sexta-feira, dezembro 28, 2007

O GALINHO, DE QUINTINO PARA O MUNDO

Zico em dois tempos: o ex-craque tenta reviver no Fenerbach, como técnico, o mesmo sucesso dos tempos de Flamengo, como jogador.


Muito mais do que participar de uma festa beneficente e rever velhos ídolos, as 40.000 pessoas que foram ao Maracanã na noite desta quinta feira o fizeram para homenagear Zico, um dos maiores craques da História do nosso futebol. Apesar dos 54 anos de idade, em campo, o ex-craque do Flamengo não decepcionou, e mostrou parte das muitas habilidades que o consagraram. Conhecido como "Galinho de Quintino", Zico brilhou nos gramados do Brasil, da Europa e do Japão, nas décadas de 70 e 80, por força de seus passes precisos, suas cobranças de faltas certeiras, seus dribles desconcertantes e seus gols maravilhosos, e, agora, parece querer repetir, como técnico do time turco do Fernebach, o mesmo sucesso dos tempos de jogador.

A carreira vitoriosa de Zico foi construída com muito esforço.Somente se tornou unanimidade nacional depois de superar o preconceito de uma grande parte da mídia esportiva paulista que, bairrista como ela só, teimava em não reconhecer no jogador carioca as virtudes que os demais observadores viam.Durante muito tempo , Zico foi rotulado por esta imprensa de "craque fabricado", que brilhava apenas no Maracanã.Puro preconceito.

Mas além da má vontade da provinciana imprensa paulista, o jogador teve que amargar o fardo de duas malsucedidas participações em copas do mundo - em 1978, quando foi reserva de Jorge Mendonça, e em 1986, quando lutava para superar uma contusão -, o trauma da eliminação do Brasil pela Itália, na Copa de 1982, e uma gravíssima e criminosa contusão provocada por um jogador do Bangu no Campeonato Carioca de 1985,que o levou a sucessivas cirurgias e intermináveis sessões de fisioterapia e musculação.

Neste ponto, o que diferencia Zico da maioria dos craques do futebol brasileiro é o profissionalismo com que sempre encarou a sua atividade. Muito mais do que o seu enorme talento, a determinação, a persistência e a dedicação foram as suas marcas registradas. Numa época em que assistimos jogadores talentosos e consagrados a trocar a luminosidade dos gramados pelo lusco - fusco das casas noturnas, a história de Zico, mais do que nunca, serve de referência para muitos garotos que iniciam uma carreira profissional.É paradoxal que num tempo em que se destacam Ronaldos , Adrianos e Edmundos, esses garotos tentem se espelhar em alguém que eles nunca viram jogar.É a força do (bom) exemplo atravessando a barreira do tempo. Ainda bem.
281207

quarta-feira, dezembro 26, 2007

OS 'DEMOS" COMEÇAM A INCOMODAR

A substituição de velhos caciques por novas caras não será suficiente para fazer do ex-PFL um partido que se imponha como alternativa à alternância de poder entre o PT e o PSDB. Será preciso muito mais...


A batalha da CPMF no Congresso trouxe um fato novo no cenário político: o crescimento do Democratas como uma força de oposição que incomoda o governo. A sua posição firme, contrária desde o início à prorrogação das CPMF, constituiu-se numa verdadeira pedra no sapato do governo petista, a ponto do presidente Lula referir-se a ele como os "demos"- numa alusão óbvia ao demônio - que sem responsabilidade de governo e sem perspectiva imediata de poder querem ver instalados o caos e a ingovernabilidade no País. Sintomaticamente, ao mesmo tempo em que demonizava os ex-pefelistas, Lula poupava o PSDB.

De fato, o comportamento dos tucanos na questão da CPMF foi dúbio e hesitante. Refletindo divisões internas do partido, alinharam-se , de um lado, os governadores, capitaneados pelos presidenciáveis José Serre e Aécio Neves que se posicionaram a favor da continuidade do imposto. Do outro lado, os senadores do partido transitaram de uma posição inicial contrária à prorrogação para uma posição de defesa da negociação com o governo, retornando, ao final, à sua posição original. Se para alguns este comportamento refletiu a capacidade do partido de transigir e saber negociar, para muitos ficou a impressão de que os tucanos constituem uma oposição tatibitate, o que reforçou a velha crença de que eles têm mais semelhanças do que diferenças em relação ao PT.

