quinta-feira, março 22, 2007

O PEQUENO SALTO ADIANTE


China paradoxal; a modernidade de Xangai contrasta com o autoritarismo do regime de Wen Jiabao

O PEQUENO SALTO ADIANTE
Enquanto alguns países insistem em dar marcha a ré na História, a China concretizou um pequeno salto para frente na sua economia.Na última sexta-feira, dia 16, a Assembléia Popular da China, o parlamento chinês, aprovou a “Lei de Propriedade Privada no País”. Segundo o texto da lei, “a propriedade do estado e do coletivo, do indivíduo e de outras proprietários é protegida por Lei, e nenhuma unidade ou indivíduo poderá infringir este direito”. Trata-se de um pequeno, porém significativo avanço do país. Mas ao contrário do “grande salto para frente” de 1958, que visava consolidar com mão de ferro as bases do regime comunista e da economia estatal, o atual salto foi na direção oposta, ou seja, na da economia de mercado e do aperfeiçoamento do capitalismo no país.

Recuando no tempo, durante o século XX, a partir da revolução comunista de 1949, a China construiu um dos regimes mais fechados e repressivos do mundo. As terras, as propriedades, bem como toda a produção agrícola e industrial e o trabalho foram estatizadas, e o controle do estado sobre os indivíduos passou a ser total. O regime chinês conseguiu criar duas frentes inimigas: o “imperialismo” norte-americano e o “revisionismo” soviético, partindo daí para a construção de uma ideologia bem particular – o maoismo – e a transformação do país num gigantesco estado militar, massificado por uma sistemática doutrinação ideológica, e pronto para ampliar a sua área de influência e repelir qualquer agressão .

Sob sangue, suor e lágrimas de milhões de trabalhadores, grande parte sucumbidos diante do esforço sobre-humano a que estavam submetidos no propósito de alcançar as metas estabelecidas pelo governo, a China se transformou muito mais num gigantesco mito do que no paraíso social e econômico que a propaganda oficial comunista insistia em fazer parecer. Mesmo assim, tal regime mereceu o aplauso e admiração de milhões de adeptos em todo mundo e chegou a ser uma referência forte no movimento estudantil de 1968. A Revolução Cultural, a Guarda Vermelha e o Livro dos Pensamentos de Mao-Tsetung passaram a ser símbolos admirados e cultuados por jovens europeus e latino americanos, que enxergavam no regime chinês o palco da construção do novo homem e da nova sociedade, ao mesmo tempo que se decepcionavam com o a burocratização excessiva e o pouco charme do regime soviético.

No final da década de 1980, um a um, os regimes comunistas sob modelo soviético foram caindo de podre, substituídos por economias de mercado e arremedos de democracia. A China sobreviveu a esta débâcle graças ao processo de liberalização econômica empreendida no governo de Deng Xiaoping.Uma reforma nas estruturas arcaicas do estado e da economia, ao lado de uma renovação nos quadros do PC chinês, colocou no poder uma nova geração de políticos e burocratas mais afinados com a modernidade. Esta geração de dirigentes abriu as portas e os portos da China à penetração de produtos, tecnologia e investimentos que possibilitaram o estabelecimento nas grandes cidades, de autênticas ilhas capitalistas dentro de uma economia ainda formalmente socialista.

Tais medidas liberalizantes, somadas, paradoxalmente, à manutenção do rígido controle exercido pelo PC sobre os demais setores da nação, foi o que possibilitou que a China não tivesse o mesmo destino dos demais países comunistas.E mais: a ainda recente inserção da China em posição vantajosa na competição capitalista internacional tem se processado de uma maneira, no mínimo, desleal. Afinal, ela se dá sob o esforço de uma mão de obra extremamente aviltada, da completa ausência de leis trabalhistas, dos baixos impostos,e de uma “ordem social” imposta sob a tutela das armas.

