém, forte resistência do PT mineiro. Reunidos no último fim de semana, a ala petista liderada pelo ministro Patrus Ananias se contrapôs aos aliados de Pimentel e reafirmou o propósito de lançar uma candidatura própria à prefeitura, independente do acordo entre o governador e o prefeito.

Aécio Neves parece demonstrar confiança na sua força política e acredita que é possível convencer Lula e sua turma de que um acordo entre o seu grupo e o PT nacional objetivando a presidência em 2010, seria vantajoso para ambas as partes, e eleitoralmente mais forte no sentido de afastar os tucanos paulistas definitivamente do Planalto. Sem o apoio de Lula, evidentemente Aécio não se arriscaria a enfrentar a força dos tucanos paulistas.

Portanto, o que estamos assistindo em Minas é muito mais do que uma inusitada aliança entre o PT e o PSDB visando as próximas eleições municipais. É o lance inicial de um jogo muito maior, que visa a conquista do Poder do País.
190208


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

DIVIDIDA E DESNORTEADA

A cizânia interna e a incapacidade de se livrar de algumas manchas do passado fazem de tucanos e democratas uma oposição tímida e indecisa, e se reflete no Congresso, possibilitando a tropa de choque petista ocupar os espaços e contra atacar, como acontece neste instante na batalha pela instauração de uma CPI para investigar o uso dos cartões corporativosA cizânia interna e a incapacidade de se livrar de algumas manchas do passado fazem de tucanos e democratas uma oposição tímida e indecisa, e se reflete no Congresso, possibilitando a tropa de choque petista ocupar os espaços e contra atacar, como acontece neste instante na batalha pela instauração de uma CPI para investigar o uso dos cartões corporativos


Lula , Serra e o xadrez político: na luta pelo xeque mate em 2010, os governistas jogaram melhor o lance pelo controle da CPI...


DIVIDIDA E DESNORTEADA

Muito mais do que a preocupação com a defesa da causa pública, da ética e dos bons costumes políticos, o que tem motivado os políticos de todos os partidos nas últimas semanas são interesses de ordem eleitoral. Mais precisamente, as eleições de 2010. Os políticos do governo e da oposição agem como peças de um jogo de xadrez na defesa do seu rei. No caso, os “reis” em questão são Lula, José Serra e Aécio Neves. No atual momento, em que pese a sucessão de denúncias contra o governo, suas peças têm demonstrado mais competência no tabuleiro político.

No pragmatismo que caracteriza o teatro político, e na frieza como agem os seus principais atores, a eclosão do escândalo dos cartões corporativos se apresentou como mais uma excelente oportunidade para a oposição tucano-democrata minar o campo adversário,enfraquecer Lula e dar o xeque mate definitivo em 2010.No contexto atual, é uma bobagem falar em impeachment do presidente. Nem a oposição pensa nisso. Somente uma denúncia de forte impacto político ou pessoal, que atingisse diretamente o próprio presidente seria capaz de levar o rei petista a pique.

O que os tucanos tentam fazer é repetir a estratégia de 2005, com o propósito de colocar Lula sob sucessivos xeques, limitando os seus movimentos e levando ao descrédito o seu governo e o seu partido e enfraquece-lo eleitoralmente. Mas, como veremos, falta à oposição unidade, competência, poder de fogo e capacidade de se livrar dos contra ataques da turma de Lula.

É que a tropa petista , quando fustigada pela oposição, faz do atual governador de São Paulo e do ex-presidente da República os alvos de sua artilharia. A cada denúncia de mau uso dos cartões corporativos pelo governo federal, os aliados do governo reagem com uma contra-denúncia na direção de José Serra e de Fernando Henrique. Pura tática divercionista, mas que tem deixado muitos tucanos excessivamente cautelosos nos seus ataques ao governo. Mas tudo poderia ser mais simples para a oposição, se estivesse unida em torno de uma candidatura à sucessão de Lula em 2010. Como sabemos, tal não acontece pois ela se divide em torno do paulista José Serra e do mineiro Aécio Neves.

A disputa nas hostes tucanas pela candidatura presidencial tem como preliminar as eleições municipais deste ano, especialmente em São Paulo.Enquanto José Serra quer fortalecer a aliança com o Democratas , e para isso articula a candidatura de Gilberto Kassab à prefeitura da capital paulista, o ex-governador Geraldo Alckmin conta com o apoio da ala tucana liderada por Aécio Neves, e tenta fazer da prefeitura um trampolim ao governo do Estado em 2010, retribuindo , com a sua adesão à candidatura presidencial de Aécio Neves, o apoio recebido do mineiro no atual embate contra Serra.

A cizânia interna e a incapacidade de se livrar de algumas manchas do passado fazem de tucanos e democratas uma oposição tímida e indecisa, e se reflete no Congresso, possibilitando a tropa de choque petista ocupar os espaços e contra atacar, como acontece neste instante na batalha pela instauração de uma CPI para investigar o uso dos cartões corporativos.

