quarta-feira, outubro 31, 2007

JOGANDO NO CAMPO DO GOVERNO

A discussão sobre a prorrogação da CPMF no Senado seria uma ótima oportunidade para que a sociedade manifestasse, de forma contundente, a sua contrariedade em relação à opressão tributária a que está submetida.Infelizmente, a discussão do tema no Congresso parece ser do interesse de meia dúzia de iluminados e o tema , que afeta diretamente toda a sociedade, parece empolgar menos do que a escolha do Brasil como sede da Copa do mundo no distante 2014.



O MANTO DA IMPUNIDADE

A Mesa Diretora do Senado decidiu que o senador tucano Eduardo Azeredo não pode ser julgado no Conselho de Ética, sob o argumento de que a prática pela qual havia sido representado pelo PSOL -utilização de caixa dois na campanha eleitoral de 1998 - havia ocorrido antes de assumir o mandato como senador.Era de se esperar que assim acontecesse.

No auge da crise do valerioduto - mensalão, quando ficou evidente o comprometimento da cúpula petista e do alto escalão do governo Lula com práticas pouco dignificantes, e quando tudo indicava que a crise poderia bater na porta do presidente Lula, descobriu-se que um esquema semelhante protagonizado pelo mesmo Marcos Valério já havia sido praticado em Minas por ocasião das eleições para o governo do Estado em 1998, que beneficiava o candidato à reeleição, governador Eduardo Azeredo , do PSDB. Foi o que bastou para que a cúpula tucana , até então contundente no ataque ao governo petista,se recolhesse, arrefecesse os ânimos e permitisse que Lula fosse poupado.Agora, o PT, empenhado na prorrogação da CPMF, retribui com um favor a complacência demonstrada pelos tucanos naquela ocasião, e poupa o senador Mineiro de um processo de cassação.

Era de se esperar que isto acontecesse, não somente para se criar um clima propício para a aprovação da CPMF no Senado, mas também porque existe um acordo tácito entre os partidos brasileiros visando cobrir com o manto da impunidade suas principais figuras apanhadas em alguma travessura. Eduardo Azeredo é uma destas figuras. Foi governador de Minas, presidente do seu partido, e é considerada uma das figuras da elite política..No Brasil, criou-se entre os políticos a cultura de que o pecado de alguns é perdoado pelo pecado de outros.

Tem sido assim sempre. As práticas antiéticas da política brasileira são comuns a todos os partidos e a todos os escalões de nossa vida pública. Partidos e políticos que há pouco tempo se mostravam como guardiões da ética , da moral e dos bons costumes , agora se apresentam se mostraram tão especializados em práticas delituosas quanto os partidos e políticos que eles combatiam. Talvez por isto não cause tanto espanto o espírito de corpo e a cumplicidade com que uns tratam as mazelas dos outros. Afinal são todos pecadores. Não se deve, portanto, esperar que o senador Eduardo Azeredo e todos os figurões envolvidos no escândalo do valerioduto mineiro -entre eles se destaca Mares Guia, atual Ministro das Relações |Institucionais do governo Lula - sejam punidos.


A passividade e a alienação política da sociedade são as maiores responsáveis pela impunidade no mundo político. É sintomático que quando a sociedade se manifesta, mesmo que de forma tímida, o seu repúdio ao comportamento antiético de muitos políticos eles de alguma forma agem no sentido de dar uma satisfação à sociedade. Foi o que aconteceu no caso de Renan Calheiros, que teve grande repercussão na mídia e causou protestos em parcelas da sociedade.Mas foi uma exceção. Na maioria dos casos , os escândalos se sucedem e a sociedade permanece muda o que dá ensejo para que tais práticas se renovem indefinidamente.

JOGANDO NO CAMPO DO GOVERNO
Mais uma vez, o Congresso tem uma grande oportunidade de caminhar no mesmo sentido da sociedade. Mas tudo indica que mais uma vez vai caminhar na direção contrária.O governo insiste na manutenção da CPMF, argumenta que sem ela o país ficará ingovernável, não dá um passo sequer na direção da reforma tributária, e, mais ainda, não faz o dever de casa no sentido de uma rigorosa redução de gastos na máquina pública.

O PSDB,principal partido de oposição, mas de olho na possibilidade de ser poder a partir de 2011, faz um discurso crítico em relação à prorrogação do tributo, mas trabalha no sentido de compor com o governo petista um acordo que atenda os interesses de ambos.Neste sentido, os tucanos reivindicam algumas alterações no texto original, que está sob exame no Senado. Qurem reduzir a alíquota do tributo, destinar uma parcela maior para o setor da Saúde, e repartir o que for arrecadado entre os estados.

