quarta-feira, abril 04, 2007

O 31 DE MARÇO

O certo é que nos 21 anos de poder militar, por culpa da ação dos extremistas de esquerda e de direita, o Brasil sofreu. Ficamos refém de duas forças ideológicas aparentemente antagônicas, mas que, paradoxalmente, compartilhavam a mesma fé no autoritarismo político e o mesmo desprezo pela liberdade: na extrema esquerda, lutava-se pela implantação da ordem socialista , ao custo da eliminação da democracia e da liberdade; na extrema direita, defendia-se o ameaçado sistema capitalista, também ao preço do sufocamento da democracia e das liberdade. Nesta luta entre os extremos, perderam os liberais, perderam os democratas, perdeu o País. E até hoje pagamos o alto custo desta aventura.


Jango não compreendeu bem o momento histórico no qual foi um dos principais atores

O 31 DE MARÇO

Rememoramos o golpe militar de 1964, que completa 43 anos. Fruto da irracionalidade e do extremismo político que marcaram aquele período, o povo brasileiro pagou com 21 anos de ditadura militar.e mais 22 anos de uma democracia instável e repleta de erros A lembrança da data assumiu um caráter muito mais atual num momento em que o presidente Lula ,transitando entre a sua atual posição de Chefe das Forças Armadas e a sua eterna vocação de líder sindical,contribui para a quebra da hierarquia militar, e, tal qual Jango em 1964, compactua com a indisciplina. Mas, felizmente, 2007 não é 1964, e, agora, as instituições não estão tão frágeis quanto àquela época. Mesmo assim, o perigo não deixa de existir.

Personagem principal desta história, o presidente João Goulart ( Jango ) foi um típico populista dos anos 50/60. Herdeiro direto de Getúlio Vargas, não tinha nem a força nem o carisma de seu mestre. Assumiu o poder em 1961 após a renúncia de Jânio Quadros, com forte oposição da direita e dos chefes militares. Teve que engolir durante algum tempo um regime parlamentarista que lhe foi imposto numa tentativa de restringir seu poder. Quando reassumiu totalmente seus poderes presidenciais,por força de um plebiscito, viu os conflitos sociais se exacerbarem, com grupos, organizações e movimentos de esquerda disputando influência sobre o seu governo.E muitos conseguindo exercer esta influência.

Comunistas, nacionalistas, trabalhistas, movimentos sindicais, estudantes da UNE, ligas camponesas, cada um a seu modo, pressionavam o governo a realizar as chamadas reformas de base. O Brasil tornou-se um laboratório para todo o tipo de experiência da esquerda. O governo não tinha controle sobre estes grupos, o que reforçava a impressão de anarquia . Sem dúvida, vivíamos uma outra época. O mundo, marcado pela “guerra fria”, se dividia entre os defensores do sistema capitalista a todo custo e os partidários do socialismo, segundo o modelo soviético. Não havia muito espaço para a racionalidade, para a moderação e o bom-senso.E menos ainda para a democracia, especialmente nos países subdesenvolvidos.


Na década de 1960, era ainda recente a inserção do Brasil no processo e industrialização O governo de JK havia deixado uma herança de modernização que se traduzia na melhoria da infra-estrutura, no apoio ao transporte rodoviário, nos investimentos na indústria de base e no fortalecimento da indústria de bens de consumo. Este novo estágio econômico se refletiu nas novas condições da sociedade urbana, com a proletarização da sociedade das grandes cidades e o conseqüente crescimento das reivindicações da classe trabalhadora. Colocando em segundo plano as reivindicações exclusivamente trabalhistas – melhores condições de trabalho e maiores salários - , fortemente influenciados pela ideologia e por lideranças marxistas, setores da classe trabalhadora passaram a contestar a própria ordem capitalista como um todo.


O extremismo de esquerda teve a reação imediata da extrema direita. Nesta luta de extremos, o governo parecia não compreender bem a situação. Fraco, indeciso e inábil, se tornou alvo fácil da manipulação de grupos extremados. Isto conduziu a um estado de alerta dos militares. A gota d’água foi o clima de insubordinação criado dentro das próprias Forças Armadas, levando à quebra da hierarquia ,que teve o apoio explícito do Presidente, fato inconcebível para os chefes militares. A revolta de sargentos, cabos e fuzileiros navais provocou a reação irada do alto comando, e Jango acabou deposto. Sob o argumento da ameaça da “comunização” do país, e com o apoio evidente do governo norte-americano ,as instituições democráticas foram golpeadas e um governo militar instalado. Jango caiu vitimado tanto pelos próprios erros, como pela força de uma conjuntura que ele próprio parecia não entender.

