
A ÉTICA DA MALANDRAGEM
O Brasil vive uma grande crise moral e ética que atinge toda sociedade, perpassa as instituições, e se reflete no ânimo e no funcionamento da Nação como um todo. Nunca, em toda a nossa História, a vida humana foi tão aviltada, o respeito às normas de convivência social foi tão negligenciado, os valores morais e éticos foram tão desconsiderados. Finalmente, e infelizmente, a velha teoria do levar vantagem em tudo, que se popularizou na década de 70, através de um comercial de cigarros protagonizado pelo ex-jogador Gérson, concretizou-se como referência padrão de uma grande parcela de nossa sociedade, atingindo indistintamente ricos e pobres. Enfim, substituímos a verdadeira ética por uma espécie de ética da malandragem.
A busca do ganho fácil, da vantagem ilícita, do enriquecimento a qualquer custo, do esbanjamento, do desperdício e do consumismo desenfreado, se tornaram muito mais importantes do que a ênfase nos estudos, o trabalho duro e honesto , o esforço persistente , a valorização da poupança e da previdência. O país parece ter sido tomado por projetos pessoais e coletivos para o próximo mês, próxima estação,para o próximo semestre, mas pouco se planeja para futuras gerações, o que pode ser comprovado pela pouca importância atribuída à educação básica.
O desprezo pela vida nunca assumiu proporções tão gigantescas como agora. A violência e a criminalidade, alimentadas pelo tráfico de drogas e pela impunidade, se sucedem e se avolumam de tal forma que, paradoxalmente, ao invés de alimentar um sentimento de repúdio e de indignação, parece ter banalizado, ante os olhos da sociedade e dos governantes, a perversão e a barbárie. Muitos, sustentados por argumentos de uma pseudo -sociologia tentam justificar tais crimes, e a violência de modo geral, como uma suposta reação da pobreza contra a desigualdade social existente no país.Pura balela. O fato é que passados os primeiros momentos de choque e de comoção causados por acontecimentos trágicos como o assassinato do garoto João Hélio, a sociedade, anestesiada, retoma os seus afazeres, e os governantes a sua rotina de conchavos e disputas por cargos, prestígio e poder.
Toda esta crise que permeia a nossa sociedade, é óbvio, não poderia deixar de se refletir na fraqueza das instituições e na ineficiência do poder político. A pouca relevância atribuída aos valores morais e éticos aliada ao completo descaso com a educação fazem com que a prática da cidadania seja tão incipiente que tem ensejado uma sucessão de governos medíocres e legislativos corruptos. Tomemos o governo Lula da Silva como o exemplo mais significativo de uma situação que se repete nos níveis estadual e municipal. A reeleição do presidente Lula é um sintoma claro deste processo de banalização da sociedade que se reflete na política. O governo Lula é ao mesmo tempo, causa e sintoma deste processo.
Nada, no seu primeiro mandato estava a indicar que Lula seria merecedor de tão grande beneplácito popular.Realizando um governo medíocre , no qual a principal referência - a estabilidade econômica - foi uma conquista do governo anterior, seus dois últimos anos do primeiro mandato foram, ainda , enlameados por uma sucessão de denúncias envolvendo ministros, partidários, aliados, amigos e parentes do presidente, que o Procurador Geral Antonio Fernando de Souza denominou, apropriadamente, de “quadrilha”.Pois bem, apesar de tudo, a condescendência ou a cumplicidade de uma grande parcela do povo deram a Lula uma segunda chance, seduzidos por uma propaganda enganosa ou cooptados pelo dinheiro do programa "Bolsa -Familia". Isto, apesar de todas os indicadores e evidências mostrarem um país com baixa taxa de crescimento econômico, pouca atenção do governo com setores fundamentais - educação, saúde, segurança e saneamento - e nenhum projeto consistente tanto no plano econômico quanto no campo social que apontasse uma luz no final do túnel. Pelo contrário, o governo petista mais do que qualquer outro, incorporou a ética da malandragem e da esperteza, fez da política social um mero assistencialismo, investiu pesado na propaganda enganosa, e fortaleceu a tendência a igualar tudo por baixo, levando ao empobrecimento gradativo e constante da classe média.
Voltando ao ponto de partida, esta banalização da sociedade que se reflete sobre governos mediocres e estes,por sua vez se refletem negativamente sobre a sociedade,num ciclo vicioso que parece nunca chegar ao fim. E realmente nunca vai chegar, se setores mais esclarecidos da sociedade - eles ainda existem!- permanecerem inertes. Estão nestes setores -pessoas que ainda conseguem se indignar com este quadro de crise moral e passividade governamental - a esperança de que não ficaremos entregues à banalização generalizada e poderemos fazer o que outros países já fizeram: construir um País onde o trabalho honesto, o respeito aos valores morais e éticos, o espírito público dos governantes e a consciência e a prática da cidadania sejam predominantes na sociedade e no poder público, e não apenas exceção, como acontece agora.
270207