Na verdade, os tucanos dão uma no cravo e outra na ferradura. Ao mesmo tempo em que tendem convencer o público em geral de que são contrários ao tributo e ao aumento da carga tributária, trabalham com o governo pela sua manutenção, porque acreditam, assim como o PT, de que é impossível governar sem ele.

O DEM, outro partido de oposição, tenta compatibilizar o seu discurso com a prática. Apresentando-se como radicalmente contrário à prorrogação do tributo , fechou questão e não está disposto a negociar com o governo. Pelo menos a sua postura traduz o sentimento da maioria da sociedade que não suporta uma carga de impostos tão pesada agravada pela total ausência da contrapartida governamental em serviços de qualidade. Pelo contrário, assiste o suceder de notícias que dão conta do descontrole, do desperdício e da malversação dos recursos arrecadados.

O governo petista, como sempre faz, não dá ouvidos para as críticas que lhe são dirigidas e insiste em dizer que o peso da carga tributária condiz com o tamanho da máquina governamental , e esta condiz com as necessidades do país, e que assim deve ser para que o governo promova as reforma sociais. Pura balela.

A discussão sobre a prorrogação da CPMF no Senado seria uma ótima oportunidade para que a sociedade manifestasse, de forma contundente, a sua contrariedade em relação à opressão tributária a que está submetida.Infelizmente, a discussão do tema no Congresso parece ser do interesse de meia dúzia de iluminados e o tema , que afeta diretamente toda a sociedade, parece empolgar menos do que a escolha do Brasil como sede da Copa do mundo no distante 2014..

O governo não terá, pois, dificuldades para aprovar a permanência do imposto. As alterações propostas pela oposição certamente não mudarão a sua essência. Mais uma vez, a velha troca de favores, a oferta de cargos e de vantagens prevalecerão sobre a discussão de principios e de idéias.No campo de fisiologismo, o governo é especialista.A batalha travada no Senado se dá neste campo. A vitória do governo, portanto, é certa.
311007

quarta-feira, outubro 24, 2007

AS TAREFAS URGENTES DO SENADO

Os senadores têm duas tarefas intrincadas para resolver: a primeira é a votação da prorrogação da CPMF, que o governo quer aprovar, mas a maioria da sociedade rejeita; a segunda é dar um destino a Renan Calheiros, cuja cassação a maioria da sociedade quer, mas alguns ainda rejeitam.


Os principais líderes do Senado:sobre eles ainda paira o fantasma de Renan.
AS TAREFAS URGENTES DO SENADO

O afastamento de Renan da presidência do Senado, sob pressão do governo, criou um aparente clima de paz , mas não resolveu a questão. Renan continua senador, e carrega nas costas o peso de quatro representações no Conselho de Ética. Tentando aliviar o clima e negociando nos bastidores a sua absolvição, Renan se licenciou por alguns dias de suas funções como senador.Mesmo afastado da presidência , a sua presença em plenário durante o processo de votação da CPMF causaria constrangimentos, voltaria a acirrar os ânimos, e seria prejudicial aos interesses do governo. A sua licença foi, portanto, providencial.

Na primeira semana após o seu afastamento, o Senado, sob a presidência do petista Tião Viana, respirou um clima de alívio e pode fazer o que há muito não fazia , ou seja, trabalhar.Após meses exibindo cenas de atentado explícito ao decoro, os senadores parecem ter tomado juízo e procuraram demonstrar que , quando querem, é possível cumprir as suas obrigações constitucionais.

Mas os senadores têm duas tarefas intrincadas para resolver: a primeira é a votação da prorrogação da CPMF, que o governo quer aprovar, mas a maioria da sociedade rejeita; a segunda é dar um destino a Renan Calheiros, cuja cassação a maioria da sociedade quer, mas alguns ainda rejeitam.

Na questão relativa à CPMF, a oposição se dividiu. O PSDB, por interesse dos governadores tucanos e por uma velha e conhecida tendência a ser transigente quando não deve ser, tenta negociar com o governo uma gradativa redução da alíquota, a desoneração tributária e a redistribuição dos recursos entre os estados. O DEM, mostrando mais coerência entre o que prega e o que pratica, tomou uma posição mais radical: não quer a prorrogação do imposto , e fechou questão neste sentido.