Nestes 43 anos, muita bobagem tem sido dita e escrita a respeito do período janguista. Setores de esquerda, até hoje, a ele se referem como o de uma espécie de “era pré -revolucionária”, na qual os trabalhadores, graças a sua “ intensa mobilização”, estiveram a um passo do “paraíso socialista”. Nada disto. A esquerda não era tão forte nem tão mobilizada como queria fazer crer. Estava dividida em grupos e sub –grupos heterogêneos, não estava estruturada, não possuía uma unidade de propósito, e carecia de lideranças e apoio externo capazes de conduzi-la ao almejado “paraíso”. Além disso, a sua negação dos princípios democráticos e o seu apego ao totalitarismo, inerente ao sistema que defendia, tirava dela qualquer apoio por parte da maioria da população, em especial da classe média..Ausência de apoio que foi decisiva para a derrocada do governo, deposto sem que ninguém movesse um dedo pela a sua permanência..

Por seu turno, a direita costuma tecer loas não só à ação “revolucionária” de 31 de março – ou 1º de abril – ,como também à permanência dos militares no poder por longos anos. Referem-se a esta ação como uma revolução da “liberdade e da democracia”, que afastou o país do fantasma do “totalitarismo.” Segundo os defensores do golpe, o prolongamento da tutela militar por longos anos foi uma necessidade para livrar completamente o país da subversão . Não é bem assim. Alguns dos participantes e apoiadores do movimento provavelmente estavam imbuídos de nobres ideais, e talvez depois tenham até se arrependido dos rumos tomados pelo regime militar. Mas o núcleo que comandou o golpe e que tomou o poder, certamente tinha na volta da democracia o último dos seus propósitos.O problema foi que ao livrar o país do fantasma do totalitarismo comunista, conduziram -no ao autoritarismo de direita, com todas as suas conseqüências nefastas : censura, prisões arbitrárias, exílio, cassação de mandatos, tortura e morte.

O certo é que nos 21 anos de poder militar, por culpa da ação dos extremistas de esquerda e de direita, o Brasil sofreu. Ficamos refém de duas forças ideológicas aparentemente antagônicas, mas que, paradoxalmente, compartilhavam a mesma fé no autoritarismo político e o mesmo desprezo pela liberdade: na extrema esquerda, lutava-se pela implantação da ordem socialista , ao custo da eliminação da democracia e da liberdade; na extrema direita, defendia-se o ameaçado sistema capitalista, também ao preço do sufocamento da democracia e das liberdade. Nesta luta entre os extremos, perderam os liberais, perderam os democratas, perdeu o País. E até hoje pagamos o alto custo desta aventura.

040407

6 comentários:

Anônimo disse...

NÃO É 31 DE MARÇO. É PRIMEIRO DE ABRIL!!!!!!!!

TEO-BH disse...

Fernando Soares, quero parabeniza-lo pela maneira equilibrada
com que vc postou O 31 DE MARÇO. Mas, com tudo isso
que vc disse, ainda nossos políticos demonstram a mesma
imaturidade do passado, ou seja, o governo encostando em Cuba, Venezuela
coisa que de nada valerá para o nosso povo Sem falar na falta de juízo que se instala nos diversos poderes do nosso país, onde a distribuição da renda, continua a ser como um feitor que só maquina obter benefícios de um povo tão sofrido com a nossa gente. Os impostos,
os salários de deputados, as injustiças, ACHO QUE JÁ
É HORA DE ESCOLHERMOS O NOSSO CAMINHO DE LIBERDADE

LINO ROSSI disse...

É INTEIRAMENTE FALSO ATRIBUIR À"DIREITA" O DESEJO DE POR FIM À DEMOCRACIA.
DEFENDO A INTERVENÇÃO DOS MILITARES NA POLÍTICA BRASILEIRA. POUCOS TEM CORAGEM DE DIZER O QUE EU DIGO. MAS A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES FOI DECISIVA PARA NOS LIVRAR DA ANARQUIA COMUNISTA E DA CORRUPÇÃO CANCEROSA QUE TOMAVA CONTA DO PAÍS. HOMENS COMO CASTELO BRANCO, GARRASTAZU MEDICE E ERNESTO GEISEL FORAM HONESTOS, INTEGROS ,AUSTEROS E COMPETENTES, COISA QUE NÃO SE VÊ NO BRASIL ATUAL. DEPOIS DELES O QUE TIVEMOS? O CORRUPTO DO SARNEY, O CORRUPTO DO COLLOR( FOI ATÉ DESTITUIDO), O FRACOTE DO ITAMAR, E O INCOMPETENTE DO LULA. QUEM OUSA AINDA CRITICAR OS MILITARES??

rosena disse...

