quinta-feira, julho 05, 2007

ENTRE DOIS FOGOS

O Rio de Janeiro , como de resto o Brasil, carece de uma política de segurança planejada, eficaz e efetiva.E para tal não basta subir os morros dando tiros a torto e a direito, liquidando bandidos, mas também matando inocentes. Será preciso subir também com políticas públicas que resgatem a dignidade dos moradores destas áreas e façam com que deixem de ser eternos reféns de assassinos e de balas perdidas, tanto de um lado como de outro.



Foto: Líbano, Iraque, Palestina? Não.É o Complexo do Alemão, Zona Norte, Rio de Janeiro, Brasil.

ENTRE DOIS FOGOS

Todos estamos de acordo que o governo deve ser eficiente no combate ao crime organizado. Não pode permitir que territórios permaneçam distante do controle do Estado, entregues a quadrilhas de traficantes com poder de vida e morte sobre a população , como ocorre agora no RJ. Durante décadas, numa mistura de negligência, incompetência e cumplicidade, os sucessivos governos do RJ - mais precisamente, a partir da primeira gestão de Leonel Brizola(1982-86) - não fizeram o seu dever, e, por isto, assistimos a ocupação progressiva dos morros e da periferia da cidade -maraviLhosa por quadrilhas de traficantes armados,que se encastelaram nestes territórios e impuseram as sua leis particulares, transformando-os em autênticos estados paralelos, sobre os quais o estado legal não tem nenhum controle.

Mas não é tão consensual o fato de que o combate à criminalidade no Rio de Janeiro, como ,de resto,no Brasil, não é uma tarefa simples, a requerer somente o uso da força. Os territórios onde os traficantes estabeleceram as suas bases, são, sobretudo, comunidades onde vivem milhões de cidadãos pobres e honestos, que, por absoluta falta de opção, são forçados a viver nestes espaços degradados e conflagrados.Mais do que ninguém, são estas pessoas as principais vítimas deste estado de caos social e legal que predomina nestes espaços.

A atual ação da polícia fluminense e das Forças de Segurança Nacional no conjunto de favelas denominado Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, tem sido alvo de controvérsias e de pesadas críticas no sentido de que ela extrapola da sua finalidade e entra pelo caminho do desrespeito aos direitos do homem e do cidadão. O fato é que são crescentes as denúncias de que os policiais envolvidos na operação não distinguem entre bandidos e cidadãos inocentes da comunidade. Muitos observadores, com um certo exagero falam em “genocídio”, e denúncias estão sendo encaminhadas a organismos internacionais de Direitos Humanos.

A operação de guerra que dura mais de50 dias já causou, pelos dados oficiais, 24 mortes e 76 pessoas feridas com gravidade.Segundo levantamentos não oficiais, o número de mortos e de feridos seria muito maior. Este cerco militar ocorre em comunidades nas quais vivem mais de 100.000 pessoas e têm alterado profundamente a vida cotidiana destas comunidades , além de cerceado direitos essenciais como o de ir e vir , e o de frequentar escolas- um total de 4.800 crianças sem estudar. Tem afetado a prestação de serviços essenciais como o da coleta de lixo e o fornecimento de água e de energia elétrica. Também vem sendo notado o fato de que a atenção da mídia para com a sorte da população que vive nestas comunidades tem sido infinitamente menor do que o espaço dado, por exemplo, quando conflitos envolvendo traficantes atingem bairros de classe média da zona sul, como Leblon, Ipanema ou Copacabana.

Na busca de uma solução para o problema da violência urbana e do crime organizado prevalece , infelizmente, o velho debate, radicalizado e maniqueísta, e, por isto, equivocado e infrutífero. De um lado, se colocam os que defendem o uso puro e simples da força
policial como a única maneira de liquidar o tráfico e a criminalidade, e desprezam o fator social como inserido no contexto da criminalidade. Do outro lado, estão os que consideram a criminalidade como resultado quase que exclusivo das desigualdades e das péssimas condições sociais em que vivem estas populações. Por isto, costumam minimizar a importância do uso da coerção e da repressão e priorizam a adoção de políticas públicas na área social como solução do problema.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O extremismo contido nestas posições, tanto de um quanto de outro lado, muitas vezes prejudica o debate e dificulta o encontro de uma solução eficaz.É preciso estabelecer certos parâmetros na discussão, para concluir que o ataque à criminalidade aguda deve ser feita, prioritariamente, pelo combate frontal às quadrilhas, desde que tal ação não ofenda os direitos fundamentais da população que vive nas comunidades dominadas pelo crime. Mas, a liquidação definitiva da criminalidade vai muito além do uso sistemático da repressão. Tem que conjugar a coerção com medidas sociais que acentuem a presença do Estado nestas comunidades, e afaste definitivamente as quadrilhas de traficantes..Em artigo anterior já mencionei que a Colômbia tem trilhado, com sucesso , este caminho e poderia servir de exemplo. O governador do Rio, Sérgio Cabral esteve lá. Só não se sabe se aprendeu a lição.