Primeiro, os governistas se anteciparam à oposição na formalização da CPI. Agora, sentindo a fraqueza dos adversários , reivindicam a posse dos dois cargos mais importantes- presidência e relatoria – da Comissão , juntando os ingredientes para a confecção de uma gigantesca pizza.

Se perder a atual batalha por culpa de suas próprias fraquezas e indecisões, os oposicionistas terão dado a Lula mais um presente e fortalecido as pretensões petistas de permanecer no poder além de 2010.
130208.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

CONFUNDIR PARA NÃO EXPLICAR

Lula e sua turma demonstram acreditar que a atual oposição é constituída de inexperientes aprendizes, que se abalam ao mais tímido contra ataque. Foi assim quando da crise de 2005, e o governo espera que assim seja agora. Caberá , pois, à oposição provar o contrário.


CONFUNDIR PARA NÃO EXPLICAR

Como um antigo apresentador de TV, o governo Lula não veio para explicar, veio para confundir. É o que se deduz do comportamento de ministros, parlamentares governistas, porta-vozes, e do próprio presidente, mal vieram a tona as denúncias sobre o mau uso dos cartões corporativos. Todos eles se apressaram em tomar o espaço da mídia com uma série de declarações desencontradas e ações contraditórias numa tentativa canhestra de abafar um escândalo do qual parece ter se revelado apenas a ponta de um grande iceberg.

No Senado, o subserviente líder governista Romero Jucá – por ironia, também líder do governo FHC – tão logo a oposição anunciou a sua intenção de formalizar uma CPI para investigar as denúncias, se antecipou e propôs uma espécie de CPI “retrô”, pois tem como alvo das investigações o segundo mandato de FHC, sem que sobre este período tenha pesado alguma denúncia de malversação no uso dos tais cartões. Ficou evidente na ação de Jucá o propósito de embaralhar as investigações, para inviabilizá-las.

Enquanto isso , tentando mostrar que não ficou abalado, e atribuindo à oposição a responsabilidade pela eclosão de uma crise artificial, o governo estima que neste ano pretende triplicar os gastos com cartão corporativo. Serão gastos mais de R$200 milhões, segundo previsão do próprio Palácio do Planalto. Tal valor é quase três vezes maior que o montante gasto em 2007 – R$75 milhões.

Como se vê, o governo que ao longo de cinco anos de mandato atravessou incólume sucessivas crises de corrupção, agora, numa atitude de explícita arrogância e prepotência, despreza solenemente o desempenho da oposição nas questões que envolvem a fiscalização dos seus atos.Veteranos e experientes nas trincheiras oposicionistas, ao longo dos anos em que fizeram contundentes, intransigentes e , muitas vezes, injustos ataques aos governos anteriores, Lula e sua turma, assumindo ares de PHD no assunto, demonstram acreditar que a atual oposição é constituída de inexperientes aprendizes, que se abalam ao mais tímido contra ataque. Foi assim quando da crise de 2005, e o governo espera que assim seja agora. Caberá , pois, à oposição provar o contrário se não quiser, pelo recuo de suas intenções iniciais, dar a Lula mais um presente, tal como fez por ocasião do escândalo do Mensalão.
110208

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

CONSERTANDO OS ESTRAGOS DE BUSH

Neste ano, os eleitores norte-americanos terão a responsabilidade de escolher quem irá ocupar a Casa Branca nos próximos quatro anos e ficar com a árdua tarefa de tirar o país do poço em que foi jogado pela péssima administração de George W Bush.O atual presidente, tendo nas mãos uma oportunidade histórica de se consagrar como estadista nesse início de século, deixa o governo de forma humilhante.
Um negro, uma mulher, um idoso:qual dos três terá a tarefa de consertar os estragos causados por Bush?


Neste ano, os eleitores norte-americanos terão a responsabilidade de escolher quem irá ocupar a Casa Branca nos próximos quatro anos e ficar com a árdua tarefa de tirar o país do poço em que foi jogado pela péssima administração de George W Bush.O atual presidente, tendo nas mãos uma oportunidade histórica de se consagrar como estadista nesse início de século, deixa o governo de forma humilhante. A gigantesca dimensão dos problemas e responsabilidades que lhe couberam após os atentados de 11 de setembro de 2001 foi inversamente proporcional ao minúsculo tamanho da competência e do talento do ex-governador texano.

Bush desprezou a diplomacia e a negociação, mentiu descaradamente ao Congresso e ao povo, e atirou o país numa guerra suicida no Iraque, cujo passivo financeiro e de vidas humanas ainda está por ser contabilizado em todos os seus números. Sua política externa radical e tola só fez aumentar o ódio dos seus inimigos, e ainda retirou o apoio de muitos aliados.