Não vivi a época da ditadura militar. Sou mais novinha, né? Mas pelo que sei foi uma época brava. muita gente apanhou , foi presa torturada, morta e coisa e tal. não queria que o Brasil vivesse outa vez esta época.Concordo que a nossa classe política não é das melhores, mas ao menos temos a liberdade de criticar o lula e esculhambar estes políticos , coisa que naõ acontecia naquela época.Ao contrario do que diz o Lino, ditadura nunca mais!

nidia disse...

Liberdade, democracia existe mesmo? Não sei... De que adianta podermos falar o que nos dá na telha se NINGUÉM escuta...Os politiqueiros de hoje não estão nem aí com a nossa opinião, se estamos gostando ou não. Não faz a mínima diferença pra eles. Estamos vivendo um "fundo de poço" onde não dá prá descer mais. Não temos dignidade, estamos sendo acharcados cada vez mais por esse regime "democratico" que mais parece um feudo daqueles onde o rei é um déspota, maníaco por dinheiro. Nossos direitos, que deveriam ser garantidos pela nossa constituição, estão sendo atropelados e jogados pra debaixo do tapete. Não temos ninguém por nós, ninguém que nos defenda, ninguém em quem confiar. Mas ficamos nos consolando com essa conversa de democracia e liberdade.
Precisamos de um governo que nos respeite e nos garanta o mínimo de confiança no futuro, e as mínimas necessidades do presente.
Agora a conversa (tem fumaça no ar) é de que a previdência não vai dar conta de pagar aposentadoria pra todo mundo, então, vão dar uma modificadinha na coisa pra que cada vez menos pessoas consigam o seu benefício, de direito. Só que para os politiqueiros a aposentadoria (gordíssima aliás, diga-se de passagem), e após 2 mandatos, vai continuar...
Ficam enrrolando se se abre CPI ou se não, quando acontece alguma coisa com mau cheiro muito grande, só pra enganar o povo, pra dizer que tem alguém interessado em ser "honesto"`. É uma grande piada, só que perdeu a graça. Faz tempo que a gente não tem vontade de rir da nossa desgraça. Pra que CPI se eles não vão resolver nada mesmo? Qual foi om resultado das CPIs da gestão passada desse esperto e desqualificado presidente lula? Sanguessugas, correio, mensalão, dinheiro na cueca, dossiê, etc. Que fim deu????

Rebeca disse...

Muito bom o artigo.
Nasci com o início do “nosso período democrático” e aprendi apenas nos livros, filmes, conversas sobre este período.
E acho que existe um certo exagero por parte de muitas pessoas em relação ao regime militar; ditadura; repressões; exílios políticos; prisões; violência; torturas.......Está certo que pequenos grupos mais atuantes da época sofreram mais e muitos não estão aqui para nos dizer realmente como foi na época. A maioria das pessoas pegam “na onda da ditadura”.
Fato é que este período caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar.
Mas, vocês não acham que vivemos em uma época muito, muito pior?
Vivemos numa sociedade democrática? Não.
Nosso governo é democrático? Não.
Temos nossos direitos constitucionais respeitados? Não.
Somos todos iguais perante a lei? Não.
Perseguição política e repressão? Sim temos. Só para lembrar: o caseiro, caso Pallocci ou de “quem entrar e atrapalhar o meio de campo deles”.
Censura? Sim temos. Censuras de jornalistas; CPIs bloqueadas e “n” não resolvidas; escândalos abafados.
Hoje temos mais violência em qualquer lugar que se vá. E a pior violência é a que o governo nos faz: pagamos altíssimas taxas tributárias e não temos nenhum retorno.
Liberdade democrática?
Não acredito mais nisto. Se lembrarmos da nossa bela mistura, sabemos que temos os genes da submissão absoluta, da humildade, da obediência cega e paradoxalmente o gene do “jeito brasileiro”. Não somos um povo lutador, com consciência de cidadania. Por isto e muito mais o Brasil está assim.