Com a falta de determinação dos tucanos, quem ganhou foram os democratas, que ao assumirem desde o início uma posição de combate ao imposto do cheque respaldaram o desejo de uma significativa parcela da sociedade que abomina a elevada carga tributária .Ao contrário da tibieza dos tucanos, o partido fechou questão contra a prorrogação e passou a incomodar o Planalto.Com isto, ao findar o ano político, o Democratas pode comemorar o fato de ter sido o único agrupamento político a colher vitórias, num ano tão pobre de acontecimentos dignificantes.Para isso, contribuiu o fato do partido ter passado por um processo de renovação que começou com a troca do nome, passou pela mudança dos quadros diretivos e pela reformulação do programa partidário.

Na verdade, o DEM tenta se livrar do fardo de ter sido nas décadas de 60, 70 e 80 o sustentáculo político do regime militar - como herdeiro direto da ARENA e do PDS -, habitat de velhos e conhecidos caciques da política brasileira e com raízes fincadas no clientelismo político do nordeste, ou seja, um partido genuinamente conservador. Mas para isto não bastarão as mudanças de sigla, a troca da direção, dos velhos nomes para políticos mais jovens, ou algumas jogadas de marketing. Será preciso que a mudança aconteça no campo das idéias , do programa partidário e , principalmente , da ação política. O DEM terá que transitar do velho conservadorismo para o novo liberalismo.

Em outras ocasiões, já me referi a respeito da ausência no cenário político de um partido que represente a parcela da sociedade- em especial a classe média - que deseja um governo eficiente num estado enxuto , menos burocrático ,menos intervencionista e com menos impostos. O Democratas , após a renovação , insinua que pretende trilhar este caminho. Se assim for, poderá se impor como uma das forças hegemônicas de nossa política, distinguindo-se do PSDB e deixando de caminhar a reboque dos tucanos, o que acontece desde 1994. As posições divergentes dos dois partidos na questão da CPMF pode ter sido o primeiro passo nessa direção.
261207

quarta-feira, dezembro 19, 2007

HUGO, EVO E A DEMOCRACIA EM RISCO

Hugo Chávez e Evo Morales encarnam aquele tipo de governante que incorpora a mística de salvador da pátria e de redentor dos pobres e dos oprimidos.Em consequência, tais líderes costumam transformar a população mais humilde numa imensa massa de manobra de seus planos de poder e exacerbam os conflitos sociais em seus países. Chávez, com o seu pretenso "socialismo bolivariano”tem se esmerado em conduzir a Venezuela a uma extrema bipartição social. Morales vai pelo mesmo caminho, e o seu "socialismo indígena"praticamente dividiu a sociedade boliviana a tal ponto que, agora, corre o risco de provocar o separatismo político.



Governantes desse naipe vicejam em países pobres, com extrema desigualdade social e instituições políticas claudicantes. Mas, ao contrário do que os seus discursos demagógicos prometem , suas políticas quase sempre levam a um maior empobrecimento econômico - pela fuga dos investimentos - , enfraquecem ou liquidam a democracia e acentuam o caos social, prejudicando principalmente os que , em tese, seriam os maiores beneficiários de tais políticas, ou seja os mais pobres.

Infelizmente, a democracia , principalmente onde ela ainda é frágil, padece de fatores de risco que permitem que demagogos ascendam ao poder nos braços do povo e dele não se afastem mais, por força de plebiscitos manipulados, de eleições fraudadas e de toda sorte de artifícios e arbitrariedades que golpeiam aos poucos as liberdades.

A Venezuela e a Bolivia vivem essa experiência. Felizmente, uma imensa parte das populações desses países tem reagido e repudiado com veemência as tentativas de liquidação da democracia. Na Venezuela, a maioria da população manifestou o seu repúdio ao propósito de Chávez de permanecer indefinidamente no poder por meio de sucessivas reeleições. Na Bolívia, o radicalismo inconsequente de Morales provocou a reação das regiões mais ricas acentuando nelas o desejo de autonomia política ou, mesmo, de independência. Além de exacerbar a divisão social, as políticas tresloucadas de Chávez e Morales podem acabar levando seus países à sangrentas guerras civis.
191207

terça-feira, dezembro 18, 2007

ORIGINAL E SIMILARES



Neste imbróglio da prorrogação da CPMF, a posição dos governadores Aécio Neves e Jose' Serra foi idêntica a de Lula: todos estavam favoráveis à prorrogação do imposto do cheque. Aliás, muita gente tem se perguntado em que aspectos, de fato, os presidenciáveis de oposição se diferenciam do presidente petista. Dizer que são favoráveis à diminuição da carga tributária, e quando têm uma oportunidade concreta de reduzi-la, pressionarem a favor da sua manutenção - como no caso da votação da CPMF - não vai ajudar a identificá-los com os setores da sociedade que lutam por menos impostos. Continuando assim tão parecidos com Lula, correm o risco de, na hora do voto, os eleitores mais uma vez prefiram o original petista aos similares tucanos

