segunda-feira, novembro 19, 2007

O SENADO NA BERLINDA

O Senado caminha para o encerramento de 2007 com uma rara oportunidade de se redimir dos pecados acumulados ao longo do ano. Para isto, bastaria tomar uma atitude altiva, em consonância com o que deseja a sociedade, ou seja, eliminar do panorama político e econômico do país duas excrescências: o senador Renan Calheiros, símbolo do que de mais atrasado e corrupto existe na política brasileira, e a CPMF, símbolo do que de mais atrasado e injusto existe na economia brasileira.


O que a sociedade quer nem sempre é o que o governo e os parlamentares querem. O Senado tem a última chance de se redimir dos pecados acumulados neste ano...

O SENADO NA BERLINDA
O Senado Federal foi , ao longo deste ano, o centro das atenções como palco de uma sucessão de atos e fatos pouco dignos e que acabaram por colocar em dúvida a própria necessidade de sua existência como instituição republicana. Pois agora, ao findar o ano político, o Senado permanece na berlinda em razão de duas questões importantes , cujas decisões estão nas suas mãos: a aprovação, ou não, da CPMF; e a cassação, ou não, do senador Renan Calheiros.

Os ânimos se exaltaram entre os partidários do governo e os oposicionistas justamente porque estes duas questões, que caminhavam paralelos, se interpenetraram e se tornaram peças de uma mesma engrenagem, de tal forma que a decisão sobre uma depende da decisão sobre a outra.Não era o que o governo queria. A ele não interessa essa interposição dos dois fatos, é claro. A oposição sabe disto e, por isto, quer que um fato se sobreponha ao outro, ou seja, quer que a decisão sobre o destino da CPMF venha apenas depois da decisão sobre o caso Renan. O governo teme que esta confusão dos fatos provoque a derrubada da CPMF, o que significaria a retirada, das mãos do governo, de recursos da ordem de R$40 bilhões.

Para evitar a procrastinação, o governo age no sentido de descolar o caso Renan das negociações em torno do imposto. O governo quer priorizar a votação da CPMF e adiar o julgamento de Renan com a conseqüente e imediata abertura do processo de sucessão da presidência da Casa.Para isto,foi sugerido a Renan, por exemplo, que prorrogue a sua licença da presidência por mais um período, a fim de evitar que a sua renúncia precipite as discussões sobre a sua sucessão, colocando de vez para escanteio a votação da CPMF. Em troca, o governo garantiria a Renan a sua absolvição no julgamento em plenário, com os votos da bancada petista.

Neste embate entre governo e oposição pela manutenção ou não da CPMF, um pequeno, porém decisivo, grupo de senadores tem a faca e o queijo nas mãos. São os que mesmo pertencendo à base aliada tendem a votar com a oposição.São senadores do PMDB, do PTB e do PDT, que não passam de uma dezena, mas que certamente terão um peso decisivo na aprovação de uma emenda constitucional que necessitará de três quintos - 49 votos – do Senado para a aprovação.

Em contrapartida, o governo trabalha com a possibilidade de que alguns senadores da oposição venham a compor com o time do governo por pressão dos seus governadores – Aécio Neves à frente – de olho na sua parcela quando da divisão do butim. Por evidente temor da opinião pública este grupo de senadores oposicionistas ainda não veio à luz externar a sua tendência.

O fato é que o Senado caminha para o encerramento de 2007 com uma rara oportunidade de se redimir dos pecados acumulados ao longo do ano. Para isto, bastaria tomar uma atitude altiva, em consonância com o que deseja a sociedade, ou seja, eliminar do panorama político e econômico do país duas excrescências: o senador Renan Calheiros, símbolo do que de mais atrasado e corrupto existe na política brasileira, e a CPMF, símbolo do que de mais atrasado e injusto existe na economia brasileira.

Mas eu duvido que o Senado Federal seja capaz de uma atitude que contrarie tão frontalmente o que ele foi ao longo de todo este ano, ou seja, o retrato da corrupção, da falta de ética, do corporativismo canhestro. É quase certo que terminaremos o ano tendo que engolir a CPMF até 2011, e o senador Renan Calheiros, pelo menos, até 2010.
191107

9 comentários:

rosena disse...

Fernando, com certeza Renan vai escapar de novo, com certeza a cpamf vai ser prorrogada, e com certeza o Lulla vai querer um terceiro mandato...

Sergio pontes disse...

