sexta-feira, agosto 31, 2007

O CAOS NO SENADO

O que até algumas semanas atrás parecia impossível – a absolvição de Renan – hoje parece ser perfeitamente factível. Caso aconteça, terá sido ( mais um ) duro golpe na democracia sob os auspícios do governo Lula. Somente uma forte reação popular poderá impedir que mais este atentado aconteça. Mas quem e quantos estão suficiente informados e dispostos a manifestar de forma contundente e coletiva a sua revolta?



O CAOS NO SENADO

Definitivamente o Senado Federal está a um passo do caos total. E o responsável é ninguém menos do que aquele que constitucionalmente deveria ser o maior responsável pela manutenção da dignidade, da ética e do espírito público da Casa, ou seja o seu próprio presidente.Desde que foi revelado que Renan Calheiros tinha relações promíscuas com uma empreiteira, de onde saiam os recursos responsáveis pela manutenção de sua ex-amante, o Senado nunca mais foi o mesmo.Na tentativa de se defender, o senador alagoano enveredou numa teia de provas inconsistentes, documentos fictícios e negócios mal explicados que, ao invés de livra-lo da primeira acusação, trouxeram a lume uma série de outros malfeitos praticados por ele. Com isto, mergulhou o Senado num lamaçal imundo e fétido, do qual a saída parece cada vez mais difícil. A honra e a dignidade da instituição parecem definitivamente comprometidas, e a paciência do cidadão contribuinte parece definitivamente esgotada.

Vivêssemos nós a maturidade da prática da democracia, tal como acontece em alguns países menos atrasados, e o senador já teria sido obrigado, legal ou moralmente, a se afastar da presidência para se defender sem o uso dos instrumentos de pressão que o seu cargo possibilita.Renan fez justamente o contrário. Adepto do jogo sujo e desleal, se aferrou à cadeira presidencial, e dela passou a manipular todo o processo contra ele movido no Conselho de Ética.Que formas de pressão ele exerceu, e que tipo de armas usou contra grande parte dos senadores e funcionários , provavelmente algum dia saberemos na sua inteireza. Mas pelo que já foi mostrado, todas as formas de manipulação, coação e chantagem estão sendo exercidas,mostrando o real caráter de Renan e de grande parte dos seus - ouso dizer- comparsas.

A última sessão do Conselho de Ética, convocada para apreciar os relatórios , se transformou num show de desfaçatez,grosseria, deboche , cinismo,e completa falta de ética e de decoro parlamentar, protagonizado pelos aliados do réu, mas coadjuvado com aplicação por muitos senadores da oposição.Tudo transmitido ao vivo para uma platéia estupefata, que, ainda, paga caro o salário destes atores de quinta categoria. .O objetivo evidente do circo armado no Conselho de Ética era o de evitar a todo custo a votação aberta, e procrastinar ao máximo a decisão final. Capitaneados pelo histriônico senador Almeida Lima,e com a tolerância cúmplice do presidente do Conselho, Leomar Quintanilha ,os aliados de Renan conseguiram o que queriam: adiar mais uma vez a decisão final.

O que Renan quer é ganhar tempo, pois julga que o tempo corre a seu favor.Conta com o apoio de Lula.Apesar de parecer, como é do seu feitio, distante da confusão, o presidente quer que Renan permaneça no comando do Senado. Para isto trabalha para que o PT e partidos aliados livrem Renan da forca.Tanto porque teme que não consiga um substituto fiel no Senado, como também pelo temor de que a cadeira caia nas mãos de um oposicionista.

A estratégia dos governistas, portanto, é desqualificar as denúncias contra Renan, sob o argumento de que se trata de uma tentativa de golpe contra o presidente do Congresso, numa extensão da guerra travada entre a oposição e o governo Lula. Reconhecem, entretanto, que no Conselho de Ética, onde prevaleceu o voto aberto, a batalha está perdida. Mas sabem que no plenário, onde regimentalmente o voto é secreto, a absolvição do senador estará garantida, desde que novas e graves denúncias contra o senador não venham a lume e comprometam de vez a estratégia dos governistas.

Portanto, o que até algumas semanas atrás parecia impossível – a absolvição de Renan – hoje parece ser perfeitamente factível. Caso aconteça, terá sido ( mais um ) duro golpe na democracia sob os auspícios do governo Lula. Somente uma forte reação popular poderá impedir que mais este atentado aconteça. Mas quem e quantos estão suficiente informados e dispostos a manifestar de forma contundente e coletiva a sua revolta ?
310807

terça-feira, agosto 28, 2007

"A CULPA É DA IMPRENSA"

A criação da CPI, sob o pretexto de elucidar uma transação efetuada entre dois grupos econômicos, poderia ser até bem-vinda não tivesse sido proposta por quem foi.Como foi, não esconde o seu real propósito, ou seja o de intimidar a imprensa, limitar o seu trabalho e livrar a cara de parlamentares e governantes corruptos, inescrupulosos, e ineptos, como o atual presidente do Congresso e o atual presidente da República.




“A CULPA É DA IMPRENSA”

Lula faz um governo medíocre, marcado pela falta de realizações e pelo excesso de corrupção, parte desta sob julgamento do STF. Renan Calheiros, um dos mais fortes pilares de sustentação do governo no Congresso, desde maio é alvo de graves acusações, que vão desde o recebimento de propinas de uma empreiteira até falsificação de provas e de documentos. Sob pressão, eles já elegeram um culpado: a imprensa.Em especial a revista Veja.

No Congresso, Renan Calheiros partiu da defesa ao ataque, e conseguiu, na ultima sexta feira, 182 assinaturas - 11 a mais do que o necessário- para o pedido de criação de uma CPI, com a finalidade de investigar a compra da TVA pela Telefônica. Segundo os governistas, o propósito da CPI é o de esclarecer “as circunstâncias e as conseqüências decorrentes do processo de autorização, por parte da ANATEL, referente à reestruturação societária e transferência de controle de outorgas envolvendo as empresas TVA e a empresa Telesp (Telefônica)”.

Os propósitos aparentemente nobres que embasam o pedido, não conseguem esconder que se trata de um evidente ato de retaliação de Renan e do governo contra o grupo Abril, proprietário da TVA e que publica a revista Veja. Por extensão, trata se de uma ação de intimidação de toda a imprensa.

