terça-feira, março 27, 2007

UMA (QUASE) UNANIMIDADE

Concretizados com sucesso todos esses passos, e, ao mesmo tempo, assegurando e ampliando a manutenção do apoio popular de que desfruta, Lula poderá ter pavimentado o caminho que o levará a dar a cartada decisiva no sentido de prorrogar o seu mandato, dar um pontapé na democracia, e prolongar a sua estadia no poder por, no mínimo 20 anos, conforme parece ser o seu desejo.





















Lula e a salada de partidos de sua coalizão. "Toda a unaminidade é burra"( Nelson Rodrigues) e, neste caso, pode conduzir ao autoritarismo.


UMA (QUASE) UNANIMIDADE

Lula praticamente terminou a composição de seu ministério. Como poucas vezes se viu na História do Brasil, o presidente neste início do seu segundo mandato é quase uma unanimidade no mundo político, isto apesar de ter atravessado o primeiro mandato conturbado por denúncias de corrupção em seu governo.Fazendo chegar ás últimas conseqüências a crença de que “é dando que se recebe”, o ex-líder metalúrgico e ex-líder do raivoso PT oposicionista, de ardente defensor da ética e dos bons costumes na política, passou agora a praticar, com o mais descarado cinismo, o mesmo jogo de troca de interesses e de favores que condenava antes, com singular veemência.

Lula parece não ter esquecido completamente a sua verve reivindicatória e a sua pose de defensor dos trabalhadores. Só que, agora, direcionada à defesa de seus ministros – “recebem muito pouco”- e de usineiros de cana de açúcar –“são verdadeiros heróis nacionais”. Nesta linha de pensamento,não fica difícil imaginar o que o presidente operário pensa, por exemplo , sobre os banqueiros. Apesar de ainda não ter manifestado explicitamente solidariedade a esta categoria, tal como ocorreu com os ministros e os usineiros, fica fácil supor qual o conceito presidencial a respeito, dada à benevolência com que os bancos vêm sendo tratados em seu governo.

Mas, voltando ao que interessa, o fato é que concedendo cargos, fatias de poder, benesses e dinheiro público, Lula conseguiu agregar em torno de si a maioria absoluta dos partidos políticos, com destaque para o PMDB.Este conseguiu abafar as divergências internas em troca de um propósito muito mais “nobre”, ou seja, o de participar vantajosamente da divisão do bolo ministerial.De fato, demonstrando que na política brasileira, muito mais do que teses, princípios, programas e idéias o que vale são cargos, poder, verbas e prestígio, os partidos, um a um, se curvaram diante do “Rei” e prestaram juras de “fidelidade eterna”.Fica difícil saber até quando durará esta “eternidade”. Provavelmente enquanto durar a popularidade de Lula, e estes partidos sentirem que o apoio presidencial é fundamental em seus propósitos eleitorais mais próximos.Como as condições atuais não permitem que se vislumbre no horizonte da política nada que sugira a perda do apoio popular à Lula, o mais provável é que o presidente permaneça por um bom tempo com a sua atual fatia de 75% do Congresso, deixando para a oposição os 25% restantes.

O próprio presidente, no auge do seu deslumbramento, reconhece esta quase unanimidade, construída às custas do mais deslavado fisiologismo, e já faz projeções para um futuro muito além dos seus constitucionais quatro anos de mandato. E é justamente aí que mora o perigo.Num de seus pronunciamentos da semana passada, ele afirmou que “não queremos uma coalizão só para o imediatismo da votação de um projeto de lei de interesse do executivo, mas que é possível fazer política pensando no país em 20 anos e não em quatro anos”.O que para muitos não passou de uma mera afirmação de que o país precisa de políticas consistentes e efetivas, o que faz sentido, para outros mais atentos soou como uma manifestação inequívoca de um acalentado sonho autoritário, o que, dada as circunstâncias de como vem sendo construído o segundo mandato de Lula, faz mais sentido ainda.

As condições para a implementação de um governo autoritário e populista no Brasil já estão sendo montadas.A oposição, enfraquecida e com pouca disposição para ações contundentes, porém conseqüentes, ficou praticamente resumida a dois partidos: o PSDB e o ex-PFL. Os tucanos atravessam uma grave crise existencial e ainda não se recuperaram do nocaute sofrido pelo seu candidato Geraldo Alckmin, que durante a campanha foi incapaz de valorizar os feitos da administração de FHC, tais como a estabilidade, as privatizações e o equilíbrio fiscal.O PFL atravessa uma crise de identidade tão forte, que o levou inclusive a mudar de nome. Agora é Partido Democrata( PD), ou, simplesmente, “Democratas”.O fato é que no Congresso, os membros sobreviventes destes dois partidos – pois muitos se bandearam para partidos governistas – começaram mal.Ao invés de enveredarem para a prática de uma oposição séria e conseqüente às ações e projetos e do governo, estão preferindo, mais uma vez , o caminho da inconseqüência e do puro jogo de cena, consubstanciados nas tentativas de instalação de CPIs a torto e a direito, numa ação equivocada que não esconde o desejo de atrair os holofotes da mídia e os consequentes quinze minutos de fama. Não é assim que se faz oposição.