Acho que a absolvição de Renan vai ser uma DESCULPA para a prorrogação da CPMF e esta vai ser uma DESCULPA para não se cassar Renan.Depois vem o recesso e o carnaval e no ano que vem todos terão esquecido o que se passou no senado.Assim é o Brasil

Rebeca disse...

Aahhhhh Fernando!!!!!!
Se o Brasil fosse um país sério,
Se nossos políticos fossem sérios,
Se o povo brasileiro fosse um cidadão consciente,
E se... e se.... tantos ses...
O que você cita em seu artigo como “ideal” seria simplesmente real.
É isto que esperamos de nossos políticos: serem honestos, punir a quem deva punir.
E do governo Lula que haja e faça tudo aquilo que ele prometeu em tantas campanhas eleitorais. E que nossos impostos sejam justos e que fossem bem aplicados.
Todos nós agradeceríamos.

Assaltando o povo disse...

Assalto Caro Fernando Soares
TERRORISMO impressionante praticado o tempo todo, pra aprovar o CPMF!!! Porque será que o Lula faz tanta questão disso? Nem Bin Laden seria capaz de tanto terrorismo, nem arquitetar uma "arapuca" matemática desse tipo (e a matemática e ciência exata). O Lula já podia parar com essas "violências", porque acredito que já "comprou" senadores suficientes para aprovar a CPMF. Assim, teremos saúde, segurança, transportes, educação, energia, tudo do bom e do melhor (ha ha hah) como nos países do 1o. mundo (que não fazem idiotices como a CPMF). E ainda ficamos falando mal e fazendo passeatas contra esses países.

cetico incredulo descrente disse...

Renan está muiot tranquilo para quem está prestes a ter colocado seu mandato em discussão. acho que essa tranquilidade não é sem sentido. deve estar tudo resolvido por lá, e nós, babacas que somos , ainda achando que ele irá ser cortado do pedestal
É muito engraçada esta nossa política e se vocês atentarem para alguns detalhes vocês vão lembrar que já viram este filme antes, e exatamente no cinema, em que este mêdo mútuo de traição é caracteristico de quadrilhas que se unem para qualquer roubo e partilha de botim.
É isto aí pessoal vamos aguardar o desfecho para ver qual maracutaia foi usada.

nidia disse...

Olá Fernando
Impressionante como as coisas não mudam. Continuamos passivos e inertes...
É colega, esse filme nós já vimos e como diz o JÔ Soares, a gente morre no final.
Um abraço

Anônimo disse...

Diferenças nas semelhanças O mensalão petista e o valerioduto mineiro têm em comum denúncias apresentadas ao Supremo Tribunal Federal. Mas guardam diferença crucial na forma como o procurador-geral cavou para achar os responsáveis. A Folha de S. Paulo compara muito bem as duas peças. No caso mineiro, o então governador de MG, Eduardo Azeredo (PSDB), foi citado 167 vezes na denúncia de 89 páginas; Lula, apareceu no processo do mensalão apenas três vezes e sem ser responsabilizado. O procurador não tem dúvidas de que Azeredo foi o principal beneficiário do esquema. Mas, ao mesmo tempo, não responde quem foi o maior beneficiado do mensalão petista. A ação do procurador no presente ressalta ainda mais a omissão passada. Postado por Roberto Jefferson às 12:00 [0 Comentários] [Envie esta mensagem] FERNANDO SERA QUE NAO SE PODE ENTRAR COM REPRESENTACAO CONTRA O PROCURADOR-GERAL POR CRIME DE OMISSAO NO MENSALAO E DISCRIMINACAO NO CASO DO AZEREDO-MG.

Anônimo disse...

A Mídia do Golpe
Caracterizei ontem aqui a “Mídia do Contragolpe”, aquela à qual pertenço. Sou grato a vocês pelo esforço. Já vi que o texto está circulando por aí. Continuem a multiplicá-lo. E mandem brasa neste também. Os leitores, como não poderia deixar de ser, cobraram-me que caracterizasse, então, a Mídia do Golpe. Acho pertinente.

