quinta-feira, junho 15, 2006

CONSTRUINDO O PARAÍSO




A bela e excelente cantora nigeriana Sade, numa de suas músicas, diz que “nós não nascemos para viver no paraíso, nós nascemos para construí-lo”
Trata-se de uma canção de amor, e a busca pelo paraíso, aqui ,é um projeto individual.
Mas não só individualmente, mas também coletivamente como nação vivemos para tentar alcançar o paraíso. Este é o sentido maior de toda atividade política.
O grande problema é quando , numa coletividade maior, os interesses individuais ou de grupos se sobrepõem aos interesses da grande maioria. Imagina-se ,então ser possível a construção de um paraíso particular, em detrimento dos demais. Impossível.

A melhoria da qualidade de vida de cada um só tem sentido quando acompanhada da melhoria do padrão de vida de toda a sociedade. Infelizmente, o Brasil ainda não aprendeu esta lição.
De pouco adianta possuir um padrão de vida elevado numa sociedade onde a maioria dos cidadãos vive em estado de penúria. Exibir –se num carrão importado, último modelo, em ruas onde centenas de crianças dormem sob marquises, pode não pesar na consciência de muitos, mas uma arma apontada contra o seu cérebro, quando se para num sinal de trânsito, certamente fará com que muitos pensem se vale a pena ser rico num país de tantos miseráveis.

A grande questão é que o nosso país jamais teve um projeto coletivo de sociedade que incorporasse a imensa maioria do povo. Quando muito, existiram projetos de classes e de corporações que nunca pensaram no todo, mas apenas em seus interesses particulares. Sob este aspecto , a nossa história é bastante rica de exemplos. Os grandes momentos da nossa história não passaram de meros arranjos políticos das nossas elites políticas, que visavam atender prioritariamente os seus interesses .
A independência política, a abolição da escravatura, a proclamação da República, a revolução de 1930, e, até mesmo, fatos mais recentes como a volta das eleições diretas e o processo de impeachment do presidente Collor foram frutos de arranjos e negociações que envolveram apenas setores de nossa elite política e econômica.
O povo se limitou a assistir, ou, quando muito, participou como mera massa de manobra, sem muita consciência do que ocorria.

Muito mais do que um projeto coletivo de construção de uma nação – a tentativa de construção do “paraíso” – a nossa história tem nos mostrado é que o povo muitas vezes é levado a acreditar em “salvadores da pátria”. Desenvolveu-se , na mentalidade coletiva ,a falsa crença em dois mitos: o mito de que o Estado todo- poderoso pode prover todas as necessidades da população e a crença no carisma individual de certos indivíduos, dotados de uma aura messiânica, que seriam capazes de conduzir o povo à terra prometida.
Foi assim com D Pedro II, foi assim com Getúlio Vargas, foi assim com Jânio Quadros, foi assim com Collor e tem sido assim com Lula.Foi assim em toda a História brasileira, onde o Estado sempre se fez presente mas de uma forma errada, perdulária e ineficiente. A onipresença do estado onde não se deveria fazer presente, e sua ineficiência onde deveria estar presente, aliado ao personalismo, ao populismo, ao clientelismo e à corrupção generalizada sempre foram, infelizmente, o padrão de nossa história política.E a causa de todo o atraso e das desigualdades.
A mentalidade predominante, mas que felizmente começa a ser superada, é a de que o desenvolvimento de um país e o bem-estar de um povo está ligado à maior ou menor capacidade do governante de plantão ser simpático e promover políticas assistencialistas ao estilo do “Fome Zero”, do “Bolsa família”, dentre outros; ou a capacidade do Estado de tomar enormes somas de uma parte da sociedade sob a promessa se promover a redenção de toda a coletividade
Ao persistir nesta mentalidade equivocada, o povo, que deveria ser o verdadeiro agente da construção do “paraíso”, torna-se um mero ente passivo da História, merecedor apenas da condescendência das elites que dirigem o país.

Por que não começar um projeto que realmente incorpore os milhões de excluídos na dinâmica da construção do paraíso?A inclusão de milhões neste processo de construção certamente começa por dar às crianças e jovens pobres as mesmas oportunidades de uma criança rica ou de classe média, isto é realizar no ensino público deste país uma verdadeira revolução educacional. A educação de qualidade dará ao povo condições para a ascensão social, pela ampliação de seus conhecimentos e de sua qualificação profissional e para o exercício pleno da cidadania, pela abertura de sua consciência para sua real situação no quadro político e econômico em que estão inseridos. Tornará o povo, certamente, num agente ativo de sua história.

Para que não se diga que estamos falando apenas em utopia, tomemos os países asiáticos como exemplo: todo o bem- sucedido esforço de construção de países como o Japão, Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura começou por uma revolução educacional que, aliada ao incentivo à livre iniciativa e à competitividade, possibilitou o progresso acelerado e a conseqüente inclusão de milhões de pessoas neste processo.

No nosso caso, a incorporação de milhões no projeto e no processo de construção nacional é o que fará o paraíso parecer mais próximo do que sonhamos. Certamente, nunca o alcançaremos, mas, pelo menos, viveremos num país menos injusto e mais democrático. O que não é pouco.

150606

3 comentários:

Lima disse...

Concordo que a educação é a chave da redenção deste país. Todos os países que sairam do subdesenvolvimento para o crescimento fizeram a sua revolução na educação. No brasil, a educação sempre foi desprezada, o dinheiro é desviado pela corrupção e os professores são mal pagos

Fernando Soares disse...

Lima
Falta ao Brasil uma revolução educacional. Reformas só não bastam.A mentalidade imediatista do brasil não considera um projeto que traria os primeiros efeitos positivos dentro de 15 anos, talvez. O problema é que o primeiro passo nunca é dado, e assistimos, ano após ano, a degradação do ensino público, e a perpetuação do subdesenvolvimento e das grandes diferenças sociais.

Anônimo disse...

intiresno muito, obrigado