IMPRENSA CHORA COM O GOVERNO

É impressionante a posição da mídia em relação à derrubada da CPMF pelo Senado. Nos dias seguintes, jornais, TVs, emissoras de rádios e internet só se referiam aos “prejuízos” do governo, às “perdas” do governo, às “dificuldades futuras” do governo, et cetera e tal. A mídia repercutiu o fato predominantemente sob o ponto de vista oficial e pouco falou nos ganhos da sociedade com o fim desse imposto. A imprensa chorou as mágoas do governo, mas não comemorou os ganhos da sociedade.

A TÁTICA DA ESPERTEZA




O presidente Lula desautorizou o seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, de especular a respeito de aumento de alíquotas nos tributos atuais ou, mesmo, criação de novos impostos de para cobrir o desfalque deixado pela finada CPMF. Teria o presidente tido um surto de lucidez e de bom senso? Que nada! Lula é muito mais esperto que seus áulicos. Ele sabe que sem a colaboração da oposição no Senado nada conseguirá daqui para frente. Nesta altura do campeonato, provocar mais uma briga com a oposição, que já deu a sua demonstração de força, é prejuízo na certa.

terça-feira, dezembro 11, 2007

A TV LULA

Nem TV pública, nem Tv estatal. O que se pretende é uma TV governamental que sirva aos propósitos políticos de Lula e do PT...



A TV LULA
O controle dos meios de comunicação e da informação constitui-se num passo importante em qualquer processo de instalação e consolidação de regimes despóticos, assim como, inversamente, a liberdade de imprensa é a garantia da democracia.

A existência de uma rede pública de TV não é, em si, um mal, desde que tenha uma gestão autônoma e se submeta ao controle da sociedade. Existem exemplos de TVs públicas bem sucedidas - é o caso da BBC de Londres -que mantêm uma programação diversificada e independente, livre do monitoramento do governante de plantão.

O que se pretende no Brasil não parece ser uma TV pública nem uma TV estatal, mas uma tv governamental. É evidente a intenção do governo petista ao criar uma rede de alcance nacional o propósito de ser um canal de transmissão das glórias do governo e da glorificação do presidente.ou um imenso painel eletrônico onde os propagandistas do governo procurarão mostrar o país pela sua face rósea e esconder o seu lado cinza. Certamente ficarão longe do canal governamental as crises, as mazelas e os atos pouco dignos praticados pelo governo.Assim, o modelo que inspirado governo petista é menos a BBC e mais a TELESUR, o canal governamental do venezuelano Hugo Chávez.

Na verdade, o que o governo fez foi unir os canais educativos já existentes em alguns estados, que mantinham uma relativa autonomia e uma programação menos política e mais cultural e colocá-los sob o controle centralizado do Ministério da Comunicação de Franklin Martins, a presidência da jornalista Tereza Cruvinel, e a direção de jornalismo de Helena Chagas,jornalistas oriundos do Sistema Globo, que sempre se destacaram pelo apoio ao governo Lula como porta vozes informais da verdade do Planalto.

E o preço dessa empreitada não é pequeno. sendo todo ele bancado com o dinheiro do contribuinte.A ampliação da rede significará a contratação nde centenas de funcionários , a aquisição de equipamentos e investimentos em tecnologia, que levarão à estratosfera o custo anual da manutenção da rede oficial de TV

Mas o que mais preocupa é o aspecto político e ideológico deste projeto. Sabe-se que o governo e setores do PT têm reclamado da cobertura que as redes privadas de TV, em especial a rede Globo,tem feito e fazem a defesa do "controle social da mídia" . Ao implementar a rede oficial o governo pretende estabelecer um contraponto ao alcance nacional da Rede Globo e das demais emissoras privadas.Não que a Globo e os demais canais sejam parte de um complô oposicionista. Pelo contrário, ao longo de sua existência eles têm se comportado muito mais como órgãos oficiosos do que como um órgãos comprometidos com o interesse público e com a verdade.