Desde que começou a publicar uma série de reportagens desfavoráveis ao presidente do Congresso, este, em lugar de se defender , provando que as denúncias são infundadas, e processando judicialmente o veículo de comunicação, se enveredou por complicados meandros, produzindo provas que, em lugar de inocenta-lo, complicaram ainda mais a sua situação, convencendo a todos de que realmente tem muita culpa no cartório. A escolha como alvo preferencial a revista Veja e o grupo Abril não foi, pois, gratuita nem fortuita. Renan tinha a certeza de que mirava no alvo certo.

Não é de hoje que Veja é execrada pelo PT e pelo governo Lula . Desde o início do governo, Veja tem se destacado por denunciar com contundência as mazelas de Lula e seus aliados no Congresso. Foi, por exemplo, um dos mais atuantes veículos a investigar e expor a podridão do escândalo do mensalão. Por isto, habilmente, Renan, ao contra atacar o grupo Abril, pretende, com uma só cajadada, matar três coelhos:, ou seja ,dividir com a CPI o foco da atenção nacional, hoje totalmente centrado na sua pessoa; unir toda a base governista contra um inimigo comum; e vingar-se de Veja e do grupo Abril.

Comporta-se Renan da mesma forma mesquinha e belicosa com que o governo Lula vem marcando as relações com a mídia. Lula nunca conseguiu engolir uma imprensa livre e crítica. Sempre a quis submissa, dependente e bajuladora. Em várias ocasiões, acusou-a de fazer parte de um suposto “complô das elites” para desestabilizar o seu governo. Em 2004, tentou cerceá-la pela criação de um certo “Conselho Federal de Jornalismo(CFJ), que , felizmente, acabou morrendo antes de ser parido. Nesse mesmo ano, trabalhou pela expulsão do correspondente norte americano Larry Rohter, que havia escrito um artigo insinuando que o presidente seria alcoólatra.

Na última sexta feira, dia 24, mesmo dia em que seus aliados no Congresso comemoravam a obtenção das 182 assinaturas pela criação da CPI da TVA, Lula em discurso no Paraná disse que seu governo sofre “uma campanha da imprensa” baseada na “inveja e preconceito”. É sempre assim no governo Lula: manifestações democráticas de oposição, logo são tachadas de golpistas, elitistas e preconceituosas.

Portanto, o que causa preocupação é que os passos iniciais em direção ao cerceamento da livre manifestação da imprensa estão sendo dados.O modelo neste sentido é o governo de Hugo Chávez, que fechou um dos principais canais de televisão da Venezuela, por não suportar as críticas ao seu governo.Por ocasião deste fato, um evidente atentado à liberdade de imprensa, e um atentado à democracia no continente, não se ouviu de Lula uma única palavra de condenação. Ao contrário, deputados e senadores do PT , por diversas vezes forma à tribuna do Congresso para justificar ou aplaudir o ato arbitrário de Chávez.

A criação da CPI, sob o pretexto de elucidar uma transação efetuada entre dois grupos econômicos, poderia ser até bem-vinda não tivesse sido proposta por quem foi.Como foi, não esconde o seu real propósito, ou seja o de intimidar a imprensa, limitar o seu trabalho e livrar a cara de parlamentares e governantes corruptos, inescrupulosos, e ineptos, como o atual presidente do Congresso e o atual presidente da República.
280807

sexta-feira, agosto 24, 2007

A HERANÇA (MALDITA? ) DE VARGAS

O suicídio de Vargas, por ironia, acabou se constituindo no seu terceiro golpe – o primeiro foi em 1930, o segundo em 1937. Desta vez foi contra aqueles que acreditavam e defendiam uma maior liberdade no campo das relações econômicas. O choque e a comoção provocados pela sua morte trágica, mais a Carta Testamento onde ele se colocava como defensor dos fracos e dos oprimidos, e como uma espécie de mártir da causa nacionalista, criaram um mito.Tal mito atravessou mais de três décadas de História, deixou alguns herdeiros diretos ( Jango e Brizola ), muitos herdeiros indiretos ( a esquerda brasileira de um modo geral ), e só começou a ser desmontado no início da década de 90, quando a idéia da liberdade nas relações econômicas ganhou força, impulsionada pelo processo da globalização econômica.



Rememora-se hoje o 53º aniversário da morte de Getúlio Vargas. Num país onde a História é pouco cultuada - é um país sem memória, costuma-se dizer – o nome e o legado de Vargas são pouco estudados pelas novas gerações, o que nos faz esquecer de que muito da herança getulista permanece forte até os dias atuais. A Era Vargas representou uma transição daquilo que poderíamos chamar de economia rural para uma economia capitalista.E fincou as raízes do capitalismo brasileiro, que, como veremos, nasceu sob o signo da mais absoluta tutela do Estado.

Até o início da década de década de 30, predominava em nosso país uma economia agrária e rural, com ênfase na cultura cafeeira voltada para a exportação. Tal modelo era praticamente a continuidade da economia do séc XIX, exceto pela ausência do escravismo. A maioria da população brasileira habitava o meio rural, mas as grandes cidades já davam os primeiros sinais de mudança. A entrada de um número significativo de imigrantes europeus dinamizava o ambiente das grandes cidades e introduzia lentamente as primeiras indústrias, gerando uma incipiente burguesia industrial e um nascente proletariado urbano. Tratava-se do pontapé inicial na formação do capitalismo brasileiro, que, nesta fase, se estabeleceu com quase nenhum apoio ou interferência estatal. A década de 20, com as manifestações artísticas do modernismo, com movimentos socisais como as primeiras greves operárias,e com movimentos políticos como a formação do Partido Comunista e o movimento tenentista, assistiu as primeiras contradições entre o conservadorismo rural e o nascente progressismo urbano.

No final dos anos 20,as divergências ocorridas entre as elites oligárquicas dos estados levaram ao rompimento entre as alianças que controlavam politicamente o país e provocaram o golpe civil e militar, que os livros de História definem como “Revolução de 1930”, que colocou Getulio Vargas no poder. .A ascensão de Vargas coincidiu, pois, com um período de mudanças na economia brasileira; mudanças que já vinham ocorrendo, independente de qualquer política governamental, desde a década anterior.

As décadas de 30 e de 40 , a conjuntura internacional – segunda Grande Guerra- acentuou no Brasil esta tendência à industrialização e à urbanização. Vargas soube se aproveitar deste momento para construir uma gigantesca, centralizada e onipresente máquina governamental, aumentar o seu poder pessoal, e se perpetuar no poder. Afinal, foram 18 anos de getulismo, entre 1930 e 1954, com um breve intervalo de 5 anos – de 1946 a 1950 - em que o poder foi ocupado pelo general Eurico Dutra, um dos braços de sustentação de Vargas junto ao exército.