- A Mídia do Golpe obtém a maior fatia de seu faturamento com anúncios oficiais ou de estatais.
- A Mídia do Golpe se mete em disputas de gângsteres privados e adere, por motivos de caixa, a um dos lados e passa a demonizar o outro.
- A Mídia do Golpe tem dois grandes inimigos: a revista VEJA e a Rede Globo.
- A Mídia do Golpe acha que a VEJA e a Rede Globo são líderes em suas respectivas áreas por causa de seus defeitos, não de suas qualidades.
- A Mídia do Golpe ora acusa a VEJA e a Rede Globo de tentações monopolistas, ora espalha o boato de que estão em severas dificuldades.
- A Mídia do Golpe defende firmemente que é preciso mudar o comando de jornalismo da VEJA e da Rede Globo. E ela só faz essas sugestões porque, é claro, é generosa com seus inimigos.
- A Mídia do Golpe transforma a defesa de quem lhe garante o sustento em princípio ideológico.
- A Mídia do Golpe é simpática a plebiscitos e referendos — menos sobre questões em que a esquerda sairia derrotada.
- A Mídia do Golpe até cria prêmios para premiar a... Mídia do Golpe, num caso definido em psicanálise jornalística como “Onanismo Golpista”.
- A Mídia do Golpe, finalmente, não precisa de leitores. Só de patrocinadores. E o maior deles é você, que não lê a Mídia do Golpe: é o seu dinheiro que paga a conta.

É importante destacar que há veículos que são de natureza golpista, conforme se vê acima. E há outros que, mesmo pertencendo à turma do Contragolpe, estão infiltrados pelo golpismo.

- Os golpistas infiltrados exaltam as virtudes da ignorância. E quem resiste à sua pantomima é tachado de preconceituoso.
- Os golpistas infiltrados estão sempre à caça de “reacionários”, a terrível “direita” que impediria o Brasil de ser uma “verdadeira democracia”.
- Os golpistas infiltrados acreditam que a “verdadeira democracia” nunca é aquela que está consubstanciada nas leis, mas a que se opera à margem dela.
- Os golpistas infiltrados também odeiam a VEJA e a Rede Globo.
- Os golpistas infiltrados vêem Edir Macedo como uma espécie de nova aurora da comunicação.
- Os golpistas infiltrados acreditam que a única crítica legítima a Lula é aquela se faz pela esquerda.
- Os golpistas infiltrados são incapazes de falar mal do governo Lula sem demonstrar que, bem..., tudo começou com FHC.
- Os golpistas infiltrados sabem o que Lula conversa “reservadamente” até na cama, com Dona Marisa Letícia.
- Ah, sim: tanto a Mídia do Golpe como os golpistas infiltrados têm uma atração irresistível por porcos fedorentos e homicidas.

Por enquanto, tá bom. Abaixo, em azul, republico o post de ontem intitulado “A Mídia do Contragolpe”.

E a Al Qaeda eletrônica prossegue com a sua Pirâmide da Impostura contra a VEJA, o Diogo, o Reinaldo, a “mídia golpista”... Hoje, até o momento em que escrevo este texto, recebi 1.365 comentários. Uns, sei lá, 40% vêm da terra dos mortos. Uns 10%, talvez, não puderam ser publicados porque, mesmo dizendo as coisas certas, os leitores exageram na impaciência. Compreendo, mas volto a recomendar moderação. “Mídia golpista”? Não: somos é a frente avançada — e avançada mesmo, porque estamos na liderança (e notem que não escrevi “vanguarda”, já explico por quê) — da “mídia do contragolpe”. É isto: de hoje em diante, leitores, nós somos a liderança do contragolpe.

Golpista é querer fazer do roubo uma ideologia.
Golpista é sustentar que as urnas dão ao vitorioso o direito de esbulhar as leis.
Golpista é usar a democracia para solapar a democracia.
Golpista é propor arranjos de cúpula em que os malandros se protegem contra os interesses do país e o espírito das leis.
Golpista é defender a Constituição com a mão direita e tentar fraudá-la com a mão esquerda.
Golpista é tentar fazer com que definições particulares de justiça corroam o estado de direito.
Golpista é aparelhar o estado.
Golpista é promover “eugenia ideológica” em órgãos públicos.
Golpista é separar o joio do trigo e escolher o joio.
Golpista é defender tiranias e ditaduras.

Somos a mídia do contragolpe.
Da Constituição democrática.
Dos métodos democráticos de mudar uma constituição democrática.
Da liberdade de expressão.
Do direito à plena informação.
Da verdade que não se deixa velar pela fantasia ideológica.
Do triunfo do fato sobre a empulhação da suposta redenção dos oprimidos.
Da sociedade dos homens livres, não-subordinados a corporações de ofício.
Das liberdades individuais.
Da livre empresa.
Do estado em minúscula.
Do Indivíduo em maiúscula.

