sexta-feira, outubro 27, 2006

ERROS E ACERTOS

Para muitos, os maiores erros de Alckmin devem ser atribuídos a uma estratégia errada de marketing.Mas não foi apenas isso. Faltou muito mais à campanha oposicionista. Como numa partida de futebol decisiva, faltou ao time tucano unidade, garra, técnica, força no ataque e vontade de vencer. Por seu turno, a campanha petista teve tudo o que faltou na campanha tucana e mais alguma coisa.



Democracia é assim mesmo. Agora não adianta chorar sobre o leite derramado.Lula venceu tanto pelas virtudes quanto pelas mazelas de sua campanha, e Alckmin perdeu pelos sucessivos erros de sua campanha .A passagem de Alckmin ao segundo turno entusiasmou seus partidários e criou a falsa impressão de que dali para frente ele só teria a crescer, conquistando novos eleitores, órfãos das candidaturas de Cristovam Buarque e Heloisa Helena, enquanto a Lula só restava o caminho ladeira abaixo. Aconteceu o contrário.

Ao iniciar o segundo turno, iniciou-se também a série de erros cometidos pelo candidato tucano. Perdeu a semana inicial em busca de apoios políticos equivocados e insignificantes, como o do casal Garotinho no RJ, que além de não acrescentar nada em sua campanha provocou uma cisão entre os seus aliados cariocas.A esperada recusa do apoio de Heloisa Helena a qualquer dos candidatos afetou menos do que o esperado, e negado, apoio do PDT de Cristovam Buarque, que também preferiu declara-se neutro. Ponto para Lula.

Contribuiu para esfriar a campanha também o adiamento, com a concordância do candidato, da propaganda eleitoral na TV e no rádio que somente teve início no dia 12 de outubro, o que só favoreceu a Lula, que teve uma semana de exposição constante na mídia por força de seu cargo de presidente. Lula e os petistas agradeceram a generosidade tucana e souberam aproveitar bem este tempo.

Contribuindo para deixar Alckmin sempre na defensiva, Lula e sua turma partiam para o jogo duro e rasteiro, e tratavam de espalhar boatos. Como os que diziam que , caso vitorioso, Alckmin retomaria a política de privatizações- o que assustou boa parte da classe média – e acabaria com o Bolsa Família- o que espantou mais ainda a classe pobre. Tratava-se, evidentemente, de um factóide lançado pelos petistas sobre a candidatura tucana, mas para uma partido que no governo fez coisa muito pior, a onda de terror eleitoral significava nada mais do que um golpe abaixo da linha da cintura. E seu certo. Os tucanos pegos de surpresa,perderam um enorme tempo se defendendo de algo que, aparentemente, não estavam em seus planos de campanha.

Mais uma vez,usando a arma da esperteza , a campanha de Lula insistiu em associar Alckmin ao governo de FHC. O candidato oposicionista poderia ter aproveitado o ensejo para explicar que sentia orgulho de muitas das realizações de FHC. Afinal, foi no governo tucano que a estabilidade monetária foi conquistada, a renda média do brasileiro teve um aumento real, a reforma da previdência, tão necessária, foi iniciada, e a Lei de Responsabilidade Fiscal foi criada. Ocorreram avanços na área da educação e da saúde, e a criação de programas de assistência social – Bolsa Escola, Programa de Erradicação do trabalho Infantil- exigiam uma contrapartida de quem recebia estes benefícios.Em vez de assumir o lado positivo do governo anterior, Alckmin continuou caindo nas armadilhas construídas pela campanha petista, limitando-se a permanecer na defesa.

Finalmente, a campanha televisiva foi outro aspecto decisivo na vitória do petista. Tendo como alvo principal o eleitor médio, cuja fonte de informação política não vai além do JN da Globo, a campanha de Lula no rádio e na TV foi muito mais bem construída e direcionada que a do adversário.O marketing petista funcionou bem ao apresentar realizações e projetos carregados com tintas de emoção e de otimismo,enquanto ao programa tucano faltou emoção,criatividade e indignação. Alckmin insistia em reprisar indefinidamente acusações contra o petista. O que funcionou no primeiro turno, mas pareceu cansar no segundo turno. O eleitorado majoritário carecia muito mais de propostas, projetos e promessas, mesmo que a maioria delas parecessem utópicas e enganosas A campanha de Alckmin, sem conseguir convencer em que o seu governo poderia ser diferente, insistiu na mesma tecla do petista – a tecla do assistencialismo- mas o fez sem conseguir transmitir a mesma carga de convencimento da propaganda petista, o que levou a campanha de Lula a criar o bordão “não troque o certo pelo duvidoso”