Nos anos iniciais de poder, Vargas centralizou e aparelhou o Estado como nunca antes havia acontecido. Aproveitou-se do enfraquecimento das elites agrárias, provocado pelo declínio do nosso principal produto de exportação,o café, nos mercados internacionais,e do fato de tanto a burguesia industrial quanto o operariado urbano não estarem ainda suficientemente consolidas como forças influentes na sociedade.Construiu um gigantesco aparato burocrático, centralizou a administração, interveio nos estados, aparelhou e modernizou o exército.Construiu, desta forma, uma máquina estatal que, em muitos aspectos, lembrava os regimes fascistas , em voga na Europa da época..

É bom lembrar que neste mesmo período, a depressão econômica que atingia os Estados Unidos e o continente europeu, havia acentuado a descrença tanto no liberalismo como forma de atuação econômica, quanto na democracia como regime político. Mesmo nos Estados Unidos, onde a crença nos valores democráticos parecia não ter sido abalada, o liberalismo econômico foi afetado com a viabilização do New Deal, política intervencionista colocada em prática por Roosevelt. Na Europa, foi pior.Tanto a democracia quanto o liberalismo foram golpeados com violência em muitos países.A pretexto de combater tanto o liberalismo quanto o comunismo, uma mistura de intervencionismo, militarismo e nacionalismo extremado,conduziram diversos países ao totalitarismo e ao caldeirão explosivo que conduziu à segunda guerra mundial.

Neste contexto, Vargas se espelhava muito mais no estilo europeu do que no norte-americano, ou seja, desprezava tanto os valores do liberalismo quanto os da democracia. Em 1937,sob o falso pretexto da existência de um plano comunista para tomar o poder no Brasil, aplicou um golpe definitivo no que restava de instituições democráticas e implantou o “Estado Novo”, um regime ditatorial de características fascistas ,que pouco ficava a dever às ditaduras de direita e de esquerda que proliferavam na Europa

Sob o ponto de vista econômico, Vargas pode consolidar a sua política intervencionista, reguladora e estatizante, onde o Estado deveria ser não só o indutor e planejador do crescimento, mas também o proprietário direto dos setores considerado estratégicos para o desenvolvimento, tais como os de energia, transporte e infra-estrutura, assumindo plenamente o papel de empreendedor. O argumento era o de que o Brasil não possuía financiamento privado suficiente para esta tarefa, e que o Estado deveria, portanto, assumir as funções de empreendedor econômico, proprietário do capital e empregador direto da mão de obra, sobrando pouco espaço para a livre iniciativa privada. No final de 40 e início dos anos 50, é quase certo que grande parte dos assalariados que viviam nas grandes áreas urbanas dependiam direta ou indiretamente do Estado, como funcionários públicos ,trabalhadores das centenas de empresas estatais, ou fornecedores de bens e de serviços ao Estado.

O resultado disso é que o nosso capitalismo, tanto no campo do capital patronal quanto no campo do trabalho cresceu sob a tutela e a dependência do Estado, e, até hoje, não conseguiu se libertar completamente desta tutela.Tal característica, a meu ver, trouxe péssimas conseqüências para a evolução da economia do país.Aqui não foi construído um capitalismo fundamentado nas leis do mercado, na livre-iniciativa, e na autonomia do movimento sindical dos trabalhadores.Ao contrário,enraizou na mentalidade empresarial brasileira uma profunda aversão à livre concorrência e ao risco, e uma relação de dependência e submissão ao Estado getulista.

Ao mesmo tempo, do outro lado do balcão , as entidades representativas de trabalhadores ficaram oficialmente atrelados ao governo, com dirigentes sindicais escolhidos a dedo pelo Ministério do Trabalho, numa forma extremada daquilo que se convencionou chamar de peleguismo..O fato é que, nas relações com a sociedade, a era Vargas foi responsável pela construção de um Estado extremamente autoritário, assistencialista e paternalista, assumindo, de cima para baixo, o papel de “protetor” do trabalhador, estabelecendo os direitos trabalhistas, e subjugando os sindicatos à tutela do Estado.

O fim da Segunda Grande Guerra, em 1945, havia colocado o país uma situação privilegiada..As condições do período eram muito a um choque capitalista no país, baseado na retirada gradativa do Estado e no incentivo à livre iniciativa. Mas não foi o que ocorreu. O retorno de Vargas ao governo,em 1951, desta vez eleito democraticamente, fez aumentar os conflitos ideológicos entre setores empresariais e trabalhistas. Tais conflitos resultavam de um choque entre os que defendiam uma maior liberdade para a entrada de investimentos estrangeiros e a livre circulação de capitais no país, e aqueles que, em contrapartida, defendiam uma política nacionalista, com restrição da entrada de capitais , e baseada na forte atuação do Estado no campo econômico.Vargas, é claro, mesmo que em alguns momentos manifestasse uma certa dubiedade, representava simbolicamente este segundo grupo.Tais choques se radicalizaram de tal forma que acabaram levando ao suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954.

O suicídio de Vargas, por ironia, acabou se constituindo no seu terceiro golpe – o primeiro foi em 1930, o segundo em 1937. Desta vez foi contra aqueles que acreditavam e defendiam uma maior liberdade no campo das relações econômicas. O choque e a comoção provocados pela sua morte trágica, mais a Carta Testamento onde ele se colocava como defensor dos fracos e dos oprimidos, e como uma espécie de mártir da causa nacionalista, criaram um mito.Tal mito atravessou mais de três décadas de História, deixou alguns herdeiros diretos ( Jango e Brizola ), muitos herdeiros indiretos ( a esquerda brasileira de um modo geral ), e só começou a ser desmontado no início da década de 90, quando a idéia da liberdade nas relações econômicas ganhou força, impulsionada pelo processo da globalização econômica.

Durante mais de três décadas, e, com menor intensidade, ainda hoje, acreditou-se que o Estado gigantesco, interventor- onipresente onde se faz desnecessário e ausente onde se faz necessário - ,com uma burocracia ineficiente e corrupta , e sugando recursos do povo e empréstimos impagáveis no exterior, poderia ser ao mesmo tempo um impulsionador do desenvolvimento e um construtor de igualdade social. Não foi nem uma coisa nem outra.A crise do Estado nos anos 80 mostrou toda a fragilidade deste modelo.

