quarta-feira, julho 26, 2006

COTAS QUE DISCRIMINAM

Querem que os negros, os mestiços, os brancos, as mulheres, os nisseis, os homossexuais, os indígenas, os anões, os carecas, os míopes, os corintianos e os flamenguistas tenham as mesma s condições de acesso às universidades?A solução não está em estabelecer uma cota para cada um deles.Mas sim que se faça uma revolução na escola pública brasileira. E, por extensão, em todo serviço público brasileiro. O resto é conversa mole pra boi dormir.


Negros nas Universidades: pelos seus méritos, não por dádiva governamental...


COTAS QUE DISCRIMINAM

Mais uma vez, a questão das cotas.Sejamos francos, porque na discussão deste tema o que tem faltado é franqueza e bom-senso e sobrado hipocrisia e demagogia.A verdade é que, devido à incapacidade e ao secular desprezo dos nossos dirigentes pela coisa pública, a maior parte de nossa população ficou à margem do processo de crescimento econômico e sem acesso a serviços públicos com um mínimo de qualidade.Essa marginalização contínua e progressiva foi o que conduziu ao que podemos denominar apartheid social, que faz de nosso país um dos líderes mundiais na modalidade de exclusão social. Neste quadro de exclusão, devido às contingências históricas, que fizeram com que os negros ficassem durante quatro séculos submetidos à escravidão, são os negros e mulatos a maioria, mas também se incluem um grande número de brancos, mestiços, indígenas e outras etnias. Portanto, a questão central é a da desigualdade social.Como corrigir tal distorção?

A solução sensata e óbvia seria o investimento maciço em educação, saúde e saneamento, no sentido de possibilitar a esta população as mesmas oportunidades que são oferecidas à classe média por força de seu maior poder aquisitivo. Isto é o que foi feito em dezenas de países que, nas últimas três décadas deram um salto no seu ritmo de crescimento econômico e no se padrão de desenvolvimento social.

Mas os nossos dirigentes parecem querer inventar a roda, e com sua visão deturpada da realidade, a sua incapacidade histórica de traduzir discursos em ações benéficas e sua crônica vocação para a demagogia e o populismo, preferem, ao invés de atacar as causas do problema,amenizar as suas conseqüências, porque isto pode trazer resultados mais imediatos em termos eleitorais.Deste modo, partiram para o estabelecimento de cotas raciais nas universidades públicas, sob o falso argumento de que o difícil acesso de negros e mulatos ao ensino superior publico fosse motivada por alguma espécie de discriminação racial, o que não é verdadeiro.

Além de não resolver o problema da marginalização social, o sistema de cotas gera uma série de outras distorções Primeiro, sob o pretexto de diminuir a desigualdade racial, o sistema de cotas discrimina, isto sim, os brancos pobres, que não terão o mesmo benefício dos negros pobres. Segundo, é totalmente injusto para com aqueles que, ricos ou pobres, obtiveram notas superiores às obtidas pelos cotistas, mas que deverão ceder o lugar aos beneficiários da lei. Terceiro, em vez de propiciar a integração dos cotistas na vida acadêmica, em igualdade de condições com os demais estudantes, oriundos de escolas mais qualificadas,poderá gerar uma forma de segregação daqueles que entraram por força de uma lei populista. Quarto, poderá provocar a queda da qualidade do ensino nas universidades públicas, pela entrada de alunos menos qualificados e menos exigentes, oriundos, em sua maioria, de escolas públicas de qualidade duvidosa. Quinto, a facilitação por lei do acesso de estudantes negros e pobres, antes de ser um estímulo ao aperfeiçoamento do ensino público fundamental e médio, poderá, ao contrário, ser uma forma de mascarar a situação destes níveis de ensino, e servir como um fator de queda de investimentos governamentais neste setor, já que uma parcela significativa dos estudantes se sentirá atendida em sua reivindicação de entrar nas universidades públicas.