Para piorar o estrago, o setor no qual o presidente vinha apresentando resultados positivos - e foi em grande parte o responsável pela sua reeleição em 2004 -, revelou-se, no final do seu governo, frágil. A economia norte-americana tem mostrado sinais de uma iminente crise, obrigando Bush a apresentar um pacote de medidas fiscais de última hora, numa tentativa de debela-la.O fabuloso aumento das despesas governamentais provocado pela política militarista nesses últimos anos, certamente foi um dos fatores preponderantes nessa crise.

A ameaça da quebra da estabilidade econômica aliada ao imbróglio iraquiano fizeram com que o atual processo eleitoral despertasse o interesse maior dos eleitores norte-americanos e da opinião publica internacional.Nas eleições primárias e prévias eleitorais em andamento, os eleitores republicanos, tradicionalmente mais homogêneos, já se decidiram pela candidatura do senador John MacCain, que procurou, até agora, manter uma distância prudente de Bush, tentando fazer crer que será capaz de trafegar a mesma rota, porém com mais competência.

Do outro lado, o eleitorado democrata, mais diversificado e dividido, ainda não se decidiu sobre quem será o mais capaz de corrigir ou refazer a desastrosa política externa de Bush, e ainda promover a estabilidade, retomar o crescimento econômico, gerar empregos e oportunidades.

Em que pese a jovialidade e a mística de renovação que cerca o senador negro Barack Obama, a ex-primeira dama Hillary Clinton tem demonstrado possuir mais experiência, melhor conhecimento das questões de governo e apoio da burocracia partidária.A vitória de Obama nas prévias democratas parece improvável, e, caso aconteça, revelará , sem dúvida, um desejo de mudança, mas também uma tendência ao incerto e duvidoso que não é comum, mesmo no eleitorado democrata, historicamente mais liberal e voluntarioso.

Portanto, é quase certo que, ao final das primárias e “caucus”, o confronto final se dará mesmo entre MacCain e Hillary Clinton.Vale a pena acompanhar os próximos capítulos.
070208

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

SINTOMAS DE UMA ÚNICA DOENÇA

Tratar o bem público como se privado fosse, e atuar sobre a sociedade como se incapaz fosse, refletem a mesma falta de compromisso com a coisa pública e a mesma visão autoritária que se não são criações do atual governo, com ele ganharam dimensões nunca antes vistas.



SINTOMAS DE UMA ÚNICA DOENÇA
O que o mau uso dos cartões corporativos por alguns ministros do governo tem a ver com a proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais? À primeira vista, nada. Mas, examinando melhor, tudo. Ambos são sintomas de uma mesma doença. Tratar o bem público como se privado fosse, e atuar sobre a sociedade como se incapaz fosse, refletem a mesma falta de compromisso com a coisa pública e a mesma visão autoritária que se não são criações do atual governo, com ele ganharam dimensões nunca antes vistas.

Ao contrário do que pregavam antes da ascensão ao poder, Lula e sua turma preferiram apostar na manutenção de uma massa popular carente, desinformada e dependente do que investir pesado na educação como única forma de libertar esse povo das amarras da ignorância e da pobreza em que se encontra. É sabido que uma maioria carente, ignorante e dependente é mais facilmente manipulada e enganada, o que dá ao governante um campo maior para as práticas ilegais, antiéticas, e anti-republicanas.

O atual governo durante os seus cinco anos de poder já deu demonstrações de sobra – e o mensalão foi a maior delas – de que os recursos públicos se destinam muito mais para beneficiar partidos organizações e políticos ligados ao governo, e muito menos para promover o real bem comum.Nesse contexto, não causa muita estranheza o comportamento dos ministros Orlando Silva, dos Esportes, Altemir Gregolin, da Pesca e Matilde Ribeiro, da Igualdade |Racial – a propósito, para que servem esses ministérios?

Por sua vez, a decisão do Ministério da Justiça de proibir a comercialização de bebidas alcoólicas nas rodovias federais revela um paternalismo tosco, como também é uma amostra do desprezo e da maneira arbitrária como o governo se relaciona com a sociedade. Determinar que o aumento dos acidentes fatais nas rodovias é fruto do consumo do álcool, sem considerar os demais aspectos que envolvem a questão – inclusive a responsabilidade do governo pelo o estado lamentável em que se encontram as nossas estradas –, é, além de uma explícita demonstração de ignorância ,uma agressão à Constituição. E, por isso, deverá ter breve duração.

Tanto no caso do mau uso dos cartões como no da medida arbitrária do Ministério da Justiça, o erro do governo consiste em acreditar que a sociedade, além de permanecer nas trevas do obscurantismo político, tem que ser tutelada como se fosse formada, na sua totalidade, por imbecis e incapazes. Felizmente, apesar de todo o esforço do governo nesse sentido, ainda não é assim. São poucas, mas ainda existem pessoas capazes de reagir tanto ao assalto dos cofres públicos, mesmo que por quantias aparentemente insignificantes, quanto às decisões arbitrárias e sem sentido prático, como a tomada pelo Ministério da Justiça.
040208