O fato é que a Era Vargas deixou marcas negativas profundas. Dentre estas marcas, a mentalidade de que somente o estado máximo será capaz de fazer o país avançar. Esta mentalidade está impregnada não só em setores da esquerda, mas , o que é pior , é forte também no empresariado , pelo menos naqueles setores que temem o risco e se acostumaram a se socorrer do dinheiro público, sempre que seus negócios não vão bem.

A verdade é que na última década a máquina getulista começou a ser desmontada, embora com muita lentidão e de maneira ainda insuficiente. Tendo início no atribulado governo de Collor e prosseguido nos dois governos de FH, o desmonte desta máquina encontra resistências no governo de Lula. As medidas necessárias para se desonerar e diminuir o tamanho e o peso da máquina governamental estão sendo negligenciadas em favor de um novo surto de estatismo , burocratização e altos impostos. As poucas medidas liberalizantes e moralizadoras do setor econômico e previdenciário tomadas no início do governo foram muito mais por pressão do FMI e de outros organismos financeiros internacionais do que por um surto de clarividência dos petistas. Afinal, o PT nunca abdicou da crença no Estado gigante. No poder se conclui que esta crença se deve muito mais a uma questão de conveniência e oportunismo do que por ideologia.

O fato é que mais e mais o Brasil precisa se livrar da herança de Getúlio Vargas. Reformas que visem a diminuição do aparelho estatal, a desoneração da sociedade, e a modernização das relações entre o capital e o trabalho serão necessárias. A legislação trabalhista, a mais forte herança de Vargas, precisa ser revista, atualizada e adaptada a este novo contexto.. Como se pode ver, a herança de Vargas não é pequena nem desprezível.Certamente é o suficiente para que seu nome e sua ação não saiam da primeira página da História, onde devem permanecer. Muito menos para que os seus admiradores - e eles não são poucos-, continuem a cultua-lo e mitifica-lo, e muito mais para que se tire lições importantes sobre o que deve ser feito e, principalmente, o que não deve ser feito para que o país evolua de maneira livre e democrática.Liberdade e democracia não foram os pontos fortes de Getúlio Vargas.
240807

terça-feira, agosto 21, 2007

O MENSALÃO NO BANCO DOS RÉUS

Não fosse pelo trabalho da CPI dos Correios, e pela maneira corajosa e digna com que agiu o procurador geral da República Antonio Fernando, e o grande escândalo já teria caído no esquecimento . O STF não prima pela tradição de celeridade, eficiência e senso de justiça em seus julgamentos . Tem a fama de ser uma instituição tomada por injunções de ordem política, corporativa e ideológica.Mesmo assim , espera-se um processo longo, que poderá durar muitos anos ate que a sociedade saiba quem será e quem não será punido. Espero que estejamos todos vivos até lá, e que a justiça seja feita.


FOTO:O Procurador Geral , Antonio Fernando, e alguns dos indiciados no escândalo do mensalão

O MENSALÃO NO BANCO DOS RÉUS
Antes tarde do que nunca. Felizmente, mais de dois anos após a revelação do escândalo do mensalão, o STF começará a analisar nesta quarta feira a denúncia do procurador geral da República contra 40 nomes, entre ministros , dirigentes de estatais, dirigentes partidários , funcionários públicos graduados, empresários e deputados federais, indiciados por participarem do maior esquema de corrupção da história republicana.Entre os acusados figuram nomes que, até o inicio do escândalo, eram considerados astros de primeira grandeza no governo Lula ou na sua base de apoio no Congresso: José Dirceu, Luis Gushiken, José Genoino, João Paulo Cunha, Delúbio Soares, Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto, e Duda Mendonça.

Quem não tem memória curta se lembra muito bem. Tudo começou com uma denúncia de que um funcionário dos Correios havia se deixado corromper por 3000 reais. Revelou-se então que os Correios era território sob o comando do presidente do PTB,deputado federal Roberto Jefferson, dentro da política de distribuição de cargos em troca de apoio no Congresso. Segundo denúncias da revista Veja, Jefferson e o diretor de Administração dos Correios , Antonio Osório Batista, chefiariam um esquema de corrupção para fraudar licitações na empresa.

Colocado contra a parede, Jefferson se considerou traído pelo PT, e, numa atitude pouco usual na política brasileira, resolveu botar a boca no trombone. Numa entrevista ao jornal Folha de S Paulo, em 6 de junho de 2005, denunciou que funcionava no governo um esquema de pagamento de propinas à deputados da base se apoio ao governo, coordenado pelo chefe da Casa Civil, José Dirceu, e operacionalizado pelo empresário mineiro Marcos Valério.

As denúncias de Jefferson foram , em sua maioria, confirmadas pela CPI dos Correios, originalmente instituída para investigar as denúncias de irregularidades em estatais , mas que acabou sendo tomada pelo assunto mensalão. Do dia 9 de junho de 2005, quando foi instalada, até o dia 4 de abril de 2006, quando o relatório final foi aprovado, a CPI tornou-se o centro das atenções do país ao revelar um universo de crimes contra o erário, contra as instituições, e contra a ética.

Durante os mais de 200 depoimentos prestados à CPI, o público tomou conhecimento de um rosário de ilicitudes que incluía corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão ilegal de divisas, financiamento ilegal de campanhas eleitorais, fraudes contra o fisco,peculato, formação de quadrilha e tantas outras. No total, o esquema do valerioduto movimentou mais de 2 bilhões de reais.Em síntese, tratava-se de um amplo esquema de corrupção arquitetado pelo governo e pelo PT ,visando corromper parlamentares para garantir o fortalecimento e a perpetuação do poder do governo Lula. Estas foram as conclusões contidas no relatório da CPI, e o núcleo central da denúncia enviada pelo procurador Antonio Fernando de Souza ao STF.

Em qualquer país civilizado e democrático , metade do conteúdo de tais revelações já seria motivo suficiente para a queda de governo. No Brasil as coisas costumam acontecer de um modo e num ritmo muito diferente. Pressionado pela mídia e por uma parcela significativa da opinião pública, o nosso presidente preferiu dar uma de tolo: declarou que desconhecia completamente o esquema e disse que se sentia traído. Com isto, conseguiu fazer com que sua figura passasse ao largo da crise que fazia sucumbir, um a um, muitos de seus amigos diletos e auxiliares mais próximos. Para isto contou com a colaboração decisiva dos partidos de oposição que no auge das denúncias contra o governo, e supondo que a imagem de Lula já estava definitivamente manchada,foram lenientes com ele.Preferiram deixa-lo “sangrando” a abrir um processo de impeachment.