Neste caso particular da guerra entre policiais e as quadrilhas que dominam o Complexo do Alemão, é fato que, apesar de toda repercussão que a ação policial vem tendo, o uso continuado da força torna-se inútil, por não estar inserido num programa estratégico e amplo de combate à criminalidade. Ao final,de nada terá adiantado este enfrentamento entre bandidos e policiais , se, ao se retirar, a polícia deixar a favela entregue à própria sorte,pronta para receber de volta os traficantes. que voltarão a dominá-la

Daí cabe a pergunta: no atual contexto, o que tem sido feito para fazer o Estado uma presença efetiva na comunidade de tal forma a dar ao cidadão que nela vive a certeza de verem atendidas, permanente e continuadamente, as suas necessidades básicas no campo da saúde , educação ,saneamento, lazer e segurança? Pelo que se sabe, nada. E com isto quem sofre são os cidadãos pobres e honestos destas comunidades. E sofrem duas vezes: primeiro, na mão dos traficantes, pela total ausência do Estado nas suas comunidades.Depois , pelos excessos cometidos na ação policial

O Rio de Janeiro , como de resto o Brasil, carece de uma política de segurança planejada, eficaz e efetiva.. E para tal não basta subir os morros dando tiros a torto e a direito, liquidando bandidos, mas também matando inocentes. Será preciso subir também com políticas públicas que resgatem a dignidade dos moradores destas áreas e façam com que deixem de ser eternos reféns de assassinos e de balas perdidas, tanto de um lado como de outro.
050707

6 comentários:

É ASSIM MESMO disse...

Passou da hora da polícia invadir os morros. Só faltou o exército nessa, seria lindo uns tiros de morteiro caindo no alto da favela.. Que continue assim em todas as favelas dessa cidade, pq quem mora no morro e não ajuda os
policiais é conivente!!! voa sorte e sucesso pra PM, BOPE, FNS e outras polícias especializadas!!!

nidia disse...

A gente está numa sinuca de bico...
O juduciário não é confiável, não cumpre o seu papel, é tendencioso, e...sobra pra nós.
A polícia não nos protege. Ou o policial é da quadrilha, trabalha em concordância com o tráfico, ou o policial não diferencia bandido de cidadão honesto, e ....vai sobrar pra nós.
O cidadão não pode se defender. Tentaram nos desarmar, não conseguiram. Mas também não adiantou muito, pq se um cidadão honesto, cumpridor das leis matar o seu sequestrador, ou seu estuprador, etc, vai ser julgado e preso por homicídio. Ou seja, sempre sobra prá nós.
E então... quem poderá nos defender...?
Acredito que, se as coisas caminharem como estão, o que está acontecendo no RJ se estenderá a todo o Brasil. Isso aqui já é terra de ninguém.

Rebeca disse...

Boa análise Fernando.
Considero que a situação está como um barril de pólvora e com o pavio já bem curto, a ponto de explodir tudo.
Vislumbro uma possível melhora somente daqui... no mínimo 25 anos, se...se...se... a sociedade brasileira reagir bravamente hoje e exigir de todos os governantes(municipal, estadual e federal) uma mudança radical no sistema educacional brasileiro. Tudo começa em casa/família e na escola/educação. Somente uma nova geração com atitudes, valores, comportamentos, visão diferente de tudo que temos hoje, é possível uma melhora em todos os níveis, incluíndo aí a conscientização política para não se eleger um bando de "bandidos e marginais" de todos os níveis que vemos em Brasília e em nos outros poderes. Precisamos de renovação geral, começar do zero novamente. Caso isto não ocorra, o que vemos hoje no Brasil só tende a piorar.
Quanto aos policiais, considero uma classe trabalhadora bastante sofrida, lidando lado a lado com marginais do tráfico e com muito dinheiro rolando solto e fácil de ser pego.E com os baixos salários que recebem, são mal preparados e como "pais" e responsáveis por uma família, "tendem" a defender como meio de sobrevivência mesmo, o velho ditado: primeiro os meus, depois os teus. Volto a insistir, se o povo tivessem realmente uma educação de qualidade, com certeza o indíce de criminalidade, violência, diferenças sociais seriam bastante reduzidos.

Saulo -S Caetano disse...

Acho que se o sujeito é pobre e honesto como vc diz no artigo ele está do lado da polícia . Muitos moradores das favelas principalmente mulheres e menores, se oferecem como escudos humanos para proteger traficantes e sem -vergonhas e depois se fazem de coitadinhos, inocentes , etc. Acho que toda operação de guera é isto mesmo, morrem inocentes, mas precisa ser feita. Tudo bem que as favelas precisam de escolas, saneamento , etc etc. Mas primeiro a polícia tem qye ir lá fazero servicinho dela ...e serviço de políicia nao é distribuira flores..

JMU disse...

É... fascistas adoram o banho de sangue, mas só uma coisa: como
chegam as drogas no morro se lá não tem plantação de coca ou maconha? e as armas? isso a mídia oculta, mas quem é razoavelmente esclarecido sabe q essa indústria do tráfico passa pelos aeroportos, navios e estradas antes de
chegar no morro. E pra onde vai esse dinheiro arrecadado com a venda de drogas? Se ficassem os milhões nas mãos desses pés de chinelo do complexo do alemão e outros morros, o "estado paralelo" podia muito bem resolver problemas das comunidades q o estado oficial não resolve e não quer resolver.
Mas o q sobra é a morte...

Anônimo disse...

eu acho que isto que esta escrito no texto é verdade, ahhh o governador do Rio devia cuidar mais das favelas, e dar as pessoas de la uma vida melhor, e envez de mandara a policia fazer guerra com os traficates, a policia devia é ir la para ajudaras pessoas, e nao ter mais guerras dai ninguem ia morrer de bala perdida, e iso deixaria todos felizes, como quem morra la, e os que nao morram la na favela, e as pessoas que assistem na tv, essas coisas sobre tiroteio no Rio, bala perdida, e tudo mais, nao iam ver mais nada de ruim do Rio de Janeiro e la ia voltar a ser a cidade maravilhosa, e nao a cidade das guerras.