terça-feira, agosto 08, 2006

A CONSTRUÇÃO DO PARAÍSO

No nosso caso, a incorporação de milhões no projeto e no processo de construção nacional – não como conseqüência de uma dádiva do governo, mas como resultado de um processo econômico e educacional - é o que fará o paraíso parecer mais próximo do que sonhamos. Certamente nunca o alcançaremos, mas, pelo menos, viveremos num país menos injusto e mais democrático. O que não é pouco.


Não se trata de utopia. Cingapura mostrou ser possível.

A CONSTRUÇÃO DO PARAÍSO

A bela e notável cantora nigeriana Sade Adu, numa de suas músicas, diz que “ não nascemos para viver no paraíso, nascemos para construí-lo” Trata-se de uma canção de amor, e a busca pelo “paraíso”, aqui, é um projeto pessoal, quase íntimo. Mas não só individualmente, mas também coletivamente, como nação, vivemos para tentar alcançar o paraíso. Este é o sentido maior de toda atividade política.Não como uma mera utopia , como a que a esquerda marxista construiu, impondo, com tintas de ideologia, a miragem do paraíso socialista, que, ao final, revelou-se um gigantesco inferno. Não é de utopia que eu falo. Mas de um propósito coletivo de busca de uma sociedade menos imperfeita, na qual o progresso material seja uma conquista a ser compartilhada pelo maior número possível de pessoas, num ambiente de liberdade, democracia e justiça. Impossível? Nem tanto.

O grande problema é quando os interesses individuais ou de grupos se sobrepõem aos interesses da grande maioria. Imagina-se, então, ser possível a construção de um paraíso particular em detrimento dos demais. Impossível. A melhoria da qualidade de vida de cada um só tem sentido e só se completa quando acompanhada da melhoria do padrão de vida de toda a sociedade. Infelizmente, o Brasil ainda não aprendeu esta lição. A grande questão é que o nosso país jamais teve um projeto coletivo de sociedade que incorporasse a imensa maioria do povo. Quando muito, existiram projetos de classes, de grupos e de corporações que nunca pensaram no todo, mas apenas nos seus interesses particulares, na maioria das vezes em detrimento da maioria.

Sob este aspecto, a nossa História é bastante rica de exemplos. Seus grandes momentos não passaram de meros arranjos políticos das nossas elites, que visavam, sobretudo, atender os seus interesses. A independência política, a abolição da escravatura, a proclamação da República, o golpe de 1930, o golpe de 1964,e, até mesmo, fatos mais recentes como a volta das eleições diretas e o processo de impeachment do presidente Collor foram frutos de acordos e negociações que envolveram apenas setores de nossa elite política e econômica. O povo se limitou a assistir, ou, quando muito, participou como mera massa de manobra, sem muita consciência do que ocorria.
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Muito mais do que um projeto coletivo de uma nação – a tentativa de construção do “paraíso” –, o que a nossa história tem nos mostrado é que, carente dos bens básicos necessários à sobrevivência, e marginalizado no gueto da miséria e da ignorância, muitas vezes o nosso povo é levado a acreditar em “salvadores da pátria”. Desenvolveu-se na mentalidade da nação a crença na força e no carisma de certos indivíduos, que,envolvidos numa aura messiânica, seriam capazes de conduzir o povo à “terra prometida”. O personalismo, o populismo e o paternalismo sempre foram o forte de nossa tradição política. Foi assim com D Pedro II, com Getúlio Vargas, com Jânio Quadros, com Collor, e tem sido assim com Lula. Tal tradição, longe de contribuir para a formação de uma mentalidade individual e coletiva livre e altiva, tem se constituído num forte fator de dependência e submissão.

Predomina no Brasil a crença de que o seu desenvolvimento e o bem-estar de um povo está ligado à maior interferência estatal na economia e na personalidade carismática do governante de plantão, bem como a sua capacidade de promover políticas assistencialistas.Esta junção de Estado gigante mais governo paternalista se tem revelado catastrófica. Ao persistir nesta mentalidade, que o atual governo incorporou como nenhum outro, o povo, que deveria ser o verdadeiro agente da construção do “paraíso”, torna-se um mero ente passivo,merecedor apenas da condescendência das elites que dirigem o país.Antes, estava submetido aos coronéis dos latifúndios, hoje está submetido aos novos coronéis da esquerda brasileira.