Tucanos e pefelistas ( atuais democratas), ao invés de assumirem as suas responsabilidades como oposição ao governo, optaram pela perspectiva do que supunham uma fácil conquista do poder nas eleições de 2006.A tibieza , a negligência e o medo dos oposicionistas demonstraram durante a crise – em grande parte devido à revelação de que o mesmo Marcos Valério já havia sido o responsável em Minas por um esquema de financiamento irregular da campanha do tucano Eduardo Azeredo ao governo do estado -foram fatais para as suas pretensões eleitorais.Em pouco tempo, Lula deixou a UTI, recuperou a saúde política, e apoiado num programa de distribuição de dinheiro às famílias pobres, e numa bem montada máquina de propaganda, partiu célere para a reeleição.

Não fosse pelo trabalho da CPI dos Correios – já que a outra CPI, a do Mensalão, não passou de uma farsa – e, mais ainda, pela maneira corajosa e digna com que agiu o procurador geral da República Antonio Fernando, e o grande escândalo já teria caído no esquecimento A máquina publicitária do governo provavelmente já teria, pela repetição do velho discurso ideológico, convencido à maioria de que tudo não havia passado de uma grande farsa, montada pelas “elites” para golpear o governo de Lula.

Pelo menos o assunto não está morto e enterrado, e aguarda o julgamento do Supremo. O STF não prima pela tradição de celeridade, eficiência e senso de justiça em seus julgamentos . Tem a fama de ser uma instituição tomada por injunções de ordem política, corporativa e ideológica. Como informou, ontem, o blog do jornalista Ricardo Noblat, (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/ ) “em 40 anos o STF nunca condenou uma autoridade. Foi rápido, por exemplo, para julgar o ex-presidente Fernando Collor, absolvido dois anos depois de cair. Em compensação, arrasta-se ali há seis anos processo contra o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), acusado de corrupção.”

Pode ser que desta vez o Supremo contrarie a regra. Mesmo assim , espera-se um processo longo, que poderá durar muitos anos ate que a sociedade saiba quem será e quem não será punido. Espero que estejamos todos vivos até lá, e que a justiça seja feita.
210807

terça-feira, agosto 14, 2007

RELIGIÃO OU NEGÓCIO?

Se milhões de pessoas que se autodenominam “crentes” , por diversas razões se deixam manipular em suas crenças, carências,e até em sua ganância , por espertalhões movidos pelos piores propósitos, o problema é delas. Se estes charlatões fogem da finalidade original a que se propuseram estas organizações, e passam a cometer ilegalidades e crimes no campo econômico, político e pessoal, isto passa a ser um problema de toda a sociedade. E, por isto, devem ser exemplarmente punidos Sem dó nem piedade.


FOTO:Seitas religiosas manipulam a fé, multiplicam os seus negócios , lucram com isto, e ficam impunes...

RELIGIÃO OU NEGOCIO?
No Brasil, a Constituição garante liberdade de religião. Ainda bem. Estados totalitários costumam proibir completamente instituições e práticas religiosas. Estados teocráticos oprimem todas as demais religiões , exceto a oficial. Nosso país , sob este aspecto, se insere no rol das democracias, onde além da liberdade de culto ficou estabelecido a separação entre a Igreja e o Estado. A história do Brasil passa distante de conflitos religiosos nos quais os interesses do Estado e da Igreja oficial se confundem , resultando em perseguições e mortes, tal como acontece atualmente em muitos países islâmicos.

O totalitarismo de esquerda, se apoiando numa tese de Marx segundo a qual “a religião é o ópio do povo”, proibiu – como ainda acontece na Coréia do Norte e em Cuba – quaisquer manifestações religiosas, perseguindo e reprimindo com violência os recalcitrantes. O culto a Deus deu lugar ao culto ao Estado, e os santos foram substituídos pelos heróis da pátria e líderes políticos. Por isso, a defesa intransigente da liberdade religiosa antes de tudo representa a defesa da própria democracia.

Isto não significa que as instituições religiosas devam permanecer isentas de críticas quando extrapolam o seu papel religioso e assumem contornos políticos, econômicos ou criminosos. É o que vem ocorrendo no Brasil com um grupo significativo de denominações religiosas, a maioria delas seitas evangélicas pentecostais, que se aproveitam da fé, da carência emocional e da ingenuidade das pessoas e passam a determinadas práticas, digamos, pouco cristãs.

Ancorados numa leitura talvez um tanto apressada de Martinho Lutero(1483-1546) e João Calvino( 1509-1564), iniciadores do protestantismo, a partir da década de 70 as seitas pentecostais cresceram e se multiplicaram numa velocidade espantosa, arrebanhando milhões de pessoas que não encontravam mais na religião Católica a satisfação para as suas carências físicas , materiais e espirituais.Em Martinho Lutero e na sua defesa da “livre interpretação de Bíblia” encontraram guarida para a multiplicação de seitas e denominações; em João Calvino e na sua tese de que “a riqueza material de cada indivíduo é a prova da benevolência de Deus”, encontraram a justificativa para a entronização do que hoje é chamada de “teologia da prosperidade”, sobre a qual se assenta a maioria das pregações dos pastores pentecostais.

O fato é que denominações religiosas como a Igreja Universal, Igreja Renascer em Cristo, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja do Evangelho Quadrangular, muito além de instituições religiosas, se transformaram, em tempo recorde, em potências empresariais, que em nada ficam a dever a muitas empresas de diversos ramos da produção,comércio e serviços .

Os seus líderes religiosos – Edir Macedo , Estevam e Sonia Hernandes, RR Soares e Mario de Oliveira - demonstram um senso incomum para fazer crescer e multiplicar os seus negócios , principalmente no campo da mídia eletrônica e impressa, e não se preocupam em esconder os evidentes sinais de riqueza pessoal. A fonte primária de toda esta riqueza está, sem dúvida, nos cultos promovidos por estas seitas, nos quais não faltam muita emoção, falsos milagres e, sobretudo, farta arrecadação dos recursos destinados à “obra do Senhor”, que, pelo que se conclui,tem se manifestado muito mais no bolso dos pastores do que na vida de suas ovelhas fiéis. A ousadia e a desfaçatez com que agem estes pretensos líderes espirituais já é voz corrente. Alguns deles já estiveram, ou ainda estão, sobre a mira da Justiça, sob acusações que vão desde abuso do poder econômico, lavagem de dinheiro e transferência ilegal de recursos para o exterior, e ,pasmem!, até mesmo tentativa de assassinato, como é o caso do deputado Mario de Oliveira, o líder da Igreja do Evangelho Quadrangular.