Na questão relativa a Renan Calheiros, é visível o constrangimento geral.Os senadores têm a faca e o queijo nas mãos mas não sabem o que fazer com eles. O presidente licenciado parece estar convencido de que agora é impossível o seu retorno â cadeira presidencial. Tenta , então, negociar a sua absolvição nos processos que estão sub judice e manter o seu mandato. Para isto conta com a cumplicidade dos três relatores – o relator do quarto processo ainda não foi escolhido – que, sob o argumento de que faltam provas para a sua condenação, estão colocando a pizza no forno.

O Senado, portanto, se coloca diante de um dilema: se absolver Renan, ficará difícil explicar ao público em geral a razão do seu afastamento da presidência. O que reforçará a tese de seus defensores de que tudo não passou de um golpe para tirá-lo do poder. Por outro lado, a sua condenação definitiva gera outra espécie de temor em muitos senadores : o de que Renan, perdido por mil, poderá finalmente concretizar a promessa, tantas vezes insinuada, de trazer a público muito do que ele sabe sob a vida pública , privada e íntima de grande parte dos seus colegas. E não são, com certeza, fatos abonadores para grande parte deles.

O Senado está, portanto, diante da obrigação moral de dar prosseguimento à tarefa que iniciou.Não pode perder o fôlego. Caso contrário, as raras semanas em que os senadores trabalharam cairá no vazio e o Senado voltará à sua rotina de muita intriga e pouca produtividade.
241007

segunda-feira, outubro 22, 2007

DÁ PRA COMEMORAR?

Ao ampliar e incorporar os diversos programas sociais do governo de FHC sob a rubrica de Programa Bolsa Família, o governo petista encontrou o mapa da mina quando percebeu que num país constituído por milhões de pessoas socialmente carentes, desempregadas e desinformadas seria mais fácil dar-lhes uma espécie de esmola mensal do que implementar políticas sociais consistentes nos campos da educação, saúde e saneamento básico, e desenvolvimento econômico para a geração de empregos.


Lula e uma beneficiária do Bolsa Família: aonde vai dar este esmolismo oficial?

DÁ PRÁ COMEMORAR?

O programa Bolsa Família completou, sábado, quatro anos de vida. Considerado pelo governo como um importante instrumento de distribuição de renda, o programa é a síntese de toda a política social do governo Lula.O que, apesar da grandiosidade dos números, não significa muita coisa em termos de resultados consistentes.

Nas décadas em que foi oposição, o PT e seu líder , verbalizando o velho e radical discurso em defesa da classe trabalhadora e dos oprimidos em geral, sempre mantiveram uma posição de crítica e de desprezo em relação às políticas sociais de cunho meramente assistencialistas. Ideologicamente, o partido transitou do socialismo -que defende a incorporação dos meios de ´produção pelo Estado como forma de promover o igualitarismo social - para a social democracia - que defende a intervenção do Estado na economia e na sociedade como forma de promoção de bem-estar social. Jamais se ouviu, então,da boca do PT, a defesa de um estado prioritariamente assistencialista, que a prática do governo petista tornou padrão e modelo.

Pouco após assumir o governo, em 2003, ainda em meio a massiva propaganda que tentava nos convencer de que o programa "Fome Zero" acabaria com a miséria do Brasil, o presidente disse que era fácil governar para os pobres: "eles se satisfazem com pouco, não reclamam e não vão a Brasília reivindicar". Estava na prática, inaugurando a fórmula simplista de governar tomando recursos da sociedade- em especial da classe média - e simplesmente transferindo uma parte destes para os cadastrados em seu programa.

De fato, ao ampliar e incorporar os diversos programas sociais do governo de FHC sob a rubrica de Programa Bolsa Família. o governo petista encontrou o mapa da mina, quando percebeu que num país constituído por milhões de pessoas socialmente carentes, desempregadas e desinformadas seria mais fácil dar-lhes uma espécie de esmola mensal do que implementar políticas sociais consistentes nos campos da educação, saúde e saneamento básico, e desenvolvimento econômico para a geração de empregos.