Já fui claro em outro artigo ao dizer que, no Brasil, muitíssimo mais do que discriminação racial, existe uma discriminação social. As pessoas são discriminadas antes de tudo porque são pobres, e muito menos porque têm a pele preta, morena ou vermelha. Tal afirmação não exclui o fato de que não exista preconceito racial, mas isto é uma questão particular, de foro íntimo.Sobre a discriminação racial,a Constituição Brasileira e as diversas leis que tratam da questão, já asseguram a igualdade de todos perante à Lei. Portanto, cabe aos nossos dirigentes fazer cumpri-las e à sociedade cobrar dos dirigentes o seu cumprimento.

Portanto, é falacioso o argumento de que negros e mulatos não têm acesso às universidades públicas por causa de sua origem étnica. Eles têm dificuldade de acesso não porque são negros, mas porque são pobres. E, como pobres que são, freqüentam péssimas escolas, não se alimentam adequadamente, não têm esgoto em suas casas, não têm acesso à informação - internet, bibliotecas, etc. É isto.

Querem que os negros, os mestiços, os brancos, as mulheres, os nisseis, os homossexuais, os indígenas, os anões, os carecas, os míopes, os corintianos e os flamenguistas tenham as mesma s condições de acesso às universidades?A solução não está em estabelecer uma cota para cada um deles.Mas sim que se faça uma revolução na escola pública brasileira. E, por extensão, em todo serviço público brasileiro. O resto é conversa mole pra boi dormir.
26/07/06

21 comentários:

Heitor disse...

tambem acho esta política de cotas uma grande palhaçada feita para alguns políticos conquistarem votos da comunidade negra. O pior é que o brasileiro é acomodado e aceita isto de bom grado. ja em gente de pele branca se declarando megra para pegar carona nesta mamata. Concordo que temos que melhorar o ensino publico

Anônimo disse...

A QUESTÃO NÃO É TÃO SIMPLES COMO V COLOCA. é BRINCADEIRA QUERER COMPARAR A SITUAÇÃO DO NEGRO QUE FOI HISTORICAMENTE MASSACRADO, VILIPENDIADO E EXCLUIDO FAZENDO GALHOFA. qUER DIZER QUE A SITUAÇÃO DO NGRO PARA V É A MESMA DO CARECA, DO ANÃO, DO CORINTIANO??????
POR AÍ NÃO DÁ´PRA COMEÇAR AMIGO

Anônimo disse...

É mais uma política hipócrita e demagógica além de discriminatória.E pensar que o autor de tal é um negro, e diga-se de passagem racista. E, ainda mais quer papar seu voto.

zappi disse...

Muito bom o seu artigo, Fernando.

A respeito dos pobres serem discriminados, isto faz parte do sistema capitalista: um pobre, por não ter dinheiro, é 'discriminado' quando vai fazer as compras e é obrigado a comprar ítens essenciais, não sendo capaz de comprar um relógio caro, por exemplo. Esta discriminação sempre existiu e é normal. As sociedades civilizadas procuram dar aos mais pobres condições de que estudem (ensino fundamental) e, se se esforçarem, poderão conseguir melhores colocações no futuro. Nos lugares civilizados a universidade é paga (como acho que deveria ser no Brasil) mas os estudantes que se destacam e não tem recursos ganham bolsas de estudo para cursar de graça. Estas bolsas são subsidiadas pelo governo e pelos pagantes. Se hoje a faculdade pública é coisa de ricos, o melhor a fazer é que se cobre deles e que se reverta o dinheiro para permitir que bons alunos possam cursar de graça. Cotas nunca funcionam. A faculdade deve discriminar, sim senhor, discriminar os desqualificados. Só assim teremos um ensino de qualidade.

Nídia disse...

O sistema de cotas além de ser inconstitucional, abre precedente para que no futuro esse governo que quer ser socialista, mas não sabe, possa nos impor novas cotas que teremos que engolir goela abaixo. Nós, povo, teríamos que ter "brio" e agir como cidadãos que deveríamos ser, e dizer não ao governo quando assistirmos o atropelamento da nossa constituição.

Nídia disse...