No Brasil, em nome da separação entre a Igreja e o Estado, as instituições religiosas estão isentas de pagamento de impostos. Talvez esteja aí a razão mais forte para o tão rápido crescimento destas instituições e o motivo para que cometam tantos desvios de suas funções originais. Escondendo-se sob o manto protetor e insuspeito da religião, desenvolvem uma série de atividades lucrativas, algumas legais e muitas ilegais.E ainda livres da carga representada pelos impostos .É muitíssimo mais fácil abrir uma Igreja do que uma empresa qualquer.Mas, tocar neste vespeiro é perigoso e contraproducente. Por quê?

Primeiro porque qualquer tentativa de disciplinar as atividades destas igrejas esbarra no preconceito de que se trataria de cerceamento da liberdade religiosa. Se por um lado temos o conhecimento de que a maioria dos líderes e pastores é movida por uma convicção nada cristã, por outro sabemos que a maioria do rebanho é movida por uma autêntica fé. Segundo porque estas instituições ultrapassaram as fronteiras puramente religiosas, e até empresariais, e penetraram com muita força também no campo político.

Os evangélicos se fazem cada vez mais atuantes no cenário político, financiando campanhas, lançando candidatos, elegendo governantes e parlamentares, e controlando partidos políticos. O rebanho religioso que eles com habilidade manipulam nos templos, transformou numa significativa clientela eleitoral..Qualquer interferência nas atividades destas seitas passaria a ser considerada , além de uma atitude de perseguição religiosa, também uma perseguição política.

Portanto, para se atuar sobre estas instituições e sobre estes líderes religiosos é preciso que se tome o cuidado de que fique bem demarcado os dois campos em que eles têm atuado : o puramente religioso e o dos negócios e da política. Assim como é importante que se defenda com todas as armas a preservação da completa liberdade de religião, também é fundamental que se denuncie os desvios, os abusos e os crimes que em proveito desta liberdade, são praticados por estas instituições e por membros delas.

Se milhões de pessoas que se autodenominam “crentes” , por diversas razões se deixam manipular em suas crenças, carências,e até em sua ganância , por espertalhões movidos pelos piores propósitos, o problema é delas. Se estes charlatões fogem da finalidade original a que se propuseram estas organizações, e passam a cometer ilegalidades e crimes no campo econômico, político e pessoal, isto passa a ser um problema de toda a sociedade. E, por isto, devem ser exemplarmente punidos Sem dó nem piedade.

140807

sexta-feira, agosto 10, 2007

O APAGÃO DO SENADO E DA ASSEMBLÉIA DE MINAS

Pressionado pela mídia,pela opinião pública e até mesmo por setores do governo que começam a ver na presença do Senador um incômodo,uma espécie de elefante numa loja de louças, Renan tenta a sua derradeira cartada. Enquanto isso, em Minas,a atitude imoral dos deputados mineiros provocou a reação indignada da opinião pública, e o temor de que o mau exemplo se estenda pelos outros estados da federação. Mas nem tudo ainda está perdido.


Foto:Plenários do Senado e da ALMG. O apagão moral atingiu ambas as casas...
O APAGÃO DO SENADO
Neste imbróglio protagonizado pelo presidente do Senado,Renan Calheiros, fica cada vez mais evidente que ele não se afasta da presidência para se defender no Conselho de Ética, por uma razão muito simples: da presidência, ele tem o controle sobre os demais senadores,que serão, afinal, os juízes que determinarão a sua continuidade ou não na vida pública.A esta altura do campeonato,Renan está pouco se importando com a opinião pública, restrita aos grandes e médios centros urbanos Sabe que sob este aspecto já perdeu tudo o que poderia perder.Seu eleitorado não é este.

Não teme a repercussão das denúncias junto ao seu eleitorado porque sabe que a sua clientela eleitoral, como a da maioria dos políticos brasileiros, é constituída basicamente por pessoas pobres e mal informadas muito mais dispostas a trocar o seu voto por qualquer coisa que minore a sua carência, que seja uma casa, uma cesta básica ou um empreguinho público. É assim que sobrevivem os coronéis da política brasileira, e Renan é um legítimo representante deles.Muitos foram os políticos que, escrachados pela mídia e pela opinião pública, acabaram por renunciar ao mandato , mas conseguiram retornar à vida política e ao Parlamento nos braços de sua clientela eleitoral.Mas Renan não tem mais a opção da renúncia. Só lhe resta o julgamento.

Não foi, portanto, outro o motivo do discurso que pronunciou na tribuna do Senado, na última terça feira,se não o de deixar evidente que não pode pagar sozinho pelo pecado que, segundo ele ,a maioria dos seus colegas também comete. Portanto, ao se pronunciar, o público alvo de Renan não era o telespectador da TV Senado, mas sim seus próprios colegas que participavam da sessão.O objetivo era o de passar um recado bastante claro: qualquer um deles poderia ser vítima dos mesmos ataques que ele vem sofrendo, e a sua resistência, ao fim e ao cabo, simbolizaria a resistência de todos os que , como ele têm culpa no cartório. Ao reagir ao discurso de Renan, o senador José Agripino, um dos líderes da ação pelo seu afastamento da presidência, foi a primeira vítima da estratégia do alagoano. Renan insinuou que seu adversário , dono de “concessões, negócios e empréstimos” não teria como resistir a uma “investigação” como a que ele está sendo submetido.

Renan joga com o medo, quase pavor, da maioria dos senadores para se livrar desta enrascada.. E tem conseguido ,com a lentidão com que o processo se arrasta, o seu objetivo. É sintomático o fato de que pouquíssimos são os senadores a se manifestar de forma franca e aberta contra a presença de Renan na presidência. Os poucos que se manifestam -Agripino Maia (DEM), Arthur Virgílio (PSDB) e Jose Néri (PSOL) - o fazem mais por obrigação partidária Os demais se calam numa atitude cúmplice e covarde.

Pressionado pela mídia,pela opinião pública e até mesmo por setores do governo que começam a ver na presença do Senador um incômodo,uma espécie de elefante numa loja de louças, Renan tenta a sua derradeira cartada. Sabe que a sua situação é praticamente insustentável, e se agarra no que lhe resta, ou seja, a cumplicidade e a covardia de seus companheiros de Senado Para isto, usa como arma a chantagem. O final desta história vai revelar a real dimensão do Senado.