Mas o governo tenta fazer a defesa do seu programa e critica os que o criticam.. Argumenta que ele tem aumentado a renda das camadas mais pobres e incrementado as atividades econômicas nas comunidades carentes, pelo aumento da circulação de dinheiro.De acordo com os dados do Ministério do Desenvolvimento Social, atualmente, 11 milhões de famílias -mais de 45 milhões de pessoas - são beneficiadas com o programa. São números, de fato, impressionantes, mas que ao invés de nos fazer regozijar, nos enchem de preocupação, pois ,a meu ver, o que este esmolismo oficial patrocinado com dinheiro dos nossos impostos, tem possibilitado é a multiplicação de cidadãos dependentes, acomodados, desmotivados para o trabalho e o estudo, e sem a perspectiva de um futuro efetivamente melhor, o que somente se daria se , em lugar da esmola mensal, lhes fossem oferecidos educação de qualidade e emprego.

O outro aspecto negativo do assistencialismo petista é o seu caráter eminentemente eleitoreiro. Ao ampliar o programa , aumentando o número de pessoas beneficiadas,Lula nada faz do que assegurar e aumentar o seu eleitorado ,ou seja, gente disposta a assegurar-lhe sucessivos mandatos, tanto em sinal de agradecimento pela dádiva governamental, como pelo medo de que sua substituição por outro governante e por outro partido signifique o fim desta dádiva. Lula e os seus partidários não têm feito outra coisa senão usar do programa como instrumento de chantagem eleitoral , quando insinua- conforme fez na última campanha – que uma vitória da oposição significaria o fim dos benefícios.A oposição, talvez por não ter um programa social alternativo e consistente a oferecer, cai na armadilha e repete que não tem intenção de acabar com o programa petista, mas apenas “aprimora-lo”.

Portanto, a política assistencialista do governo lulo-petista não passa de um gigantesco engodo e é péssima para o futuro do Brasil.É péssima sob o ponto de vista social, porque muito antes de possibilitar o resgate de milhões de pessoas da condição de marginalidade social em que se encontram, possibilita a permanência destas pessoas nesta condição, com a agravante de leva-las ao acomodamento e à dependência. É péssima sob o ponto de vista político, porque serve de instrumento de chantagem eleitoral para a perpetuação no poder de um partido e de um governante.

Por fim, o que o governo vê como motivo de júbilo deve ser motivo de constrangimento para os cidadãos conscientes deste país.Permanece mais atual do que nunca os versos da música “Vozes da Seca” de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, por traduzir com exatidão este sentimento: ‘Seu dotô, uma esmola a um pobre que é são, ou lhe mata de vergonha , ou vicia o cidadão”. Infelizmente, falta vergonha a muitos neste país.
221007

segunda-feira, outubro 15, 2007

CARTA FORA DO BARALHO

Renan Calheiros deixou a presidência do Senado forçado não por uma ação coletiva dos seus pares, mas por uma determinação do chefe do poder Executivo. O afastamento de Renan Calheiros não se deveu, portanto, a um repentino e surpreendente surto de moral, ética e civismo entre os seus colegas, mas a uma razão de ordem pragmática, ou seja, a necessidade do governo de aprovar a prorrogação da CPMF, sem a qual ele se julga incapaz de governar o País nos próximos anos.



CARTA FORA DO BARALHO

Renan Calheiros deixou a presidência do Senado forçado não por uma ação coletiva dos seus pares, mas por uma determinação do chefe do poder Executivo. Durante os cinco meses em que durou a crise - iniciada com a divulgação pela revista Veja de que o senador custeava as despesas de sua ex-amante com dinheiro fornecido por uma empreiteira - o Senado teve todas as chances do mundo de se mostrar sério , digno e respeitável. Bastaria ter dado andamento no Conselho de Ética, de forma ágil, precisa e sem subterfúgios, ao processo movido pelo PSOL contra o senador. Mas, ao invés disso, preferiu tomar o rumo de uma grande farsa, onde não faltaram generosas doses de hipocrisia, cinismo, desfaçatez e chantagem que, nas palavras precisas do senador Jarbas Vasconcelos, fizeram o Senado "feder".

O afastamento de Renan Calheiros não se deveu, portanto, a um repentino e surpreendente surto de moral, ética e civismo entre os seus colegas, mas a uma razão de ordem pragmática, ou seja, a necessidade do governo de aprovar a prorrogação da CPMF, sem a qual ele se julga incapaz de governar o País nos próximos anos.

Enquanto a CPMF não estava na pauta, era claro que a Lula e sua corte do Planalto pouco importavam os aspectos éticos que envolviam a crise no Senado. Ao contrário, naquele momento interessava ao governo manter Renan, mesmo que enfraquecido, na cadeira da presidência, porque julgava que sua remoção poderia abrir o caminho para a ascensão de um oposicionista ou mesmo de um aliado pouco fiel ao executivo.