Bom dia Fernando.
Além disso, essa ação do governo, dividindo a população em etnias, de acordo com o nível socio-econômico, etc, acentua as diferenças. Impõe a idéia de que negro é incapaz e inferior.Não conta com a possibilidade de um negro ingressar em uma universidade por méritos próprios, criando um estigma inevitável, que todo negro levará consigo por toda sua vida profissional. Será que ele é um profissional capaz, ou é daqueles que foi favorecido para ingressar na universidade? No mercado de trabalho, na escolha entre um branco e um negro poderá haver discriminação nesse sentido. O profissional branco será mais valorizado, porque afinal, esse cara deve ser bom mesmo, porque conseguiu entrar na faculdade apesar de suas chances terem sido diminuidas pelo sistema de cotas, etc...Não acha?

Anônimo disse...

Excelente artigo.Parabéns!!!
Sou contra a utilização de cotas para negros, contra o ProUni, bolsa isso, bolsa aquilo.
Isto sim é fazer uma grande discriminação.
O governo aproveita bem a situação dos menos favorecidos e faz esta grande demagogia.
Não se dá o peixe, se ensina a pescar.
O que deveria ser feito de fato, é o investimento maciço, de forma consistente, inteligente e séria em uma política educacional verdadeira, na qual possibilitará a todos os jovens brasileiros serem preparados de uma forma mais homogênea. E aí sim, a disputa por uma vaga na universidade, em um emprego, concurso seria mais justa e venceria aquele que fosse o melhor mesmo. Já existem professores universitários de renomes negarem a ministrar aulas em salas de aula que têm alunos selecionados por cota e pelo ProUni. Isto agravará cada vez mais.

Fernando Soares disse...

zappi
Estamos inteiramente de acordo.
Também não vejo sentido em se manter uma universidade pública gratuita para estudantes ricos. O povo não deve pagar por isto. Um sistema de bolsas para estudantes pobres,como vc sugere, a meu ver tb seria a solução.Infelizmente, neste país, nossos dirigentes preferem os caminhos mais tortuosos e mais onerosos aos nossos bolsos...
um abraço

Fernando Soares disse...

Olá Nidia
tudo bem?
Vc tocou noutra ferida gerada por este demagógico sistema de cotas que é a segregação da população em raças ou etnias, com algumas delas tendo privilégios constitucionais.O que o país necessita é acentuar cada vez mais a sua nacionalidade , e isto só se consegue com a integração homogênea de todas as etnias que constituem o nosso povo. Sei da existência de movimentos em defesa dos negros que repudiam com veemência o sistema de cotas porque consideram injusto e humilhante tal privilégio
Um abraço

Fernando Soares disse...

"Anônimo"
O ProUni é o exemplo pronto e acabado de política populista e imediatista que vem caracterizando o mandato de Lula nesses quatro anos. O que vc defende é o que eu, e milhares de outras pessoas de bom senso vêm defendendo: investimento maciço em educação e serviços públicos básicos. Mas, o que acontece?Nossos governantes são incapazes de ter um projeto que exceda o tempo de seus mandatos. A educação demanda um certo tempo para render os primeiros frutos. Assim, preferem investir em políticas demagógicas de efeitos eleitoreiros imediatos. Não é a toa que Lula lidera as pesquisas..

Hugo Z H disse...

A maioria dos comentários são contra as cotas. Gostaria de perguntar ao autor do blog, a nidia e ao zappi o que foi feito nos governos anteriores para resolver o drama de alunos pobres que não tem acesso a universidade. Podem criticar mas foi o governo de lula que agiu e colocou em pratica tanto o prouni como o sistema de cotas. ISTO RESOLVE? claro que não, mas se nao for dado o primeiro passo a situção vai ficar eternamente a mesma.Privilégio é trabalhador pobre manter a universidade pública para filhinho de papai estudar. Agora pelo menos se faz mais justiça

Anônimo disse...

Caro Fernando,
A complexidade social pode ser ilustrada por metáforas engraçadinhas, mas não pode ser compreendida. Anões, carecas e outros econtram-se diante de outras formas de preconceito, infinitamente menos destrutivas que o preconceito racial, por isso, entre milhares de outros fatores, não podem ser comparados.
As cotas são a faísca para uma amplo debate social. Nelas não reside a solução definitiva para os problemas nacionais, mas elas constituem uma dimensão importante na discussão sobre desigualdade. Não é algo superado, como defensores e detratores tentam fazer crer.