O APAGÃO DA ASSEMBLÉIA MINEIRA

Em Minas, infelizmente, venceu o corporativismo, a luta pela manutenção dos privilégios e a prevalência da impunidade.A Assembléia Legislativa rejeitou, com sessenta votos a favor, nove contra e uma abstenção, o veto do governador Aécio Neves ao PLC que limita a atuação dos promotores públicos e estende a uma série de autoridades o privilégio de serem investigados e acionados apenas pelo Procurador-Geral do estado, limitando, assim, a ação do MP mineiro.

Pela lei anterior, tal prerrogativa estava limitada apenas ao governador do estado, aos presidentes da Assembléia Legislativa, do Tribunal de Contas e do tribunal de Justiça. Pela nova lei, passam a ter este direito,o Vice-governador,o advogado-geral do estado, deputados estaduais, secretários de estado, conselheiros do tribunal de contas, magistrados e prefeitos, o que certamente trará prejuízos para a investigação e o aumento da impunidade.

Agora, o governador tem 48 horas para promulgar a lei. Entretanto, em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, o tucano lamentou a derrubada do veto e disse que não o fará. "Devolverei a lei para a Assembléia e, se ela achar por bem promulgar, que promulgue. E essa passa a ser uma responsabilidade da Assembléia", avisou o governador. Aécio Neves, neste caso, agiu conforme se esperava de um governante que procura projetar a imagem de probidade: não compactuou com a imoralidade projetada pelos deputados. E , com isto ganhou pontos junto à opinião pública.Num contraponto à maneira como tem agido Lula , que sob qualquer pretexto se dobra à sua base de apoio, o governador mineiro se colocou contra a totalidade de seus aliados , e, paradoxalmente, recebeu o apoio da oposição petista.

A atitude imoral dos deputados mineiros provocou a reação indignada da opinião pública, e o temor de que o mau exemplo se estenda pelos outros estados da federação. Mas nem tudo ainda está perdido. O procurador-geral de Justiça, Jarbas Soares Jr., pretende enviar à Procuradoria Geral da República uma representação para que seja impetrada uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) para tornar sem efeito o projeto de lei complementar ou parte das medidas aprovadas pelos deputados. Estará, pois ,nas mãos do Supremo a permanência ou não de mais esta agressão à ética , à moral, e aos direitos dos cidadãos.

110807

terça-feira, agosto 07, 2007

ELE NÃO SABIA!

Afirmar que a atual crise é mais uma “herança maldita” como começam a insistir os petistas, é , afinal,uma pequeníssima parte da verdade. Se, por um lado é inegável que no governo de FH já existiam emergências que foram negligenciadas, o atual governo foi incapaz de detectar o problema, diagnosticar estas emergências , e implementar soluções.Ao contrário, durante todo o seu primeiro mandato , contingenciou as verbas para o setor, com o propósito de reforçar o superávit primário, então a prioridade do governo.

ELE NÃO SABIA!
Mais uma vez, o nosso presidente disse que não sabia. Desta vez afirmou que desconhecia a extensão da crise aérea, e que o assunto não havia sido discutido em nenhuma das campanhas presidenciais de que participou. Desde que assumiu o seu primeiro mandato, Lula vem, propositalmente, se fazendo de idiota. Alçado à presidência da República, tem agido mais como um bobo da corte do que como o rei da corte. Se tal comportamento é uma estratégia para se isentar de responsabilidades, se manter distante dos malfeitos protagonizados pelo governo, e conservar intacta a sua aura de “diferente dos demais políticos” , mantendo a popularidade junto à população mal informada, ele é mais esperto e maquiavélico do que muitos supõem.

O fato é que ao longo desses quatro anos e meio de governo , Lula tem procurado parecer uma mais uma espécie de espectador privilegiado das sucessivas crises que tem marcado o seu governo, o seu partido e sua base de apoio no Congresso, do que o responsável por tudo isso. Desde as primeiras denúncias envolvendo o assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz, braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu,até a atual crise aérea, o nosso presidente age como se tudo estivesse ocorrendo no Cazaquistão, na Turquia ou na Birmânia,e não no Brasil. Melhor dizendo, no seu governo, envolvendo assessores diretos , correligionários e até parentes.

A se acreditar no que ele diz, Lula não sabia do valerioduto, desconhecia o mensalão, não tinha conhecimento das negociatas do seu filho , desconhecia as atividades paralelas de ministros muito próximos a ele, como José Dirceu, Luis Gushiken e Antonio Palocci. Se a tática do alheamento deu certo no primeiro mandato, por que não repeti-la no segundo? Assim, ao invés de enfrentar frontalmente a atual crise aérea, reconhecendo os erros, pedindo desculpas e anunciando soluções para problema, o nosso presidente prefere se omitir, quando confrontado, e continuar a proferir uma seqüência de discursos vazios , recheado de bravatas,chistes e metáforas que arrancam aplausos das platéias bajuladoras mas aumentam a indignação da sociedade.

A propósito, uma parente de uma das vítimas do trágico acidente da TAM, afirmou-se perplexa e indignada ante a omissão do presidente, que nos momentos mais dramáticos que se seguiram ao acidente não teve a hombridade de se apresentar em público, prestar solidariedade às famílias enlutadas, e determinar providências imediatas. Num contraponto à atitude de Lula, nos Estados Unidos, logo após a queda da ponte sobre o Mississipi, o presidente Bush se apresentou em público, assumiu a responsabilidade pelo ocorrido e prometeu providências. Assim tem ocorrido em diversos países do mundo, onde o chefe de governo se coloca, sobretudo, como o líder de todo o seu povo. Aqui, Lula se considera líder apenas de uma parcela do povo. Aquela que vive das esmolas governamentais.

Se Lula, agora, afirma que não sabia da extensão da crise aérea,devemos concluir que algo funciona muito mal no Palácio do Planalto. Ou com o próprio presidente, ou com os assessores que deveriam lhe transmitir as informações. Afinal, a atual crise vem se desenhando há mais de uma década. Seus primeiros sinais foram emitidos com a falência de empresas aérea -VASP, VARIG, TRASBASIL -, o aumento crescente da demanda, o loteamento de cargos no setor da aviação civil, a tensão com os militares e o desleixo com a infra-estrutura. Na verdade, a crise que explodiu em setembro de 2006 com a queda do avião da Gol, tem como data emblemática o ano de 1999, com a criação do Ministério da Defesa e o controle do tráfego aéreo permanecendo as mãos dos militares, mas não se estabelecendo critérios para a fiscalização..