Em 2005, Lula teve conhecimento da “competência” deste tipo de oposição de porta de delegacia, e, agora, deve estar morrendo de rir ao ver que a oposição não aprendeu a lição. O fato é que Lula, seja qual for o seu projeto para os próximos quatro ou vinte anos, tem muito mais que se preocupar com os seus aliados do que com a oposição. Ele já teve a experiência do estrago que uma aliança heterogênea e mal conduzida pode fazer no seu governo, e certamente não vai querer repetir a dose.

. Muito mais preocupado ficará Lula com o comportamento dos aliados, se seus planos de poder se projetarem para muito além dos constitucionais quatro anos de seu segundo mandato, como tudo parece indicar.Fortes indícios desse propósito não faltam. Sem contar com o primeiro passo, que consistiu nos arranjos para a formação de uma aliança forte, praticamente eliminando a oposição, o governo tem encaminhado e sugerido outras medidas e projetos que caminham neste mesmo sentido: a celeridade na votação do PAC- espécie de “Fome Zero” do segundo mandato - , o início das obras de transposição do rio São Francisco, a votação do projeto que concede ao presidente maiores poderes para a convocação de plebiscitos- passo decisivo para a concessão de um terceiro mandato ao presidente –, a implementação do projeto de uma rede de TV estatal, à serviço do executivo , e a intensificação do programa Bolsa Família, aumentando o valor do benefício e estendendo-o a um número muito maior de famílias.

Concretizados com sucesso todos esses passos, e, ao mesmo tempo, assegurando e ampliando a manutenção do apoio popular de que desfruta, Lula poderá ter pavimentado o caminho que o levará a dar a cartada decisiva no sentido de prorrogar o seu mandato, dar um pontapé na democracia, e prolongar a sua estadia no poder por, no mínimo 20 anos, conforme parece ser o seu desejo.Para a infelicidade do Brasil.270307

7 comentários:

nuno disse...

Vejo uma contradição no seu artigo. Se Lula tem pretensões ditatoriais como vc dá a entender por que razão ele faz uma coalizão de partidos, buscando o apoio de um maior numero deles? As negociações para a formação de uma ampla aliança de apoio no Congresso fazem parte da democracia e significa que o presidente quer governar com o congresso.É claro que ele quer um Congresso com ampla maioria a seu favor. Isto é natural. Se Lula tivesse este sonho autoritário seria mais viável ele buscar apoio em outros setores, como as forças armadas, por exemplo.Não acha?

K J disse...

Como vencer uma eleição presidencial no Brasil e ser uma unaminidade? Simples: 1- Ser bravateiro e falastrão dizendo sempre que não sabia de nada quando estoura um grande escândalo escancarado. 2- Dar esmolas ao povão pra torná-lo dependente do governo e dizer que se o adversário vencer a eleição a mamata vai acabar. 3- Pôr a culpa na imprensa golpista por todas as mazelas do seu governo. 4- Ter sempre os banqueiros ao seu lado remunerando-os bem com boas taxas de juros. 5-Contar com a sorte de pegar bons ventos da economia mundial, sem crises relevantes. 6-Quando tiver um crescimento de PIB mixo, desconversar dizendo que houve melhor distribuição de renda e mandar o IBGE mudar a fórmula de cálculo pra melhorá-lo.7- Ter uma oposição frouxa e desconectada do povo

kj disse...

Nuno...pelamordedeus!Vc acredita nisso?Deixar partidos políticos de quatro, oferecendo cargos e muita grana é democracia?Onde ficam os projetos, as idéias ?Veja como Hitler começou, como Mussoline começou. É só pegar um manual de História e estudar um pouquinho.Em todo caso, saudações antipetistas.

rosena disse...

Nada me tira da idéia de que Lula não vai largar o osso tão cedo.tudo corre a seu favor. Os tucanos estao tontos, o PFlL quer ser chamafo de Democratas-DEM. ja tem gente chamando-o de DEMonio, DEMagogos, DEMentes, DEMolido.Tamos perdidos.

Rebeca disse...

O que vemos e assistimos o que acontece em Brasília é no mínimo o lado negro da política.
E o pior, é que eles devem de rir de todos nós pobres brasileiros, que pagamos altas taxas tributárias e mantemos os seus luxos, suas boas vidas.E sabem muito bem que estamos de pés e mãos amarrados.

Fernando Soares disse...

Nuno.O sonho de um governo populista e autoritário acalentado por Lula não exclui a existência das instituições e do funcionamento dos demais poderes. Vc deve ter percebido que eu não estou falando do estabelecimento de uma ditadura nos moldes clássicos, conforme vc deve ter entendido.Portanto, não existe contradição no fato de Lula estar em busca de uma maioria massacrante no Congresso e suas possíveis petensões de se prolongar no poder.Um Congresso submisso pode ser utilíssimo às suas pretensões.

Patrício no Pilar disse...

Tomei um calote de Ciro Gomes em 2000 e até hoje não vi a cor da grana...fiz então um blog para anunciar com humor e contundência não só o calote como muitas facetas interessantes desse político cuja maior característica é não ter coerência alguma. O resto vocês julguem... e se gostarem espalhem o endereço por aí. Gratíssimo pela atenção...

Patrício no Pilar
http://cinevertigem.blig.ig.com.br