E, por isso, estamos na liderança. Na revista. No blog. No colunismo. E falei “liderança”, não falei “vanguarda”. Porque a “vanguarda” vai muito adiante dos seus, com quem não dialoga. E o jornalismo de VEJA, o blog, os colunistas falam a uma massa imensa de leitores. Leitores que comungam de seus mesmos princípios. Leitores em número sempre crescente.

Há um esforço enorme de intimidação. Tocadores de saxofone do petralhismo, que ainda serão promovidos a tocadores de tuba, abusam da ignorância da claque, mantendo-a na trevas da ignorância. São herdeiros de um tempo em que a informação só chegava a um grande número de pessoas depois de filtrada pelo “establishment” esquerdopata. Esse tempo acabou. Estamos diante dos estertores das baleias encalhadas. Morrerão na praia da impostura. São pesadas e estúpidas demais para dar meia-volta.

Querem acuar a “mídia do contragolpe”. Usam para tanto, a desqualificação, o boato, a mentira, os aparelhos de representação corporativa no qual se aboletam, faceiros, sugando os recursos de um país pobre em benefício de benesses disfarçadas de ideologia. Mas não acuam ninguém.

Somos a mídia do contragolpe. Não há nisso vocação missionária porque “missionários” são eles; sectários são eles; heréticos são eles. Continuaremos na liderança porque acreditamos, de fato, que a verdade liberta o homem da ignorância e do atraso e o protege das tiranias.

E sei bem: para “eles”, nada pode ser mais irritante. Que isso valha por um pequeno manifesto. Multipliquem este texto. Eles que se calem. Porque, é claro, nós falamos. Em defesa da democracia e do estado de direito.


Por Reinaldo Azevedo

Anônimo disse...

NOSSO CONTEXTO: ->

Ainda FHC, Lula, os educados e os tontons-macoutes do petismo
Lula nem precisa devolver a FHC a crítica que este lhe fez no congresso do PSDB — aquela história de dizer que os tucanos são gente que “trabalha e estuda, que estuda e trabalha”. Os tontons-macoutes do petismo na imprensa já o fizeram — e, como não poderia deixar de ser, pelo viés da luta de classes. Assim, o atual presidente e o ex pertenceriam a classes sociais distintas, e o tucano, então, expressou só uma forma de preconceito. Segundo a professora petista Maria Victória Benevides, tudo não passou de “inveja”. Os peões do partido ainda não decidiram se contra-atacam com o Lula vitorioso ou com o Lula vítima. FHC, ademais, escorregou no “melhor educados”, forma admitida por alguns (eu não admito), em vez de “mais bem educados”. Talvez essa lição pegue — e quem sabe os jornais, que estão obrigados a seguir a norma culta, parem de errar.

O debate no Brasil é miserável, sim. Mas não por causa de FHC. Entre 1995, seu primeiro ano de mandato, e 2002, o último, ninguém apanhou no Brasil mais do que ele, especialmente de certas correntes universitárias que iam de um niilismo pseudo-ilustrado — o filósofo Paulo Arantes, que prefere a morte a ser claro — ao petismo mais instrumental, cujo objetivo era desmoralizar o governo junto aos chamados setores formadores de opinião, oferecendo, no lugar, um certo socialismo libertário: alguns o fizeram com nenhuma bibliografia, como Emir Sader; outros, como Marilena Chaui, com o concurso de algumas notas de rodapé. De qualquer modo, a ordem era fazer tábula rasa de toda e qualquer medida do governo.

Tenho aqui toda a coleção Zero à Esquerda. Lida e anotada. Por onde andará, por exemplo, José Luis Fiori, sempre convocado a prever o apocalipse e o desastre do país por causa do Plano Real? As conquistas agora, de Lula, que tanta "inveja" causariam a FHC, vejam vocês, são conseqüência de tudo aquilo que Fiori, Arantes, Chaui, Maria da Conceição Tavares e Sader, entre outros, sustentaram que não daria certo. E com ampla cobertura da mídia isenta e crítica. Ainda bem. Seu papel e mesmo promover o debate.

Sim, tenho meus pontos de vista. Bato pesado se acho necessário. E apanho idem. Mas não sou desonesto intelectualmente. O apocalipse que seria provocado pelo Plano Real falhou. Que não se reconheça a importância de FHC no processo de eliminação da inflação na economia brasileira — e, para dar o salto de qualidade, o país não precisou mergulhar na anomia, como aconteceu na Argentina — e no ordenamento institucional que resultaram em bons frutos para Lula é, sim, matéria que diz respeito à moral — ou, mais propriamente, à imoralidade.