Portanto,apesar de todo o discurso em contrário, o que o governo Lula quer é um poderoso canal que sirva aos propósitos do partido e do governo de se perpetuar no poder sobre os alicerces de uma gigantesca arquitetura de comunicação e de propaganda que só repercuta as verdades que interessem aos propósitos do governo. Afinal, a propaganda é a alma do negócio e a manipulação dos fatos é o segredo do poder.
111207

quarta-feira, dezembro 05, 2007

RENAN E O SENADO SE MERECEM

"Não ha uma só prova contra mim!", parece dizer Renan Calheiros. Por cumplicidade, medo ou conveniência, 51 senadores fingiram que acreditaram nisso, e absolveram Renan...


RENAN E O SENADO SE MERECEM

Por 48 votos contra 29, e quatro abstenções, o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, foi absolvido da acusação de que teria usado laranjas na aquisição de meios de comunicação em Alagoas.

Considerando o seu comportamento padrão nos últimos tempos, o Senado fez o que dele se esperava. Pelo espírito de corpo e pela cumplicidade que prevalece entre os senadores quando se trata de julgar um colega, surpresa seria se tomasse outra atitude que não a absolvição do chefe.

Durante todo o processo que mergulhou o senador alagoano num mar de denúncias que iam desde o recebimento de propina de empreiteira até a espionagem de colegas, passando pelo favorecimento a uma cervejaria e a sociedade secreta com o usineiro João Lira,na aquisição de meios de comunicação, ficou patente que a maioria dos senadores somente se movia no sentido contrário ao de Renan quando a pressão da opinião pública e da mídia era insuportável.

Licenciado da presidência Renan viu arrefecer os ânimos contra ele, e o clima do Senado desanuviar, ao mesmo tempo em que crescia o sentimento generalizado na Casa de que renunciando à presidência ele estaria suficientemente punido.Livre do cerco constante da imprensa e da pressão da opinião pública, que marcaram os meses em que ele esteve sentado na cadeira de presidente, Renan pode gozar de um quase providencial ostracismo, com liberdade para atuar nos bastidores em favor de sua absolvição.

A partir de então, a questão Renan deixou de ser uma questão predominantemente moral e ética, e passou a ser um caso eminentemente político (e imoral ), ou seja, a sua cassação ou não passou a estar condicionada a disputa entre o governo e a oposição pela aprovação da CPMF.

A princípio, o governo quis separar as duas questões com receio de que a volta da discussão sobre o caso Renan contaminasse e jogasse para segundo plano as discussões sobre a prorrogação do imposto. Percebendo que seria impossível divorciar as duas questões, o governo mudou de tática e patrocinou um acordo na sua base de apoio: o PT daria os votos pela absolvição de Renan sob o compromisso do PMDB de votar pela prorrogação do tributo. A primeira parte foi cumprida. Falta a segunda parte.

Justiça seja feita: não se pode culpar exclusivamente o posicionamento da bancada do PT pelo resultado da votação de ontem, embora ele tenha o seu peso. Igualmente contribuíram para o fim trágico, o pífio relatório do senador Jefferson Peres e a dissensão na bancada oposicionista – tucanos e democratas – onde alguns senadores discursaram a favor da ética , mas, na votação secreta, votaram com Renan.

Este Senado e o seu ex-presidente se merecem. Devem pedir desculpas um ao outro pelos transtornos mútuos causados nos últimos meses.O senadores partem, agora, após resolverem o problema da sucessão da presidência , para a decisão sobre a prorrogação da CPMF. Alguém ainda duvida do resultado?
051207

segunda-feira, dezembro 03, 2007

A ARTE DE GOVERNAR É A ARTE DE GASTAR

Apesar da aparente resistência do Senado, a CPMF deverá ser aprovada até o final do ano. Talvez o governo tenha que fazer algumas concessões, mas nada que prejudique a essência (má) desse tributo. Para isso, a máquina do executivo já entrou em ação com toda força para garantir os votos dos que se anunciam indecisos, ou dos que se anunciam contrários ao imposto mas não demonstram muita convicção. E para tal possui argumentos "sólidos": a liberação de uma verba aqui, outra ali, outra acolá; a concessão de um cargo aqui,outro ali, outro acolá, e por aí vai.



A ARTE DE GOVERNAR É A ARTE DE GASTAR

Indo na contramão da racionalidade e do bom senso , o presidente Lula afirma que governar é gastar. E acrescenta que sem muito arrecadar não consegue governar. Usando de uma franqueza despudorada, Lula revela um estilo de governar completamente desconectado dos padrões de probidade, seriedade, racionalidade e bom senso que se espera de um boa gestão dos recursos públicos.