O fato é que por tudo isso a China é um caso atípico, que merece ser estudado profundamente por economistas e analistas políticos.Sob o comando de políticos pragmáticos, como o atual primeiro ministro Wen Jiabao,o governo tem liberado, gradativamente, a economia, mas mantém com mãos firmes as rédeas do controle político. Mesmo na economia, o estado continua exercendo profundo controle sobre sete setores estratégicos:bélico, elétrico, petroquímico, carvoeiro, telecomunicações, aviação civil e transporte fluvial. A propriedade das terras permanece restrita aos centros urbanos e ao litoral. Nas demais regiões, prevalece a propriedade estatal, com concessão aos trabalhadores pelo direito de uso.

Muitos acreditam que a atual liberalização econômica levará o país , inevitavelmente, à liberalização política. Um dos campeões mundiais na repressão política, censura à imprensa e desrespeito aos direitos humanos, a liberdade econômica da China certamente conduzirá a uma maior troca de informações, a liberalização dos costumes, a penetração de novas idéias e um amadurecimento cultural que, mais cedo do que imagina a casta dirigente do país, conduzirá a uma pressão por democracia.

Bom que assim seja. Apesar de o atual processo de abertura da economia ter sido forjado sob a tutela do autoritarismo, a expansão e complementação deste processo somente será possível num ambiente de liberdade e justiça, tal como acontece na maioria das nações desenvolvidas do mundo.
220307

4 comentários:

ricardo disse...

Fernando Soares. muito bem colocado pelo seu texto os dois aspectos da China. O econõmico e o político. Eu acrescentaria o seguinte:A China não respeita as normas do comércio internacional, vende produtos de pessima qualidade, utiliza-se de mao de obra escrava,sua economia é subsidiada pelo estado. A China deixou de ser uma economia comunista mas nao se transfomou numa economia civilizada. Pratica o puro capitalismo selvagem

saulo disse...

No mundo atual ninguem acredita mais em ideologias. O PComunista é comunista somente no nome,e cada vez mais se entrosa como o mundo capitalista. O PT...alguem acredita que é um pardido dos trabalhadores? Nada disto. É tão burguês quanto os demais. Ideologia é apenas um truque para se alcançar o poder e se dizer popular. A China chama-se Republica Popular. Lula deve ter inveja destes manda chuvas chineses.

Nuno disse...

O seu artigo é interessante e sobre ele quero fazer alguns adendos.
A ditadura chinesa planeja, cooordena, programa o capitalismo chinês, tal como comandava o comunismo no tempo de Mao.A diferença é que parte do capital é privado.Os salários dos trabalhadoes chineses são baixíssimos devido a uma determinação do estado. E algum patrão acha isto ruim? O capitalismo chines adora a ditadura "comunista" chinesa. È ela que lhe garante os fantásticos lucros e a entrada nos mais diversos países, inclusive o Brasil.Esta convivência entre um estado totalitário e as leis de mercado naõ é npvidade no mundo do capital. Hitler fazia isto. Pinochet também. Agora os chineses fazem com sucesso para o capital. pergunte aos trabalhadores se eles estão satisfeitos.

Rebeca disse...

Quanto ao sistema político chinês, acredito que de comunismo não existe nada, é apenas fachada. Porém a China não está preparada para uma a democracia, pois, nunca teve tradição democrática. E mesmo que venha a ter um sistema democrático terá características específicas chinesas.
Acredito mais que seu regime político aplicado nas relações de trabalho e na economia como um todo aproxima muito mais de uma economia capitalista.
A economia chinesa tem uma conjunção de fatores domésticos favoráveis: inflação baixa, estabilidade cambial, investimento em capital fixo e humano(o Brasil deveria imitar este investimento no ser humano). E os externos : elevadas taxas de crescimento das exportações, baixo nível de endividamento externo, aumento no grau de abertura comercial e financeira..

Porém a qualidade dos produtos deixam a desejar.