A inclusão de milhões no processo de construção, certamente começa pela revolução educacional e pela revolução econômica. A revolução econômica virá quando o respeito à liberdade de produzir, comprar e vender deixar de ser apenas uma tese na cartilha dos liberais e se tornar uma realidade neste país. A revolução educacional virá quando predominar a consciência de que somente uma educação de qualidade será capaz de igualar as oportunidades e possibilitar a ascensão social de milhões de brasileiros. Possibilitará à maioria, e não apenas a uma pequena parcela como ocorre hoje, condições para a aquisição de conhecimentos, habilidades e técnicas necessárias à sua inserção competitiva no mercado do capital e do trabalho.Possibilitará condições para o exercício pleno da cidadania, pela abertura de sua consciência crítica, pelo conhecimento pleno de seus direitos e deveres e pela ampliação dos horizontes culturais.Enfim, tornará o povo certamente num agente ativo de sua história, não no sentido falacioso que a esquerda radical sempre defendeu e que acabou levando ao totalitarismo, mas no sentido da plena democracia..

Para que não se diga que estamos tratando de mera utopia, tomemos os países asiáticos como exemplo: todo o bem-sucedido esforço de construção de países como o Japão, a Coréia, Taiwan, começou por uma revolução educacional, que possibilitou a inclusão de milhões de pessoas neste processo.O mesmo vem ocorrendo em alguns países da Europa, que haviam perdido o bonde da História, mas que agora, devido às exigências da União Européia, procuram e necessitam acompanhar o ritmo dos mais desenvolvidos.

No nosso caso, a incorporação de milhões no projeto e no processo de construção nacional – não como conseqüência de uma dádiva do governo, mas como resultado de um processo econômico e educacional - é o que fará o paraíso parecer mais próximo do que sonhamos. Certamente nunca o alcançaremos, mas, pelo menos, viveremos num país menos injusto e mais democrático. O que não é pouco.

080806

8 comentários:

Nídia disse...

Olá Fernando
Isso tudo é viável. Nosso País é muito rico, temos uma enorme extensão de terra, clima maravilhoso, etc. e o governo arrecada uma fábula e tem dinheiro pra fazer todas as mudanças que quiser, se usá-lo adequadamente. O problema do Brasil é o povo (como na piadinha). Por algumas razões o povo brasileiro incorporou o que há de pior em matéria de carater. E eu falo do povo mesmo, que aceita corrupção, que vende seu voto por R$ 20,00, e após algum tempo nem sabe em quem votou, e só vai pensar no assunto na próxima eleição. Pensando em seu artigo fico imaginando: por onde começar?Diariamente, mais de 1 X por dia, a gente se depara com atos de corrupção, em todos os setores. Tudo nesse País é movido a propina, só não vê quem não quer ver. Bate o desespero só de imaginar o que rola em todo país. Estão investigando a máfia da ambulâncias, mas não é só isso. Se investigarem asfalto, construção de casas populares, etc., todos os setores, vão se deparar com corrupção. Praticamente não há punição para esse tipo de crime aqui no Brasil e por conta da impunidade, acreditando nela, cada X mais pessoas barganham benefícios próprios, o que já foi incorporado ao comportamento dos políticos,é é encarado hoje como uma coisa "natural" do sistema. Eles dizem: tem que ser assim porque do contrário não conseguiremos fazer nada, os caminhos ficaram travados.Não me conformo com tudo isso. Como um indivíduo, como o Lula fica fazendo discurso, dizendo que está tudo bem, quando existem pessoas morrendo de fome por conta de sua irresponsabilidade, ganância e prepotência. Desculpe o pessimismo, mas é que não vejo luz no fim do tunel.
Um abraço

Djalma Froes disse...

Um amigo meu resumiu muito bem o que falta ao brasileiro: caráter e força de vontade. Muita gente fica sem entender pq Japão e Alemanha completamente destroçados com a guerra conseguiram se reerguer e ar a volta por cima.Trabalho, esforço e perseverança, e capital. Mas quem tem coragem de investir no Brasil? A não ser capital especulativo. A nossa taxa de impostos é das maiores do mundo, a nossa mão de obra é desqualificada, o nosso povo é pouco dedicado ao trabalho duro.Vc faz alusão ao paraiso. Mas pelo que vejo paraiso no brasil é mais embaixo he he

Fernando Soares disse...