Afirmar que a atual crise é mais uma “herança maldita” como começam a insistir os petistas, é , afinal,uma pequeníssima parte da verdade. Se, por um lado é inegável que no governo de FH já existiam emergências que foram negligenciadas, o atual governo foi incapaz de detectar o problema, diagnosticar estas emergências , e implementar soluções.Ao contrário, durante todo o seu primeiro mandato , contingenciou as verbas para o setor, com o propósito de reforçar o superávit primário, então a prioridade do governo.

E pior, parece não aprender a lição porque na cola do apagão aéreo já se vislumbra um iminente apagão rodoviário.O que dirá o governo quando a crise anunciada explodir de vez? Que não sabia? Que não foi avisado? Que tudo é outra herança maldita da política neoliberal de FH? Estamos cansados das esfarrapadas de um governo incompetente que não faz o be-a-bá de suas obrigações.

Enquanto isso, dia após dia o nosso presidente continua a demonstrar que vem perdendo o senso da realidade. Segundo o articulista Clóvis Rossi, da Folha de S Paulo, é de Lula seguinte afirmação: “Em determinados casos, a gente não diz aquilo que pensa nunca, a gente faz como pode, e se não pode, a gente deixa como está pra ver como fica”. O que ele diz é, praticamente, uma confissão. Traduz o caráter do presidente com muito mais nitidez do que milhares de artigos e referências que sobre ele são publicados diariamente. Mostra que o bobo da corte o é por absoluta esperteza. E que ele sabe ser presunçoso e arrogante quando lhe convém. Só não tem sabido ser um gestor competente.
070807

sexta-feira, agosto 03, 2007

COM A BATATA QUENTE NAS MÃOS

A Assembléia Mineira comprou uma briga com o Ministério Público do estado. Foi aprovado pelos deputados, e está nas mãos do governador Aécio Neves, para sanção ou veto, o projeto que limita ao Procurador Geral de Justiça o direito de propor ações na Justiça contra o vice-governador,deputados, secretários de Estado, magistrados, conselheiros do tribunal de Contas, promotores e prefeitos. Trata-se de mais um casuismo imoral que, se aprovado, poderá representar o aumento da corrupção e da impunidade. E uma batata quente nas mãos do governador mineiro.


COM A BATATA QUENTE NAS MÃOS

Os deputados estaduais de Minas devem considerar que ainda são poucos os seus privilégios e que estes precisam ser ampliados. A exemplo dos seus colegas de Brasília, os parlamentares mineiros gozam de todas as vantagens e mordomias inerentes ao cargo, como quinze salários anuais, franquias postais, telefônicas e aereoviárias,verbas de gabinete, auxílio moradia,gratificação por cada sessão extraordinária, e mais uma série de vantagens e privilégios que deveriam constranger qualquer um que tivesse um mínimo de sentimento cívico e vergonha na cara, o que evidentemente não é o caso deles. Pelo contrário, a sua luta é pela ampliação de suas regalias.E para isto compraram uma briga feia com o Ministério Público mineiro.

Foi aprovado na Assembléia Legislativa, e agora depende da sanção ou do veto do governador Aécio Neves, um Projeto de Lei Complementar (PLC) que limita a atuação do Ministério Público Estadual. Pela atual lei, qualquer membro do MP pode investigar e propor ação civil pública contra deputados e outras autoridades publicas, o que certamente agiliza o processo e amplia o leque de autoridades sob investigação. Para se ter uma idéia, somente em BH a Promotoria Especializada Defesa do Patrimônio Público tem hoje em andamento 1003 inquéritos e 370 ações civis públicas ajuizadas contra gestores públicos como deputados,secretários de governo e prefeitos.Ao entrar em vigor, a nova lei certamente trará uma redução drástica no número de ações contra estas autoridades, o que fatalmente significará o aumento da impunidade e a multiplicação de práticas ilícitas por parte destes agentes públicos.Os deputados estaduais usam de suas prerrogativas para, mais uma vez, legislar em causa própria.

Denunciados pela mídia e pressionados pelo Ministério Público, os deputados se defendem com o falso argumento de que leis semelhantes já estão sendo aplicadas nos estados da Bahia, São Paulo, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Não é verdade.Na prática, conforme apurou o jornal Estado de Minas, apenas no MS a regra está em vigor. E em seis anos, das 483 autoridades investigadas pela procuradoria-geral daquele estado, apenas 35 delas foram alvos de ações judiciais, a maioria prefeitos.Querem os deputados estaduais que se repita em Minas o mesmo ambiente de impunidade que em MS já parece prevalecer.

Outro aspecto que merece ser considerado é o da constitucionalidade de tal projeto. Afinal, a atuação dos ministérios públicos é regulamentada pela Lei Orgânica Nacional, que delega à Procuradoria-Geral de cada estado exclusividade apenas nos atos envolvendo o governador, os presidentes de assembléias legislativas, tribunal de justiça e tribunal de contas.O MP já declarou que na hipótese de o governador vetar o projeto e o plenário derrubar o veto, vai apelar à Justiça, enviando ao procurador geral da republica um requerimento de ajuizamento de uma ação de inconstitucionalidade(Adin) no Supremo Tribunal Federal.

O governador Aécio Neves está com uma batata quente nas mãos, pois tem até a próxima terça feira o prazo para sancionar ou vetar o projeto. De um lado se colocam os que com razão vêem neste projeto mais um casuísmo imoral , que além de limitar a atuação de uma importante instituição pública, incentiva a pratica de malfeitos na administração e aumenta a impunidade de agentes públicos.Por isto querem que o governador vete o projeto, apesar da possibilidade do veto ser derrubado pelo plenário. Do outro, estão os que servem de base de sustentação na Assembléia deste governo, isto é, todos os partidos, exceto o PT.

Se Aécio se deixar levar pelo fator ético e moral não terá outro caminho a não ser usar o seu poder de veto.Com isto, ganhará pontos junto a sociedade, aplainando o caminho que levará à concretização do seu projeto político imediato, que todos sabemos ser a Presidência. Se, pelo contrário, se deixar conduzir apenas pelo imediatismo político, ou seja, o receio de contrariar a sua base parlamentar, estará demonstrando à sociedade mineira e aos seus possíveis futuros eleitores brasileiros que a sua fama de governante probo e austero não passa de uma fantasia sustentada por uma farta propaganda governamental. Será exclusivamente do governador o ganho ou a perda política, porque em matéria de ética e espírito republicano, os parlamentares mineiros já perderam todos os paradigmas.
030807