Por isto, Lula ordenou que a bancada petista, no julgamento do processo em plenário, votasse pela absolvição ou se abstivesse, garantindo, deste modo, a permanência do alagoano na presidência. A contrapartida de Renan seria o seu afastamento “voluntário” pelos dias necessários à votação do imposto do cheque. O problema é que Renan não cumpriu a sua parte no acordo. Ao contrário, com as suas atitudes arbitrárias a atabalhoadas, fez a crise recrudescer.

O choque entre ele e os que queriam a sua saída foi inevitável e atingiu o clímax na tarde de terça feira quando foi afrontado pelos principais líderes da oposição e até por alguns de seus antigos aliados, o que deixou evidente de que havia perdido completamente o controle da situação e que a sua presença se constituía numa imensa barreira às pretensões imediatas do governo.

O afastamento de Renan, embora sob a forma de uma licença por 45 dias, parece ser definitiva.A questão está na forma como foi conseguido, aparentemente sob a égide de uma barganha que possibilitaria a manutenção de seu cargo de Senador. Ou seja, o senador seria inocentado em todos os processos que estão sob a análise do Conselho de Ética, ou, no máximo, seria beneficiado pela aplicação de penas mais suaves do que a cassação do seu mandato.

A aceitação pelo Senado de um acordo indecoroso desta ordem somente faria algum sentido, a esta altura, se confirmassem os rumores de que , perdido o mandato, Renan estaria disposto a jogar m... no ventilador, ou seja , abrir o jogo e revelar tudo o que ele diz saber sobre a vida pública, privada e íntima da maioria dos seus colegas. Durante todo este processo tal ameaça pairou de forma velada sobre a cabeça de muitos senadores, e soou como uma grande chantagem, sendo motivo de medo e de constrangimento generalizado. O que explica, em parte, por que o processo vem se arrastando por tanto tempo.

A solução provisória da crise demonstrou que o governo tem ascendência sobre o Legislativo. Terminada a votação da CPMF, a próxima etapa será se livrar definitivamente de Renan e abrir caminho pára o seu sucessor. Alguns nomes estão sendo cogitados pela mídia - Gerson Camata, Edison Lobão, Garibaldi Alves, Tião Viana -, mas o escolhido certamente será o que tiver as bênçãos de Lula.O presidente, embora seja um fracasso em termos administrativos parece cada vez mais forte politicamente.

Embora insista em repetir que não pensa nem deseja um terceiro e sucessivo mandato, todas as mais recentes ações do governo caminham no sentido contrário. Os rumores de que o governo apoiaria a instituição de uma Assembléia Constituinte "exclusiva", a criação de uma rede de TV estatal, a submissão da Câmara dos Deputados e a desmoralização do Senado confirmam a tese de que Lula prepara um golpe para prorrogar a sua permanência no poder.Neste contexto, Renan Calheiros foi útil enquanto pode ajudar Lula no Senado. Quando se transformou num estorvo ,passou a ser considerado carta fora do baralho.
151007

terça-feira, outubro 09, 2007

LULA E RENAN

Renan não tem feito outra coisa a não ser cavar a sua própria sepultura e a esta altura se torna num gigantesco incômodo para o governo. Por mais que o presidente Lula tenha o dom de permanecer imune às trapalhadas protagonizadas por seus aliados e por ele próprio , a crise no Senado chegou a uma situação limite, a partir do qual quem mais tem a perder é o próprio governo e a figura do presidente.



Renan tenta se amparar em Lula, mas o seu fim está próximo.

LULA E RENAN

Renan Calheiros somente permaneceu na presidência do Senado porque Lula quis. E Lula quis Renan na presidência porque acha que a aprovação da CPMF no Senado- seu principal objetivo no momento - se já é complicada com ele , seria muito mais complicada em meio a uma crise provocada pelo seu afastamento e pela incerteza do que viria depois. Por isto, Lula colocou todas as fichas na permanência de Renan, e ordenou que a tropa de choque petista no Senado se colocasse ao lado da tropa de choque renanzista para que , unidas,possibilitassem a absolvição do senador no primeiro processo por falta de decoro. O problema é que no acordo entre petistas e renanzistas estava combinado o afastamento de Renan no período em que a CPMF fosse discutida e votada no Senado. Renan não só descumpriu o acordo, como com suas atitudes, aumentou o clima de tensão em que o Senado tem vivido desde maio.