Infelizmente estamos sendo governados por quem acredita que tais recursos jorram de uma fonte inesgotável. A sociedade brasileira tem pago um alto preço por isso. A nossa carga tributária é uma das campeãs mundiais , o que faz com que o país se inclua no ranking dos menos competitivos.
O Brasil carece de uma legislação tributária que coloque disciplina no caos tributário em que estamos metidos.Mas tal disciplina parece não interessar ao governo , pois colocaria ordem e limites na barafunda atual, que permite ao governante criar taxas e contribuições, a seu livre arbítrio.

No atual sistema existem impostos, taxas e contribuições para tudo, mas a eficiência com que os recursos são aplicados é inversamente proporcional ao montante do valor arrecadado, como comprovam o estado de nossas escolas públicas, estradas e hospitais .O maravilhoso país descrito na propaganda governamental e nos discursos do presidente só existe na cabeça dele e do grupo que o cerca

Neste momento, o governo se empenha, como poucas vezes se viu em outra causa, na prorrogação da CPMF. Afirma que é esta é uma causa de vida ou morte, pois que sem ela o país se tornaria ingovernável.Não é bem assim. A política de austeridade fiscal somada ao excesso de arrecadação, que foram marcas do primeiro mandato de Lula , sob a batuta da dupla Palocci e Meirelles, possibilitaram um equilíbrio financeiro que, infelizmente, no atual mandato, o presidente , secundado pelos ministros Guido Mantega e Dilma Roussef, quer implodir.

Exemplo de que o governo não anda com os bolsos vazios foi o anúncio feito pelo Banco Central de que de janeiro a outubro deste ano o setor público atingiu um superávit primário recorde de R$106,6bilhões. O fato é que mesmo sem os recursos da CPMF, a carga tributária continuaria altíssima o suficiente para que o governo pudesse fazer um excelente administração, desde que cortasse gastos, limitasse as despesas com o pessoal e combatesse a corrupção e o desperdício, ou seja, fizesse o dever de casa.. Mas o governo parece não estar disposto a fechar as torneiras por onde entram os tributos e a tapar os ralos do desperdício.

Apesar da aparente resistência do Senado, a CPMF deverá ser aprovada até o final do ano. Talvez o governo tenha que fazer algumas concessões, mas nada que prejudique a essência (má) desse tributo. Para isso, a máquina do executivo já entrou em ação com toda força para garantir os votos dos que se anunciam indecisos, ou dos que se anunciam contrários ao imposto mas não demonstram muita convicção. E para tal possui argumentos "sólidos": a liberação de uma verba aqui, outra ali, outra acolá; a concessão de um cargo aqui,outro ali, outro acolá, e por aí vai.

Quem parece não estar disposto a afinar é o Democratas.Não foi coincidência o fato de o presidente Lula o ter escolhido como o seu inimigo preferencial. Em mais de uma oportunidade na semana passada, o presidente disse que somente "os sonegadores e o PFL" seriam contrários à CPMF. Os democratas ficaram agradecidos ao presidente. Nenhum trabalho de marketing do partido teve tanta eficiência quanto as palavras de Lula, para colocá-los na posição de oposicionistas intransigentes e radicais.Era tudo o que eles queriam. Em contrapartida, ao privilegiar o ex-PFL como inimigo numero um do governo, Lula colocou o PSDB no seu devido lugar: o de um partido oposicionista ma non troppo,ou seja, o de um partido disposto a ceder.

Portanto, neste trabalho de cooptação de senadores para a sua causa , o governo conta com algumas deserções na bancada oposicionista por força da pressão dos quatro governadores tucanos- Aécio Neves (MG), José Serra (SP), Yeda Crusius (RS), e Cássio Cunha Lima (PB) -, tão interessados quanto Lula na manutenção do tributo.Tal qual o presidente, eles receiam que sem os recursos tenham dificuldades de governar os seus estados. Além disso, Serra e Aécio , de olho em 2011, não querem começar um eventual mandato presidencial sem esta fonte de recursos.

Como se pode ver, a perspectiva do poder faz com que os tucanos falem grosso no Senado, mas afinem o seu discurso na hora de negociar com o Planalto.E é acreditando no colaboracionismo tucano que o governo acredita que os fartos recursos da CPMF farão parte dos orçamentos até o ano de 2011. Sendo assim, o governo continuará a tentar nos convencer de que a arte de (bem) governar é a arte de (muito) gastar.
031207