Aos poucos, nos dias vindouros, publicarei aqui trechos das previsões apocalípticas que então se faziam. E como FHC apanhava bonito! E o mais curioso é que apanhava justamente por ser um “intelectual”, que tinha, de fato, para lembrar expressão de um amigo seu, “certa herança marxista”. No front um pouco mais elitizado da crítica, era tratado como traidor; Lula, ele mesmo, fazia troça do então presidente por conta de sua formação universitária. A FHC se atribui, de modo canalha, uma frase que nunca disse porque não teria necessidade de dizê-lo: “Esqueçam o que eu escrevi”. Esquecer por quê?

E nunca se apontou “preconceito” nenhum. Porque, no fim das contas, um iletrado ironizar um letrado se confunde com ato de resistência; já o contrário só pode ser manifestação de prepotência. Mesmo quando o iletrado atribui as virtudes de seu governo a um defeito — a sua pouca formação — e não a uma qualidade: a prudência. Sim. Lula foi prudente ao ouvir, por exemplo, Antonio Palocci em vez de Aloizio Mercadante. E isso foi uma qualidade. E Palocci foi prudente ao ouvir, por exemplo, o brilhante Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica, em vez de Guido Mantega. E isso também foi positivo. Mas nada disso Lula fez com a sua ignorância. Isso, ele fez com a sua sabedoria.

José Múcio, atual ministro das Relações Internacionais e político da base governista quando FHC era presidente, lembrou o que chamou de “sistema americano”, segundo o qual o ex-presidente não deveria falar. Homem sábio esse Múcio. Esqueceu-se, no entanto, que jamais se viu um mandatário americano atribuir a um ex as dificuldades que atravessa. Aliás, nem o malhado Bush — pesquisem para comprovar o que digo — se atreve a personalizar atos de governo. Para coisas boas ou ruins, o sujeito da frase é sempre “a América”. E Lula? Vive de demonizar o passado. Tentem encontrar um miserável reconhecimento que seja a seu antecessor. Nada! Vá lá. É quem é. Mas o que dizer de uma professora paga com dinheiro do estado, Maria Victória, a apontar a “inveja” do ex? Inveja, agora, virou categoria política. O debate ideológico é coisa de salão de cabeleireiro. FHC está apanhando porque se nega a apanhar calado. É um acinte.

E vejam como são as coisas: eu, porque escrevo isso, serei tachado pelos petistas de “fernandista”, “tucano” ou sei lá o quê. Como de hábito — e como se eu desse bola... Mas quem escreve o contrário, evidentemente, não é nem “lulista” nem “petista”. É neutro. Estamos diante de uma nova categoria do pensamento acadêmico e até da prática jornalística: a chamada neutralidade a favor (do governo) e contra os partidos da oposição: estes, quando não são preconceituosos, são golpistas.

Mangar de FHC porque a norma culta diz ser preferível o “mais bem” ao “melhor” antes de um particípio empregado como adjetivo é dar ao intelectual prepotente uma lição; pegar no pé de Lula por conta de suas batatadas diárias é preconceito; quando FHC, no passado, fez a aliança com o PFL, estava traindo a sua trajetória intelectual; ter Lula, como aliada, a escória do que antes se chamava “direita” é ato de realismo político. Os petistas lançam no mercado político — como os jornais noticiaram à farta — o balão de ensaio do terceiro mandato, mas quem apanha é a “oposição”, com seus supostos pendores “venezuelanos”.

Muitos leitores mais conservadores do que eu reclamam quando aplaudo FHC. E aplaudo mesmo. Tenho certa confiança — algum otimismo é preciso — de que o pensamento ainda não morreu no país. O tempo se encarregará de deixar registrado que, numa América Latina que mergulhou no caos ou no populismo no tempo em que ele foi presidente, o Brasil só avançou institucionalmente. E é aquele avanço que impede que a situação política no país degenere para alguma forma autoritária de “democracia” dita “popular”. Parte da imprensa, infelizmente, se rendeu à versão cabocla do Tirano de Siracusa. Criticar FHC era mister da academia e do jornalismo. Criticar Lula é sabotagem e preconceito de classe.

Não para a Mídia do Contragolpe.


Por Reinaldo Azevedo