No início da crise, o Planalto encarava este imbróglio como mais um episódio de uma disputa partidária pelo comando do Congresso entre governo e oposição do que como um problema ético e moral, com repercussões em toda a sociedade brasileira . Por isto, Lula , aparentemente adotando uma postura de neutralidade, jogava todas as fichas na permanência de Renan no comando..Sabia que seu afastamento, por cassação ou renúncia significaria um novo processo eleitoral, no qual os acordos internos poderiam escapar do controle do Planalto e serem desfavoráveis aos seus interesses, favorecendo a ascensão ao poder do Senado de um nome da oposição, ou de um outro nome que, mesmo em tese pertencente aos quadros da aliança governista , poderia não ser tão fiel às determinações do Planalto quanto Renan tem sido.

Entretanto, o crescimento da crise com o acúmulo de denúncias contra o presidente do Senado forçaram o comando do Planalto mudar de tática e a dar sustentação a Renan somente o tempo necessário a aprovação da CPMF. Neste sentido, a bancada petista no senado agiu como o fiel da balança e foi a principal responsável, com as seis abstenções , na permanência do senador alagoano.O que o governo não esperava é que a absolvição de Renan provocasse tão grande sentimento de indignação na opinião pública, e que o próprio Renan , com suas atitudes arrogantes e arbitrárias, fizesse com que este sentimento aumentasse cada vez mais.

Ao invés de assumir uma atitude mais humilde e contemporizadora, o presidente do Senado, talvez inebriado pelo resultado do julgamento na sessão secreta, não só não cumpriu o suposto acordo com os petistas, se negando a se licenciar e permanecendo na presidência, como continuou a praticar toda sorte de arbitrariedades e atitudes de puro terror que vão fazendo com que perca o apoio até de senadores que ha pouco se colocavam do seu lado.

O afastamento dos senadores Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos da Comissão de Constituição e Justiça do Senado foi mais uma manobra tresloucada, pois se tratam de dois políticos históricos do PMDB, considerados por muitos como reservas morais da política brasileira. Os senadores foram sumariamente afastados da CCJ e substituídos por membros da tropa de choque de Renan, o que trouxe aos dois senadores a solidariedade de muitos e aumentou o sentimento de revolta contra Renan.. O motivo alegado pelo líder do PMDB de que os dois senadores eram votos contrários à aprovação da CPMF não conseguiu resistir à evidência de que se tratava de mais uma manobra de Renan, cujo principal propósito era o de facilitar naquela comissão uma tramitação favorável a ele dos processos que se encontram no Conselho de Ética.

Em seguida, a denúncia de que o presidente do senado comandaria um esquema de espionagem contra seus próprios colegas com o objetivo de montar dossiês contra eles.Segundo o senador goiano Demóstenes Torres, na mira de Renan estariam o senador Marconi Perillo, além do próprio Demóstenes. Tais denúncias levaram a bancada do DEM à decisão de apresentar a quinta representação por quebra de decoro contra o presidente do Senado.

O fato é que por tudo isto e por muito mais Renan não tem feito outra coisa a não ser cavar a sua própria sepultura e a esta altura se torna num gigantesco incômodo para o governo. Por mais que o presidente Lula tenha o dom de permanecer imune às trapalhadas protagonizadas por seus aliados e por ele próprio , a crise no Senado chegou a uma situação limite, a partir do qual quem mais tem a perder é o próprio governo e a figura do presidente. Portanto, a lógica indica que Lula só estará disposto a sustentar Renan no curto período necessário à aprovação da CPMF.Depois , não haverá forças que consigam sustentar uma figura tão enlameada e tão desmoralizada na presidência do Senado.
090907

segunda-feira, outubro 08, 2007

A VEZ DOS MALANDROS

Não se trata de negar a essas pessoas o direito de pleitear um cargo eletivo.Afinal, são todos cidadãos maiores de idade, vacinados, e no pleno exercício dos seus direitos políticos. É melhor que consigam por meio do voto do que por outros meios. O que se trata é de mostrar que a cada eleição aumenta o número de pessoas desqualificadas, famosas ou não, a postular um cargo eletivo, em detrimento de pessoas qualificadas, que, por comodismo ou ojeriza à atividade política, se negam a envolver de forma positiva na atividade pública.