Anônimo disse...

Caro Fernando,
A complexidade social pode ser ilustrada por metáforas engraçadinhas, mas não pode ser compreendida. Anões, carecas e outros econtram-se diante de outras formas de preconceito, infinitamente menos destrutivas que o preconceito racial, por isso, entre milhares de outros fatores, não podem ser comparados.
As cotas são a faísca para uma amplo debate social. Nelas não reside a solução definitiva para os problemas nacionais, mas elas constituem uma dimensão importante na discussão sobre desigualdade. Não é algo superado, como defensores e detratores tentam fazer crer.

Nídia disse...

Tudo que é imposto, por decreto, pode não ser justo.Quando foi elaborada a constituição, pensou-se em fazer justiça, no sentido de que cada cidadão seria igual perante a lei, independente da raça, cor de pele, situação financeira, etc., e que racismo é crime. Numa democracia deveríamos ter chances iguais. Então não se pode favorecer uns, porque estaremos sendo injustos com outros, como foi citado no artigo o caso do cidadão branco e pobre. Esse coitado está em dupla desvantagem: não teve acesso a escola de qualidade e não tem direito de participar das cotas. Algo está errado? sim está, mas não se pode culpar e punir o cidadão que cumpre a lei, que paga TODOS os seus impostos, e que trabalha duro para manter um filho em uma escola melhorzinha. O cidadão que faz o que o governo deveria fazer. As coisas estão erradas há muito tempo, claro, mas não é dessa forma que vamos resolve-las. Agora, que disse que pobre não entra na faculdade? Conheço muitos que estudam e trabalham, muitos mesmo.

Eugenio disse...

Eu acho que não deveria haver cotas. Ou, talvez, somente aquele empurrãozinho , como escolheu a USp, de dar unm acréscimo de 3%. Isso pode dar uma ajuda pequena a quem se esforçou.

Fernando Soares disse...

Anônimo-o último

Não tive a intenção de minimizar a carga de preconceito e de discriminação que historicamente pesaram e ainda pesam sobre a população negra no Brasil. Apenas fiz uma referência irônica à bobagem que é o sistema de cotas como solução deste problema. Não desconheço a histórica opressão a que foi submetida esta população durante os séculos de escravidão. Reconheço que, a partir de 1888 houve uma gradativa incorporação jurídica da população negra na sociedade brasileira,embora, sob o ponto de vista social, esta incorporação efetivamente não se deu. É só olhar as favelas, os guetos e os viadutos.O que fazer então? Trata-los como coitadinhos, ou lhes dar os instrumentos para que, com suas próprias qualidades e seu próprio esforço, acabem por se incluir definitivamente , em igualdade de condições na sociedade? Os defensores das cotas parecem preferir a primeira opção. Eu, e muitos outros, preferimos a segunda.

Marcelo g disse...

É a mais pura demagogia.

O percentual de jovens que chegam a universidade no Brasil hoje, já constitue uma "elite".
E o negro que chega à universidade hoje, também já é uma "elite" entre eles.
Como o ensino fundamental e básico continuará a mesma trajédia de sempre, o sistema de cotas só reforçará essa elite negra que já existe não atingindo a população negra que eles acreditam representar.
Se o projeto deles é "socializar" a universidade, acredito que o tiro sairá pela culatra. Mas eles sabem disso, portanto, é só demagogia.

Anônimo disse...

Reserva de vagas para estudantes de escola pública já!

Os estudantes de escola pública, sejam brancos, negros ou asiáticos, não conseguem competir em igualdade de condiçõesno vestibular com os alunos da escola particular.

A Universidade é pública, então nada mais injusto do que a situação atual em que ela é quase toda ocupada por alunos vindos da rede particular.

Cotas raciais são uma besteira, pois os alunos brancos e asiáticos das escolas públicas também sofrem com o mesmo desmonte da educação pública.

Claro que a verdadeira solução é investir massivamente na educação básica pública. Mas até lá não dá para ficar esperando. Enquanto se investe, no período de transição, nada mais justo do que a reserva de vagas no vestibular para os estudantes oriundos da rede pública, seja lá de qual raça sejam!

Anônimo disse...

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