Os debates cansaram pela repetição dos temas e táticas. Com exceção do primeiro deles, transmitido pela Band, em que Alckmin se apresentou crítico e contundente contra um Lula acuado. Também não ajudaram para o crescimento do candidato tucano porque, em que pese o seu discurso correto, com ênfase no combate à corrupção, transmitiu uma certa dose de arrogância,frieza e provincianismo paulista em contraposição a um Lula mais relaxado, irônico e debochado, porém dotado de uma maior empatia e sabendo como poucos apelar para a emoção.Como o que vale na TV é a imagem muito mais do que as palavras, a de Lula, muito mais conhecida e com uma dose maior de carisma , mesmo a dizer mentiras, parece ter seduzido a maioria dos telespectadores.

Para muitos, o maiores erros de Alckmin devem ser atribuídos a uma estratégia errada de marketing.Mas não foi apenas isso. Faltou muito mais à campanha oposicionista. Como numa partida de futebol decisiva, faltou ao time tucano unidade, garra, técnica, força no ataque e vontade de vencer. Por seu turno, a campanha petista teve tudo o que faltou na campanha tucana e mais alguma coisa: teve o uso e abuso da máquina pública,teve a montagem do falso dossiê antitucano, teve a ação eleitoreira da PF no sentido de retardar as investigações a respeito do dossiê ,teve uma unidade de propósito entre os militantes e os aliados,e , principalmente,teve Lula , que mesmo tendo o seu governo acossado por denuncias, conseguiu convencer a muitos de que era inocente e reforçar a imagem de homem do povo , pai dos pobres. Uma mistura de Moisés com Robin Hood, capaz tanto de tirar dos ricos para dar aos pobres, como de levar o povo carente à terra da fartura.


Mas, como disse no início, democracia é assim mesmo. E eu continuo achando que a pior democracia - esta com Lula no poder, por exemplo – é melhor do que a melhor das ditaduras. Pelo menos a democracia permite que os cidadãos de bem continuem o seu trabalho no sentido de aperfeiçoa-la e de faze-la cada vez melhor,. Para aqueles que viam o Brasil algo além da mediocridade prometida por Lula ,a atual batalha está perdida, mas a guerra mal começou. Vai continuar no segundo mandato de Lula.Não usando as armas do golpismo, como apregoam os petistas,. mas usando as armas da democracia como a Imprensa, o Ministério Público, o Congresso, as organizações civis, as manifestações públicas de protesto e sem sair dos trilhos da Constituição.

O início de um novo mandato não terá o dom de apagar as manchas deixadas pelo mandato anterior. E é para o bem deste novo mandato e da democracia que estas manchas sejam expostas, esclarecidas e eliminadas. Lula pode se preparar. Não terá um caminho fácil. Poderá optar entre trilhar o caminho da ética e da democracia ou continuar no caminho do autoritarismo e da corrupção. De sua escolha dependerá a reação dos setores lúcidos da sociedade. No próximo dia 29 poderá conquistar mais de 60% dos votos,mas certamente haverão mais de 30% que conhecem as suas mazelas e não se deixarão seduzir pelo canto de sereia do sapo barbudo.
271006

12 comentários:

alguem disse...

Fernando Olhe, eu voto no Alckmin ate' que com uma certa conviccao.
Mas nao tenho esperanca nao. A campanha lulista foi pesada, a tucana foi muito mediocre.

sorus disse...

O texto é, por ora, o mais eloqüente atestado de óbito da candidatura Alckmin já emitido por um integrante do consórcio tucano-pefelê. César Maia dá de barato que a eleição está no papo... De Lula, naturalmente.

MESQUITA disse...

Fernando
Quem tem razão?
O presidenciável que apoia as privatizações, mas diz que não PRIVATIZARÁ?
Ou o outro, tão sem convicção, que diz que a privatização foi um crime, mas não apurou nada nem fez a REESTATIZAÇÃO?
Os dois são falsos, tentam enganar o cidadão-contribuinte-eleitor, mentem descaradamente.
A solução seria não votar em nenhum.

Vladimir Lacerda Mariano disse...