Nídia, parto do principio de que em política, como de resto em tudo o que é humano, não existe a perfeição. Devemos então procurar o menos ruim possível, ou, melhor dizendo, o que mais se aproxima daquilo que julgamos mais justo e verdadeiro. Nunca alcançaremos a sociedade perfeita. Isto é uma utopia que anarquistas e socialistas de toda ordem tentaram nos fazer crer. Devemos ser , pois realistas, e buscar o que nos pareça o menos ruim, até que um dia acertemos, não é?Como vc diz, dá para desanimar, mas se cruzarmos os braços, pior será. Outro abraço

Why Cingapure? disse...

Tudo muito bom tudo muito bem, mas tomar Cingapura como modelo de nação livre e democrática é demais pro meu gosto. Cingapura é uma quase ditadura, perde pouco para a chinesa. É forte a presença do estado na economia. O governo subsidia tudo.Além disso é uma sociedade pequena que encontrou no comércio de exportação-importação a sua saida. Em tudo e por tudo o nosso país difere de Cingapura

JULIANO disse...

Fernando, esse comentário foi muito bonito, mas é uma pena que a expressão "consciência crítica" seja algo tão distorcido no Brasil hoje, que é difícil destrinchá-la da manipulação esquerdista. Consciência crítica pra muita gente não inclui noções como, a importância de todos serem ser iguais perante a lei, sobre o que é legítima democracia e liberdade de expressão, a importância da pluralidade de idéias, e os perigos da arbitrariedade; mas sim que uns valem mais que outros, que o moralmente aceitável é aderir à maioria politicamente correta, que democracia é a ditadura da maioria, e que em certas situações podemos fazer exceções acerca das leis, desde que ideologicamente protegidas por partidos e pelo governo.

Fernando Soares disse...

Juliano, desculpe mas transplantei o seu comentário para este blog.Voce tem razão no seu comentário. Realmente a esquerda se apropria de certas expressões e as utiliza a seu gosto.Consciência crítica é uma delas, de acordo com suas conveniências. Mas não devemos deixar de usá-las de maneira correta por causa disto, não é?Afinal, tivemos que ouvir durante décadas que a Alemanha oriental era... democrática

Fernando Soares disse...

Why Cingapure. Não tomei Cingapura exatamente como um modelo para o Brasil. Sei que ela tem as suas particularidades econômicas, como ademais todos os países, e, principalmente, as suas singularidades políticas que a afasta do modelo de democracia que eu desejo. O que eu quis mostrar, é que Cingapura, como os demais tigres asiáticos, investiu pesado na educação e assumiu o capitalismo por inteiro. É inegável o seu acelerado rítmo de desenvolvimento e seu elevado padrão de vida se comparados a outros - como o Brasil - que não fizeram uma coisa nem outra.

Sofia disse...

Somos um país agraciado e abençoado por Deus: temos muito riqueza natural, solo produtivo, onde tudo que se planta dá. Temos a cidade mais linda do mundo: Rio de Janeiro e claro, outras regiões também. O que reclamar então se não conseguimos ser um país de primeiro mundo?
Nossos governos, todos, sem exceção, pouco contribuíram para o efetivo desenvolvimento do país. E o desenvolvimento de um país começa por um sistema educacional super eficiente. E aqui isto não acontece.
Cadê a reação do povo, da sociedade em geral? Não conseguimos reagir, cobrar a altura. Será que temos mesmo a "crença de que o seu desenvolvimento e o bem-estar de um povo está ligado à maior interferência estatal na economia e na personalidade carismática do governante de plantão, bem como a sua capacidade de promover políticas assistencialistas????" Ao que tudo parece e como as pesquisas nos indicam, ssiiiiimmmm.
Será que "o grande problema é quando os interesses individuais ou de grupos se sobrepõem aos interesses da grande maioria". Novamente ao que tudo indica, sssiiiiiimmmm.
Contrariando a cantora nigeriana Sade Adu, que diz poeticamente “ não nascemos para viver no paraíso, nascemos para construí-lo”, digo que nascemos em um paraíso e por isto mesmo associado a nossa gênese não fomos capazes de desenvolver nossa capacidade de sobrevivência, de críticas em situações áridas.Nossa gênese!!!!!! Será que isto????Será que está nela a nossa passividade como ser humano, capaz de não reagir, de lutar e simplesmente adaptar a tudo passivamente???