O CHOQUE DE GESTÃO PETISTA
O presidente Lula continua a dizer e a praticar absurdos que agridem a lógica e o bom senso administrativo. Na semana passada, disse que “o Brasil não pode ter medo de arrecadar mais, porque o mal do Brasil é que durante muito tempo arrecadou menos”. Primeiro, ele confunde a capacidade de governar com a capacidade de arrecadar. Depois, ele confunde o Brasil com o seu governo: quem arrecada mais não é o Brasil, mas o governo brasileiro, em nome do Estado.

Além do mais, o aumento da arrecadação não advém de recursos captados devido ao crescimento econômico ou ao incremento das exportações. São recursos tomados de modo sistemático e compulsório de uma sociedade cada vez mais empobrecida, especialmente da classe média, o alvo preferencial da ganância governamental.A perda de recursos da sociedade em favor de um governo reconhecidamente corrupto e incapaz significa, ao contrário do que quer Lula , uma perda para o Brasil.

Na mesma linha da declaração de que o “Brasil precisa arrecadar mais”, Lula, desta vez acompanhado da ministra Dilma Roussef, voltou a meter os pés pelas mãos . Ao afirmarem que “choque de gestão é contratar mais funcionários”(Lula), e “choque de gestão é apenas propaganda”(Roussef), o alvo eram as administrações tucanas, em especial a de Aécio Neves , em Minas. Mas o que acabou agredido foi o equilíbrio e o bom senso, em matéria de gestão pública.

Como se sabe, desde que assumiu o governo de Minas, Aécio Neves vem promovendo uma reforma no setor público, investindo na sua racionalização ao promover a contenção de gastos,e o corte e o remanejamento de funcionários.É uma reforma muito tímida, diga-se de passagem. Mas mesmo assim vem provocando aplausos de muitos, e críticas de setores que , como Lula, defendem o inchaço da máquina pública.

O fato é que o choque de gestão é a principal peça publicitária com a qual o governador mineiro conta para a sua pretendida caminhada rumo ao Planalto em 2010. Ao atacar a principal vitrine do tucano, Lula - secundado por Dilma - para muitos, a candidata preferida de Lula, depois dele próprio –, tenta antecipar o debate eleitoral. Mas o faz de forma canhestra.

A VEZ DOS MALANDROS
As eleições municipais de 2010 prometem uma safra de candidatos de fazer rir para não chorar. Sem contar os milhões de anônimos semi-analfabetos, despreparados , venais, oportunistas, espertalhões de toda ordem, sem nenhum compromisso com o bem público, que se lançam a concorrer a uma vaga de vereador, prefeito ou vice-prefeito, as eleições prometem uma outra safra de candidatos que têm a maior parte dos defeitos dos acima mencionados , porém com uma diferença substancial para os partidos, em busca do voto farto do eleitor desinformado: são “famosos”. Famosos, bizarros e decadentes, eu diria.

Encerrado o prazo de filiação para quem pretende disputar as eleições municipais, os partidos apostaram em artistas, ex-atletas e personalidades populares com presença na mídia , na tentativa de puxar votos.Incentivados pelo sucesso de Clodovil ( 494 mil votos) e de Frank Aguiar (145 mil votos ) nas ultimas eleições para o Congresso, nomes do porte de Sérgio Mallandro, Ronaldo Esper, Rafael Ilha Gretchen, Rita Cadillac, Marly Marley, Oscar Marrone ( dono de um prostíbulo de luxo) e Ronaldo ( ex-goleiro) já anunciaram a sua disposição de concorrerem.

Não se trata de negar a essas pessoas o direito de pleitear um cargo eletivo.Afinal, são todos cidadãos maiores de idade, vacinados, e no pleno exercício dos seus direitos políticos. É melhor que consigam por meio do voto do que por outros meios. O que se trata é de mostrar que a cada eleição aumenta o número de pessoas desqualificadas, famosas ou não, a postular um cargo eletivo, em detrimento de pessoas qualificadas, que, por comodismo ou ojeriza à atividade política, se negam a envolver de forma positiva na atividade pública

Enquanto os cidadãos de bem permanecerem atônitos e passivos, descomprometidos com a democracia, o mundo político continuará entregue à escória da sociedade, fazendo com que as conseqüências nefastas de suas ações recaiam sobre todos nós.