Sou Lula e não tenho duvidas quanto a isto,no entanto queria ressaltar que entre tantos comentários sem nexo o seu é o que melhor combina com bom senso e realidade política.A disputa eleitoral termina domingo , o jogo político é eterno e vamos a luta.

sorus disse...

Orgulho-me ao ver pessoas esclarecidas apoiarem Lula.
Voto em Lula e não recebo benefícios. Ao contrário,faço parte de um grupo privilegiado e crescente de pessoas desassossegadas diante da injustiça social que acomete o “pobre coitado que teve a infelicidade de nascer neste país”.
Voto consciente e inevitavelmente contra a soberba daqueles que “têm grana no final de semana pra beber cerveja e ver os jogos de futebol” e que abriram mão de sentimentos mais humanos e do respeito mútuo em favor de um quinhão maior daquilo estimam ser felicidade.
Rico de mim,que luto por uma sociedade mais igualitária e me sinto contemplado pelo êxito do povo brasileiro e pela ruína do vil preconceito,característico dos pseudo-esclarecidos. Rico de mim,que não espero contrapartidas diretas para reconhecer que este governo está longe da perfeição,mas é seguramente o melhor da história política desse país.
É vergonhoso ser leitor de certos comentários deste blog!

rosena disse...

Fernando --Se este país fosse sério o Lula e os dirigentes do PT, Genoíno, Deúbio, Joe Dirceu Silvinho Pereira, estariam presos, ou no mínimo condenados e não seriam mais reus primários. Tanto o Delúbio, quanto o Duda Mendonça são réus confessos do crime de sonegação, evasão de divisas e formação de quadrilha.No brasil eles seão premiados com uma volta triunfal ao poder, pode crer. o povo quer assim!!!

sofia disse...

Fernando,
excelente artigo. Tem coerência de ideias, fatos, eloquência.
abraços

PATO PRETO disse...

Depois, o LULA deveria fazer em cadeia nacional, um agradecimento as raposas velhas dos
antigos governos do Brasil por sua vitória.
Graças as incontétes vergonhosas patifarias e falcatruas destas raposas velhas, SARNEY,
JADER BARBALHO, RENAN CALHEIROS, QUERCIA, MALUF, ACM, GILBERTO MESTRINHO, OS ANÕES DO
ORÇAMENTO, GAROTINHO E MUITAS OUTRAS PERSONAS NON GRATAS, que já usurparam o
Brasil e os brasileiros, graças a estes, é que estamos recebendo no brasil uma nova sáfra de
usurpadores, mais virulentos, que vem apresentando uma nova fórmula de
persuação ( governar para os pobres) para, com mais avidez, se empanturrar do erário público.

É TRISTE ENCARAR A REALIDADE MAS,ATÉ QUE PROVEM O CONTRÁRIO, SÃO TODOS BANDIDOS, A DIFERENÇA
É QUE AGORA O NÍVEL BAIXOU A QUADRILHA É MAIS ORDINÁRIA E OS LADRÕES MAIS FAMINTOS.

APENAS MUDAM OS VÉRMES E AS MOSCAS MAS, O CADÁVER (Brasil)CONTINUA O MESMO.

Paulinha disse...

Pessoal, só podemos ter indignações em relação da releeição de Lula. A classe média será extinta nos próximos 4 anos. Todos os possíveis fracassos, casos de corrupção que continuará a ter, já posso imaginar de quem será a culpa desta vez: será a classe média e os ricos que estão obstruindo o bom governo de Lula. Vamos aguardar....vamos aguardar.

nidia disse...

Não há mais nada que se possa fazer. Seja como o povo assim o desejar.Espero que toda essa energia (dos mais passionais principalmente) possa ser canalizada para que se colha melhores frutos o mais precoce possível. O futuro mostrará quem é quem, e que Deus nos ajude.

nidia disse...

Por mais otimista que eu tento ser, algo me diz que está se consolidando uma futura ditadura na América do Sul, com o respaldo do "povo", que se perpetuará por muitos anos...

lula lá outra vez!!! disse...

Borhnausen, ACM, Roberto Jeferson e outros da mesma espécie integraram o governo Collor. FHC só não foi porque Covas não deixou. Essa turma, que Brizola classificou, com propriedade, de filhotes da ditadura, ganha hoje a sua pá de cal. A eleição de 2006 encerra um ciclo histórico no Brasil. O país, com certeza, sai melhor das urnas.