segunda-feira, julho 03, 2006

A PÁTRIA (SÓ ) DE CHUTEIRAS




Para a imensa maioria, o futebol é o único motivo para o exercício de seu sentimento, digamos, patriótico. É compreensível, num país onde existe pouco do que se orgulhar. Assim, a cada quatro anos o brasileiro se veste de verde-amarelo e .incorpora aquele sentimento que deveria ser permanente. Até aí tudo bem. Já que não temos do que nos orgulhar em outros campos mais importantes como os da tecnologia, das ciências, da educação, dos indicadores sociais, da política, que nos orgulhemos ao menos do nosso futebol.

O problema começa quando este sentimento se exacerba e extrapola os limites do razoável, e/ou passa a ser manipulado por outros interesses que não o esportivo.Por força de interesses comerciais gigantescos e pela atuação de uma mídia que supervaloriza o espetáculo, tratando-o como o acontecimento mais importante do planeta, o país perde o senso do razoável, e durante cerca de um mês é levado a uma espécie de catarse coletiva, onde nada mais parece importar a não ser a conquista do caneco.A se acreditar no que a mídia insistiu em fazer crer, adversários como Austrália e Japão, em tudo e por tudo superiores ao Brasil, não passariam de países de quinta categoria pelo simples fato de seus jogadores – coitados! - não terem a mesma habilidade de nossos craques com a bola nos pés.Eu trocaria toda a nossa magnificência futebolística pela metade do desenvolvimento técnico, científico, e social destes países.

No sábado, o que a seleção francesa fez foi despertar este país da ilusão e traze-lo de volta ao mundo real. Por mais feio que ele seja, é o que temos.E tem que ser encarado como ele é, mesmo que tenhamos que agüentar mais quatro anos de Lula na presidência. O fato é que o sonho acabou nos pés de um craque de verdade – Zidane. Duraria mais algum tempo, se o Brasil tivesse prosseguido no torneio e viesse a conquistar a Copa. Mas em algum momento retornaríamos à realidade.

Melhor então a derrota?Se reduzíssemos o espetáculo à sua verdadeira dimensão esportiva, certamente que não. Isto se os nossos craques não se comportassem de maneira tão apática em campo quanto o foram no jogo de sábado.Mas, se, pelo contrário, depositamos na seleção toda a carga de sentimentos patrióticos reprimidos pela impossibilidade de extravasa-los em outros setores da nossa vida social, talvez a derrota de sábado não tenha sido um mal. Quem sabe contribua de alguma forma para despertar um povo inerte e faze-lo exercer sobre Lula ou sobre qualquer homem público a mesma marcação cerrada com que brindaram o treinador Parreira nesses últimos meses.Seria ótimo se assim fosse.

Em tempo, mergulhados nesta onda ilusionista que insistiu em vender a imagem de um país nota dez em matéria de futebol ,mal paramos para pensar que não é bem assim.Idêntico aos demais setores, o futebol brasileiro não é aquilo que muitos querem fazer crer.O que somos, na verdade, é grande exportador de craques, que fazem a alegria dos torcedores de clubes espanhóis, italianos, alemães e franceses. Mas o futebol brasileiro – nossos clubes, nossos campeonatos – é tão pobre, medíocre e ineficiente quanto a nossa educação, a nossa saúde, a nossa tecnologia, e por aí vai.
03/07/06

4 comentários:

GLOBSPORT NO LIXO disse...

Indecente a postura da Rede Globo/SporTV após a eliminação da selenike. Eles que durante mais de 01 ano babaram o ovo desse time, trataram os jogadores como astros do rock, bateram palmas pra tudo o que o Parreira fez, elogiavam os jogos-treino contra times sem expressão, avalisaram a falta de treinos coletivos, acharam que o Ronaldo, mesmo 11kg acima do peso, continuava a ser um fenômeno, chegaram a encomendar uma versão de Epitáfio p/ os Titãs, pra "motivar" a selenike, agora vem querer fazer críticas e descobrir quais foram os erros que levaram à derrota. É muita cara-de-pau.

Sergio disse...

Acredito que os problemas da seleção, são puro reflexo do que temos vivido em nosso pais. Não temos verdadeiros líderes, só o imperialismo egoísta que atormenta esta nação, onde o "eu" está acima do "todos", ou seja, eu roubo, eu levo vantagem, e a maioria que se foda! Assim foi com esta seleção "mágica", onde os contratos milionários de cada um, falou mais alto, colocando-os com obrigações que fugiam as cores da camisa que vestiam. Assim como o Brasil se desmancha por falta de verdadeiros líderes, a Seleção Brasileira de Futebol, viu-se, sem pai nem mãe em campo no jogo contra a França. E o Parreira?, o que dizer?, um grande "estudioso" do Futebol, mas apático como líder. E os jogadores? Na falta de um líder aqui, encontraram em Zidane o seu líder, o seu ídolo; nunca ví tanto abraço e beijo num adversário. Será que os canarinhos cairam na farra dos jogadores da França, para comemorar a vitória deles?, ou será que já acordaram para ver a besteira que fizeram.

Povo não é BOBO disse...

Li o seu texto e concordo em parte. Tb acho que existe uma supervalorizaçãom do nosso futebol dos nossos craques, etc etc.
Mas não acho que o povo cai de bobo nessa roda. O comportamento do brasleiro é igual ao do torcedor fe qualquer parte do mundo. Quem viu a festa que alemaes, franceses portugueses e italianos fazem sabe o que estou dizendo. E olha que os franceses nem são muito chegados ao futebol!Por isto acho que não podemos misturar as coisas. O Brasil é um país de merda? ÈEE Mas nem por isso devemos deixar e ter umas alegriazinhas no campo desportivo.

Fernando Soares disse...

"Povo não é bobo"

Se vc leu atentamente o que escrevi, deve ter notado que em nenhum momento eu insinuei que o povo deva permanecer alheio ao futebol por causa de nossos atrasos em outros setores mais fundamentais. Apenas considerei o fato de que existe um superdimencionamento do futebol, que ele deveria ficar limitado ao campo da competição esportiva e que a mesma severidade com que foram tratados o nosso técnico e os nossos jogadores após a derrota para a França deveria ser exercida contra os nossos políticos e governantes. Grato pela visita