080907

terça-feira, outubro 02, 2007

O SEM-DIPLOMA E A EXPANSÃO DAS UNIVERSIDADES

Ao adotar uma política de expansão da rede pública universitária, sem adotar critérios que enfatizem a qualidade das novas escolas, Lula poderá estar cometendo o mesmo erro cometIdo por ocasião da expansão da rede pública de ensino fundamental e médio. Se hoje já é difícil encontrar profissionais de nível qualificado , é de se imaginar que tipo de profissionais – médicos , engenheiros , advogados – advirão da proliferação sem critérios de faculdades federais .O governo Lula não pode continuar a fazer da expansão da rede universitária apenas uma vitrine para seus projetos eleitorais futuros. Quem vai sofrer com isto é mais uma vez a qualidade do ensino.


Lula e representantes do Movimento dos Sem Universidade(MSU): a expansão universitária se faz em detrimento da qualidade...


O SEM-DIPLOMA
Na semana passada, o presidente Lula, em visita às futuras instalações da Universidade Federal do ABC, em Santo André, rejeitou a tese de que para ser presidente do Brasil seja necessário ter um diploma universitário. Segundo ele, “saber gerenciar e tomar decisões políticas independem do tempo de estudo”. E concluiu dizendo que “o metalúrgico que não tem diploma universitário vai passar para a História como o presidente que mais fez universidades e escolas técnicas no Brasil”.

Lula, por esta e outra declarações anteriores, parece , fazer da sua condição de sem-diploma um marketing pessoal com fins eleitorais. Talvez esteja querendo enfatizar a sua condição de “homem do povo”, semelhante à maioria dos brasileiros,que, como se sabe, é semi alfabetizada, mas, a se acreditar na lenda, muito intuitiva e prática. Entretanto, ao reafirmar a desnecessidade do diploma universitário para bem governar, o presidente nada mais faz do que dar um pontapé na educação formal, num país onde a carência neste setor é gigantesca.,

Se por um lado é possível que um portador de diploma de ensino superior seja um mal governante e um sem-diploma se revele um ótimo administrador, este fato se constitui numa exceção, pois é inegável que a boa governança exige dos gestores um
cabedal de conhecimentos técnicos , administrativos e jurídicos que vão embasar a sua capacidade de gerenciar e de tomar decisões. E este conjunto de conhecimentos será tanto maior quanto maior for a formação acadêmica do dirigente político.

Lula mais do que a maioria dos brasileiros teve tempo e condições para prestar um vestibular e fazer um curso superior. Não fez porque não quis. Não pode e não deve, portanto, ficar fazendo apologia da sua condição de sem-diploma e , pelo mau exemplo, desestimulando as pessoas que com esforço pessoal e sacrifício financeiro dedicam uma boa parte da sua juventude aos bancos de uma faculdade, na esperança de melhorar de vida.

QUANTIDADE SEM QUALIDADE

O outro aspecto da fala de Lula é a afirmação de que o seu governo multiplicou o número de universidades públicas no Brasil. Segundo ele, até 2010, o governo terá inaugurado dez novas universidades federais e aumentado o número de escolas técnicas de ensino profissionalizante de “140 ( até 2003) para 214”. Mais uma vez, a ênfase na quantidade em detrimento da qualidade. O governo tenta fazer crer que a multiplicação de escolas públicas é um atestado de que o ensino vai bem. Não vai.

É preciso lembrar o que aconteceu com a expansão desordenada do ensino público fundamental e médio , nas últimas décadas. De fato, ocorreu uma expansão de investimentos estatais no setor, com a construção de escolas e a multiplicação do número de matrículas. Mas o crescimento numérico não foi acompanhado por uma proporcional melhoria na qualidade. O resultado é que temos hoje a maioria das crianças e dos adolescentes matriculados em escolas públicas, de onde não saem qualificados nem para o mercado de trabalho – no qual perdem para estudantes oriundos de instituições particulares de ensino – nem para os quadros da cidadania.

Ao adotar uma política de expansão da rede pública universitária, sem adotar critérios que enfatizem a qualidade das novas escolas, Lula poderá estar cometendo o mesmo erro cometIdo por ocasião da expansão da rede pública de ensino fundamental e médio. Se hoje já é difícil encontrar profissionais de nível qualificado , é de se imaginar que tipo de profissionais – médicos , engenheiros , advogados – advirão da proliferação sem critérios de faculdades federais .O governo Lula não pode continuar a fazer da expansão da rede universitária apenas uma vitrine para seus projetos eleitorais futuros. Quem vai sofrer com isto é mais uma vez a qualidade do ensino.
021007